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Sabe quem é o Bruno? Um dos maiores criadores de hits sertanejos do país

Divulgação/Arquivo pessoal
Bruno Caliman diz que não se importa de não ter tão famoso quanto os intérpretes de suas músicas. "Tenho uma vida confortável" Imagem: Divulgação/Arquivo pessoal

Mariane Zendron

Do UOL, em São Paulo

31/01/2015 07h00

Em um dia de 2013, um cabeleireiro da cidadezinha de Teixeira de Freitas, no sul da Bahia, atendia mais um cliente e comentava com ele as notícias daquela semana. "Como é que pode aquela música horrível ganhar prêmio no melhores do ano do 'Faustão'? Por isso a música brasileira está acabando", reclamava o profissional. A música em questão era "Camaro Amarelo", cantada por Munhoz & Mariano, e o cabeleireiro não sabia, mas estava cortando os cabelos do compositor da canção.

Desde 2007, quando entrou nas paradas com "Locutor", na voz de Léo Magalhães, Bruno Caliman emplaca pelo menos uma música entre as dez mais tocadas do ano e já está acostumado a passar despercebido, enquanto os intérpretes ficam muito mais famosos que ele. Seu mais recente sucesso, "Domingo de Manhã", cantada por Marcos & Belutti, foi em 2014 a mais tocada nas rádios, segundo relatório da empresa de monitoramento Crowley, e  a terceira música mais procurada no Google

O fato de não ser conhecido pelos fãs de suas músicas, no entanto, parece não incomodar o artista, que passa o dia compondo em seu quarto, em Teixeira de Freitas, município que tem pouco mais de 150 mil habitantes. "Sabe aquele cara que inventa um videogame em que todo o mundo se vicia, mas ninguém sabe o nome do inventor? É a mesma coisa", disse ele, por telefone, ao UOL.

O compositor conta, por exemplo, que, durante a gravação do DVD de Munhoz & Mariano, teve de deixar o camarote por alguns instantes e, na volta, foi barrado por seguranças. "Muitas vezes, minha música é tocada em uma casa de shows, enquanto sou barrado do lado de fora. Quando eu falo, ninguém acredita. Às vezes a pessoa dá um Google." 

Hoje, aos 38 anos, casado há 15 e com três filhos, Caliman já não liga para a fama. Diz que não tem mais idade para "pagar de gatinho", mas já sonhou muito em ter milhões de fãs, como os intérpretes de suas músicas. Entre eles Luan Santana ("Te Esperando"), Lucas Lucco ("Destino"), Fernando & Sorocaba ("Gaveta") e muitos outros.

Bruno Caliman

  • Reprodução

    Muitas vezes, minha música toca em uma casa de shows enquanto sou barrado do lado de fora

    Bruno Caliman, compositor
Tocando com papel e caneta

Quando ainda sonhava em ser famoso, aos 16 anos, o garoto nascido em Itamaraju, na Bahia, começou a carreira musical ao ser excluído de uma banda formada pelos seus colegas de escola. "Disseram que não havia mais lugar na banda. Fui para casa, aprendi umas quatro notas e voltei com algumas músicas prontas. Me deixaram entrar na banda na hora e, quando perguntaram o que eu tocava, dizia que era papel e caneta."

Anos depois, Caliman passou a criar jingles para uma agência de publicidade. Após cinco anos, a agência fechou, e ele se viu desempregado e com a filha recém-nascida em casa. A solução foi levar as músicas de porta em porta. No começo dos anos 2000, com violão debaixo do braço, ele ia até as cidades do interior da Bahia, de Piauí e de Minas, sentava em alguma praça e criava os jingles para farmácias, supermercados e lojas de todo tipo. "Mostrava os jingles para os donos e voltava para casa com bolinhos de cheques de R$ 50, R$ 60."

Hoje, os bolinhos de cheques têm valores com muito mais dígitos, mas ele não revela seu lucro mensal. Diz apenas que tem uma vida confortável e que pode manter um bangalô na praia e pagar os estudos dos filhos. "O compositor não fica rico como os intérpretes de sua música, mas tenho uma vida confortável. Trabalhei para poder ficar em casa, com tranquilidade. Faço o que amo sem sair de casa."

De Graciliano Ramos a Bob Dylan

O passado de criador de jingles para farmácias deu bagagem suficiente para que Caliman incluísse com facilidade marcas em suas músicas. É dele também "Fiorino", hit na voz de Gabriel Gava, cujos versos mais famosos são "De Land Rover é fácil, é mole, é lindo/ Quero ver jogar a gata no fundo da Fiorino".

No entanto, Caliman diz que não basta apenas um refrão fácil, com cara de jingle, para ele fazer uma música. O compositor conta que se inspira em ídolos como Raul Seixas, Bob Dylan, Milton Nascimento e Renato Teixeira para incluir coisas do cotidiano em letras românticas. Essa mistura até criou um termo no meio sertanejo, o "calimanismo", que, segundo o próprio Caliman, é "falar de amor sem usar o verbo amar". Como exemplo, ele cita um verso de "Domingo de Manhã", quando Marcos e Belutti cantam que eles poderiam estar "no espaço em um módulo lunar", mas preferem ouvir a voz de sono da amada no domingo de manhã.

Para "Te Esperando", grande sucesso na voz de Luan Santana, Caliman foi além de ídolos musicais e bebeu em fontes literárias. "A música nasceu cheia de acordes e melodias, mas lembrei que tinha lido 'Mémórias do Cárcere', de Graciliano Ramos. As primeiras cem páginas eram bem tediosas, justamente para dar a ambientação do dia a dia daquele confinamento. Como a música falava de uma menina com uma vida chata, simplifiquei os acordes. A música só se 'abre' quando ele diz que continuará esperando por ela."  

O cantor ainda diz que uma de suas maiores alegrias é poder fazer músicas sem ofender os sertanejos mais tradicionais. "Ser elogiado por Chitaõzinho & Xororó é uma bênção."

Caliman

  • Reprodução/Facebook

    O compositor não fica rico como os intérpretes de sua música, mas tenho uma vida confortável. Trabalhei para poder ficar em casa, com tranquilidade. Faço o que amo sem sair de casa

    Bruno Caliman, compositor
 

Sonho de gravar CD

Apesar de querer continuar na tranquilidade do lar e do anonimato, Caliman diz que ainda sonha em gravar um CD, mas que ainda não conseguiu porque seus amigos cantores não param de "pegar" suas músicas. "Tem gente que já compõe pensando no artista, mas eu não. Sempre componho pensando que um dia vou gravar as músicas. Os cantores até brincam que não me deixam gravar porque 'levam as músicas embora'". 

Mas ele diz que tem um plano para finalmente conseguir gravar seu CD. "Vou fazer músicas sem refrão, totalmente antipopulares. Vou fazer um negócio tão absurdo, que ninguém vai querer essas músicas", brinca.

Enquanto isso não acontece, os cantores continuam vendendo discos com suas canções. Luan Santana, por exemplo, trabalha atualmente em mais uma faixa de Caliman. "Escreve Aí" deve abrir o DVD acústico do artista, com lançamento previsto para maio deste ano. Presente no repertório de Luan, a música tem no arranjo um estalar de dedos que já é acompanhado pelo público nos shows. Ou seja, já pegou.