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"Velocidade não é o que importa", diz virtuoso da guitarra Yngwie Malmsteen

Mark Weiss/WireImage
17.jun.2014 - Yngwie Malmsteen toca no evento Deuses da Guitarra ao lado de Gary Hoey e Bumblefoot em Englewood (EUA) Imagem: Mark Weiss/WireImage

Daniel Buarque

Do UOL, em São Paulo

08/04/2015 06h15

Tão surpreendente quanto se o velocista jamaicano Usain Bolt desdenhasse da sua competência ao acelerar em uma corrida de cem metros rasos, o maior nome do virtuosismo musical no rock pesado diz que não é preciso ser rápido para tocar guitarra como ele.

Apesar de ser imediatamente associado com notas agudas tocadas em alta velocidade em solos intermináveis, o guitarrista sueco Yngwie Malmsteen nega que a rapidez seja a prioridade em suas composições, e defende que tudo o que faz tem sentido musical muito aprimorado.

“A velocidade em que se toca não tem importância em si. Se você prestar atenção no que eu toco, minha música é muito mais de que só velocidade. Tocar rápido, mas sem valor musical, não tem sentido. Paganini é uma referência rápida, mas cheia de sentido. O mais importante é o valor musical”, disse, em entrevista ao UOL, se referindo ao compositor italiano Niccolò Paganini, sempre citado ao lado de Jimi Hendrix como suas principais influências.

O guitarrista é uma das atrações do segundo dia do festival Monsters of Rock, que acontece em São Paulo nos dias 25 e 26 deste mês.

Sempre que discute seu estilo musical, Malmsteen usa referências relacionadas à música erudita, que fez parte da sua formação desde criança. Ele diz, entretanto, que jamais trocaria a guitarra pela pompa de uma orquestra formal.

"Eu adoro o lado teatral do rock, as luzes, a fumaça, a empolgação de estar no palco. Adoro o que eu faço e não tenho vontade de tocar na atmosfera de um concerto erudito", disse, um tanto lacônico, mas simpático, ao telefone, preferindo não se prolongar muito nas respostas.

Um exemplo dessa paixão pelo lado teatral do rock é que ele sempre comenta que o momento que o jogou para o mundo do rock foi quando, ainda criança, assistiu às imagens de Jimi Hendrix colocando fogo em sua guitarra.

Yngwie Malmsteen

  • Mark Weiss/WireImage

    A velocidade em que se toca não tem importância em si. Se você prestar atenção no que eu toco, minha música é muito mais de que só velocidade. Tocar rápido, mas sem valor musical, não tem sentido. Paganini é uma referência rápida, mas cheia de sentido. O mais importante é o valor musical

    Yngwie Malmsteen, desfazendo o mito de que ser virtuoso na guitarra significa tocar rápido (na foto, o guitarrista posa com Bumblefoot, do Guns ´n´ Roses)
Parte dessa empolgação com os palcos está na paixão que ele diz sentir por tocar, mesmo muitas décadas depois de ter começado. "Isso nunca passa. Sinto a mesma paixão compondo, no estúdio e no palco, com o público, que sentia quando comecei", disse, prometendo levar tudo isso para o show do festival em São Paulo.

Apesar pelo apreço pela técnica, o guitarrista diz não gostar do o debate que tradicionalmente se trava entre virtuosos e roqueiros mais tradicionais, como se houvesse uma separação entre técnica e sentimento. "É um argumento muito fraco o de que não há sentimento na técnica. Se você toca um adágio, por exemplo, é algo muito emotivo e muito técnico ao mesmo tempo. Por outro lado, é possível tocar blues sem nenhuma técnica e também sem nenhum sentimento. Depende do que se está tocando. Acredito que pode ter muito sentimento em músicas que são compostas com muita técnica e orquestração", disse.

O primeiro virtuoso

Sempre que um guitarrista de heavy metal sair tocando solos sem parar tentando demonstrar todo seu apuro técnico e destreza, ele vai estar, mesmo que indiretamente, fazendo uma reverência a Malmsteen. Foi graças ao guitarrista sueco que as referências eruditas se consolidaram no rock pesado, e tocar guitarra passou a ser alvo de disputa de técnica e velocidade entre os músicos.

Segundo Robert Walser, autor do livro “Running with the Devil”, uma das principais referências acadêmicas sobre o heavy metal, desde o fim dos anos 1960 havia guitarristas fazendo experimentos em que incluíam influências de compositores europeus de música erudita. Mas foi com Malmsteen, no começo dos anos 1980 que o virtuosismo conquistou espaço definitivamente no mundo do rock pesado.

O próprio Malmsteen já alegou, entretanto, que quem revolucionou o rock de verdade com virtuosismo foi Van Halen, mas a transformação técnica que ele levou pessoalmente ao estilo foi mais grandiosa, segundo o pesquisador.

Malmsteen admite que começou a tocar guitarra inspirado por um lado por guitarristas como Jimi Hendrix e Ritchie Blackmore, mas que acabou criando um novo estilo musical ao misturar o rock com influências de música erudita. "Não sei bem como aconteceu. Comecei tocando blues e rock clássico, passei a aprender violino e outras coisas eruditas completamente diferentes e acabei desenvolvendo esse meu estilo", disse.

A partir dele, Jimi Hendrix passava a ser misturado com Bach e Beethoven; Ritchie Blackmore era mesclado com Paganini e Vivaldi, e as referências de música erudita passaram a fazer parte deste mundo tão diferente das salas de concerto. "Os solos de Malmsteen não apenas recriavam a retórica de seus heróis do virtuosismo, Bach e Paganini, como ele introduziu ainda mais recursos harmônicos e técnicas avançadas que o levaram a alcançar a agilidade de um violinista virtuoso", diz Walser.

O guitarrista rejeita, entretanto, qualquer comparação simplista entre estilos como rock e erudito, alegando que os dois estilos são muito mais variados de que as pessoas costumam aceitar. "Nem toda música erudita é igual, e nem todo rock é igual", disse.

Yngwie Malmsteen 2

  • Em geral, música erudita é mais complexa, por ter uma orquestração e um desenvolvimento da composição. O rock é mais direto, segue o blues e a repetição e cinco notas musicais. Nesse sentido, meu estilo de tocar hoje em dia é puramente erudito, sem nada de rock quando estou compondo. As escalas musicais que uso são diferentes, as variações são diferentes

    Idem, explicando a diferença entre rock e música erudita
"Em geral, música erudita é mais complexa, por ter uma orquestração e um desenvolvimento da composição. O rock é mais direto, segue o blues e a repetição e cinco notas musicais. Nesse sentido, meu estilo de tocar hoje em dia é puramente erudito, sem nada de rock quando estou compondo. As escalas musicais que uso são diferentes, as variações são diferentes”.

Elitista

Esse tipo de mistura de elementos e técnicas eruditos no rock, entretanto, rendem a Malmsteen a fama de elitista. Na entrevista, isso parece se comprovar quando ele nega ter qualquer tipo de interesse em músicas "simples demais", como o punk e o grunge.

"Nunca toquei e nunca escuto. Até consigo entender o motivo de as pessoas gostarem desse tipo de música, mas não é algo que me atraia ou que me intrigue. É muito simples para mim. É como um livro infantil comparado com uma obra de Ernest Hemingway. Não me desafia o suficiente, então nunca quis tocar”, disse.

O desafio constante, ele diz, é o que o atrai para seu estilo. "Não gosto de nada fácil. Tem que haver algum desafio todas as vezes em que pego na guitarra", explicou, complementando que até hoje ainda toca diariamente para manter sua técnica.