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Poderiam aposentar? Principais bandas do Monsters têm 40 anos de estrada

Ide Gomes/Frame/Folhapress
Rob Halford, vocalista do Judas Priest, banda inglesa fundada em 1969 Imagem: Ide Gomes/Frame/Folhapress

Daniel Buarque

Do UOL, em São Paulo

16/04/2015 06h00

O heavy metal costuma ser tratado pejorativamente como um estilo musical de adolescentes. Pois as noites do festival Monsters of Rock, no próximo fim de semana em São Paulo, vão ser dominadas não por jovens, mas por experientes sexagenários com décadas de experiência nos palcos. A idade média dos músicos principais das cinco headliners, bandas mais importantes da escalação e que vão encerrar cada um dos dias de shows, é bem acima dos 60 anos.

Ozzy, hoje aos 66, fez parte do Black Sabbath, banda que costuma ser apontada como a origem do heavy metal, no final dos anos 1960 - isso mesmo, há mais de 45 anos. O Kiss, de Gene Simmons, 65, e Paul Stanley, 63, se juntou para começar a tocar pouco depois, 42 anos atrás. Judas Priest, banda liderada pelo vocalista Rob Halford, 63, e que vai tocar nas duas noites do festival, foi formada originalmente pouco depois do Sabbath, mas ainda antes de virada para os anos 1970. Lemmy, do Motörhead, encabeça a lista dos vovôs, e vai completar 70 anos ainda em 2015. O Manowar foi a que se juntou mais tarde, somente em 1980, mas mesmo nela os músicos também já estão na casa dos 60 anos. Pelas regras da legislação brasileira, as principais bandas do festival poderiam ter se aposentado por tempo de serviço, pois já tocam juntas há mais de 40 anos.

Uma lista que fala de Ozzy Osbourne, Kiss, Judas Priest, Motörhead e Manowar poderia perfeitamente ser usada para falar sobre a história do rock pesado no mundo, mas são essas as melhores escolhas para encabeçar um festival em 2015?

O crítico Tom Leão, autor do livro “Heavy Metal: Guitarras em Fúria”, aposta que sim. Para ele, a escalação é um reflexo do fato de que os fãs de metal querem mesmo ver os clássicos, mesmo que falte renovação e pareça que estão vendo mais do mesmo. “Garimpando bem, até daria para fazer um grande festival sem bandas do século passado. A questão é: vai ter plateia pra assistir? Pelo menos, aqui no Brasil, o público prefere ver os mesmos de sempre. Pode ter Metallica todo ano, que lota”, afirma.

Dinossauros do rock: Tom Leão

  • Mario Anzuoni/Reuters

    Há toda uma geração que nunca viu Ozzy ou Black Sabbath, Kiss, Judas e terá a chance de vê-los agora, ainda na ativa e, talvez, no caso do Motörhead, pela última vez. Eu sempre quis ver o Led Zeppelin, por exemplo, mas quando eu tinha a idade pra ir a shows, no fim dos anos 1980, a banda já tinha acabado

    Tom Leão, autor do livro "Heavy Metal: Guitarras em Fúria"

Renovação x clássico
É verdade que a lista de bandas selecionadas para o Monsters é inquestionável em termos de relevância. Se essas cinco bandas continuam tocando ao vivo e atraindo milhares de pessoas aos shows é porque elas continuam sendo importantes para o heavy metal, mesmo que em grande parte seja por contribuições do passado.

Segundo Leão, o fato de bandas com mais de quatro décadas de estrada serem priorizadas em festivais do gênero não é necessariamente um sinal de falta de renovação no metal. Isso porque, mesmo sem haver grandes novidades, muitas pessoas no Brasil têm agora a oportunidade de ver ao vivo clássicos do estilo.

