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Em show, Maria Bethânia faz leitura e pede poesia no ensino público

Tiago Dias

Do UOL, em São Paulo

26/02/2015 02h28

Maria Bethânia provou do fanatismo que somou em cinco décadas de carreira no início da temporada do show "Bethânia e as Palavras", no Sesc Pinheiros, em São Paulo, nesta quarta-feira (25). Com raras aparições na rede, ela arrastou filas nas unidades e esgotou os quatro dias de apresentação em 25 minutos. Em um dia caótico de chuva na cidade, o teatro lotou e havia até fila de espera para ingressos remanescentes. Tudo para poder ver Bethânia bem de perto a preço popular de R$ 18 a R$ 60.

Quem esperava um espetáculo nos moldes de "Abraçar e Agradecer", turnê oficial de comemoração dos 50 anos, teve, na verdade, um presente maior: Bethânia em um estado ainda mais puro, envolta com seus poemas favoritos, em um teatro menor, mais intimista que as casas de shows onde costuma se apresentar.

Era Bethânia a declamar, acompanhada de interlúdios musicais precisos do violonista Paulinho Dafilin e do percussionista Carlos Cesa. Vestida de maneira sóbria, com terno branco, sempre descalça e com as habituais pulseiras, manteve-se no canto esquerdo, ao pé de um pedestal com os textos.

A Bethânia cantora --a dançar no centro do palco -- só veio no bis não programado. "Senhores, é um show pequeno, uma leitura. Eu estou aqui nesse teatro, e meu Deus. O que podemos fazer, hein?", questionou os músicos. Escolheu "Reconvexo", do irmão Caetano Veloso, para brindar o público. 

Intelectualmente, é um desafio, ela reconhece, declamar poemas em "tempos tão difíceis". Ao relembrar o professor de ginásio Nestor Oliveira, cujo poema "Ciclo" Caetano musicou, ela pediu para que a poesia esteja presente nas salas de aula. "Eu ainda acredito no ensino público", disse. Bethânia emociona, mas seu costumeiro sarcasmo -- ou 'piti', como os fãs costumam chamar nas redes sociais -- sempre está presente. No bis, ela respondeu, séria, a um fã que pedia uma foto: "Por favor, ainda estou no palco". 

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"Bethânia e as Palavras" é um show em que a cantora expõe suas descobertas no mundo literário. Ainda influenciada pelo espetáculo "Opinião", que a projetou em 1965, suas turnês sempre costuraram canções com poemas. A mistura aqui é o inverso: textos marcantes da carreira são entremeados por trechos de conhecidas canções, como "Marinheiro Só" (domínio público/adaptação Caetano Veloso), "Dança da Solidão" (Paulinho da Viola) e "Olhos de Lince", de Jards Macalé. Em atos, ela desdobra suas descobertas: do mundo, do amor, do Brasil profundo.

Assim, a leitura do trecho de "Grande Sertão: Veredas", de Guimarães Rosa, em que Riobaldo admite sua paixão por Diadorim, é acompanhada do sucesso "Meu Primeiro Amor". Ao recitar "Navio Negreiro", de Castro Alves, cantou "Zumbi", de Jorge Ben. Dentro do contexto paulista, com a crise hídrica, ela exalta o sertão com o poema "Águas e Mágoas do Rio São Francisco", de Carlos Drummond de Andrade. "Está secando o velho Chico. Está mirrando, está morrendo", ela declama, salientando que o texto é de 1977. Poderia ser de hoje.

Já a poesia portuguesa encontra eco nos poemas de Sofia de Melo Breyner Andresen e, principalmente, Fernando Pessoa -- seu poeta favorito, a propósito, ganha um ato só seu. "Poema do Menino Jesus", do heterônimo Alberto Caeiro, é seguido por "Cálix Bento" e "Romaria", acompanhada por palmas.

O projeto começou em Minas, em 2009, quando Bethânia foi convidada pela UFMG para participar do ciclo de conferências "Sentimentos do Mundo". O próximo passo seria um blog de poesia, mas o site foi engavetado após o pedido de R$ 1 mi na Lei Rouanet em 2011 gerar polêmica. O show deve ganhar DVD ainda este ano.