“Realmente, tirando a geração thrash (Metallica, Anthrax, Megadeth, Slayer), não rolou muita renovação desde os anos 90. Por outro lado, há toda uma geração que nunca viu Ozzy ou  Black Sabbath, Kiss, Judas (com o Halford de volta), e terão a chance de vê-los agora, ainda na ativa (e, talvez, o Motörhead, pela última vez). Eu sempre quis ver o Led Zeppelin, por  exemplo, mas quando eu tinha a idade pra ir a shows, no fim dos anos 1980, a banda já tinha acabado”, diz. 

O Monsters até vai ter bandas mais novas, como Black Veil Brides e Rival Sons, ambas formadas há menos de uma década, mas segundo o Leão, o festival precisa estar atento para não irritar os fãs mais conservadores. “Heavy metal, como jazz e blues, não pode mexer muito, senão os fãs chiam", alerta.

Dinossauros do rock: geriatra

  • Joel Ryan/Invision/AP

    Idosos são mais sensíveis aos efeitos deletérios [das drogas] e até mesmo quantidades menores são suficientes para promoverem efeitos indesejados (...) dentre outras coisas, alterações na memória, lentificação do raciocínio e dos reflexos (...) e limitação na capacidade de fazer e tocar músicas adequadamente

    Daniel Gomes, geriatra da Universidade Federal de Pernambuco

Aposentar não é preciso
Todo esse discurso sobre a idade dos músicos que vão se apresentar no Monsters é apenas um preconceito dessa reportagem, segundo o geriatra Daniel Gomes, da Universidade Federal de Pernambuco. Em enrevista ao UOL, ele explicou que nada impede que pessoas idosas tenham atividades como músico com qualidade igual à de quando eram jovens, e disse até que continuar tocando ajuda esses músicos sexagenários a se manterem saudáveis.

“O envelhecimento ocorre de maneira peculiar para cada indivíduo. Não se pode afirmar genericamente que idosos são incapacitados de desempenharem. adequadamente suas atividades profissionais. Com os grandes avanços na medicina, cada vez mais temos observado pessoas chegando à terceira idade em boas condições de saúde, ativas e aptas a exercerem, com brilhantismo, suas funções. Além do mais, os longos anos trazem, dentre outras coisas, a experiência, uma ótima ferramenta para a superação de obstáculos que a vida nos impõe”, diz. “É factível, para alguns músicos, manterem uma boa performance nos palcos ainda que em idades mais avançadas, com desempenhos semelhantes aos observados em épocas anteriores”, completa.

Segundo Gomes, além de ser preconceito achar que a idade atrapalha o desempenho dos músicos, é possível afirmar até mesmo que a atividade profissional deles, nos palcos e viajando o mundo, ajuda a mantê-los com saúde. “O fato de esses músicos terem permanecido em plena atividade profissional até idades mais avançadas, sobretudo em situações que costumam demandar esforço físico, como tocar bateria ou pular no palco, por exemplo, impactou positivamente na saúde e no envelhecimento dos mesmos. Via de regra, idosos que optam por postergar a aposentadoria e se mantêm ativos intelectualmente, sobretudo com ampla integração social e que, ainda por cima, seguem praticando atividades físicas, são menos susceptíveis a diversos agravos à saúde, como depressão, doenças cardiovasculares ou declínio de funções cognitivas”, explica o geriatra.

A principal ressalva que tem que ser feita no caso dos metaleiros sexagenários é em relação ao consumo de drogas, que não raro vem associado ao estilo de vida desses roqueiros.

“Os idosos são mais sensíveis aos efeitos deletérios dessas substâncias e até mesmo quantidades menores são suficientes para promoverem efeitos indesejados nesses indivíduos. O uso abusivo de drogas ilícitas e álcool, sobretudo quando por tempo prolongado, pode acarretar, dentre outras coisas, alterações na memória, lentificação do raciocínio e dos reflexos, danos ao fígado, sintomas depressivos, doenças cardiovasculares, isolamento social, aumento do risco de quedas e outros acidentes, prejuízo na qualidade de vida e limitação na capacidade de desempenhar suas funções habituais, neste caso em questão, fazer e tocar músicas adequadamente”, conclui Gomes.