Música

Escalação do Monsters "esquece" bandas brasileiras e privilegia as gringas

Daniel Buarque

Do UOL, em São Paulo

Se algum metaleiro quiser ver uma banda brasileira no palco do festival Monsters of Rock, que acontece no próximo fim de semana (25 e 26) em São Paulo, terá de ir ao segundo dia do evento e chegar bem cedo. Isso porque a única atração totalmente nacional da escalação, Doctor Pheabes, vai se apresentar às 12h15 do domingo, um horário pouco convidativo. Principalmente para quem pretende ver Ozzy Osbourne fechar a primeira noite e o Kiss fechar a segunda, ambos a partir das 22h30.

E isso ainda é uma conquista para o grupo brasileiro de hard rock. Quando as atrações do festival foram anunciadas originalmente, ainda em 2014, os organizadores pareciam ter se esquecido das bandas nacionais, pois nenhuma aparecia na lista.

Divulgação
A banda De La Tierra, que conta com integrantes da Argentina, do México e o brasileiro Andreas Kisser (à dir.) Imagem: Divulgação

Foi só no final de fevereiro que a Doctor Pheabes foi anunciada, junto ao De La Tierra (que conta com o brasileiro Andreas Kisser, do Sepultura, além de músicos da Argentina e do México). É preciso ressaltar, no entanto, outro brasileiro que tocará no Monsters: o baterista Aquiles Priester, que integra a banda alemã Primal Fear.

Mesmo contando essas outras duas participações nacionais, entretanto, a regra de chegar cedo para os shows continua valendo: De La Tierra e Primal Fear são as duas primeiras bandas a tocar no sábado, às 12h e às 13h05, respectivamente.

Lapso
A ausência de bandas brasileiras no Monsters é tratada como apenas um “lapso”, um deslize, pelos músicos que vão tocar no festival e mesmo por pesquisadores e especialistas no metal nacional. Para quem acompanha a cena do rock pesado no Brasil, ser metaleiro no país nunca foi fácil, mas o estilo musical não vive nenhuma crise específica no país atualmente.

Segundo o baterista Aquiles Priester, a questão é que um grande festival precisa focar os nomes de peso, para atrair público e garantir sucesso. “A cena metal brasileira vai bem, como sempre. Mas não dá para competir com as bandas que tornaram o heavy metal um sucesso e estão na ativa há 30 anos. Foram essas bandas que fizeram o estilo musical ser o que ele é hoje. Isso é fato. Talvez as pessoas possam pensar que é a última chance de ver todas essas bandas juntas”, disse o músico, em entrevista ao UOL.

pheabes

  • Reprodução/Facebook

    Temos muitas bandas boas no segmento que não têm a mesma oportunidade que a Dr. Pheabes. A ausência de festivais e a dificuldade de divulgação faz com que o meio fique um tanto estagnado

    Fabio Ressio, baixista do Doctor Pheabes

Para o jornalista Wilfred Gadêlha, autor do livro “Pesado”, sobre a história do heavy metal produzido no Estado de Pernambuco, a preferência por grupos de fora acontece em parte por causa de uma inversão do mercado musical no mundo, que empurra muitas bandas “gringas” para o Brasil. “Com a quebra da indústria fonográfica, as bandas internacionais se viram para ganhar dinheiro tocando. E, com o congestionamento dos mercados europeu e norte-americano, a saída são os ‘paraísos’ inexplorados, como o Brasil. Com isso, bandas grandes, médias e pequenas infestam o país”, explicou. Ao mesmo tempo, porém, Gadêlha diz que muitas bandas brasileiras têm ido tocar na Europa, mesmo que seja em um esquema mais mambembe.

Além disso, diz também o pesquisador, dar espaço para bandas nacionais nunca foi bem o perfil do Monsters, festival que teve quatro edições nos anos 1990 e uma recente, em 2013. “Desde a primeira edição, em 1994, as bandas brasileiras penam para entrar no cast. E ‘coisas’ como Virna Lisi, chegaram a tocar, sem ter nenhuma ligação com o metal”, disse ao UOL.

O baixista da Doctor Pheabes, Fábio Ressio, também diz que não problemas na cena do metal nacional, mas reclama da falta de oportunidades para boas bandas do país. “Temos muitas bandas boas no segmento que não têm a mesma oportunidade que a Dr. Pheabes. A ausência de festivais e a dificuldade de divulgação faz com que o meio fique um tanto estagnado”, disse, ressaltando que representar o Brasil nesta edição do Monsters será um prazer e uma grande responsabilidade.

Dificuldades
Apesar de ninguém querer responsabilizar o Monsters pela falta de espaço dado a bandas brasileiras, todos os músicos, críticos e pesquisadores entrevistados ressaltaram que grupos nacionais de metal enfrentam dificuldades de todos os tipos para encontrar mercado no país.

“É difícil fazer metal em qualquer lugar. [O gênero] Ainda sofre muito preconceito. E no Brasil não é diferente, mas isso não é motivo pra desistir ou tocar outro estilo só por causa da grana. Metal é assim mesmo, quebrando barreiras e sobrevivendo com muito trabalho e honestidade no som”, disse Andreas Kisser.

Para os especialistas em heavy metal, no Brasil o estilo tem que lidar com problemas que vão desde a falta de estrutura e a escassez de espaços para bandas locais tocarem até a baixa presença de público. “Fazer metal no Brasil é dureza”, afirmou Gadêlha. “Ainda há muito amadorismo na cena, com produtores picaretas.” De acordo com ele, parte do problema se dá com os próprios metaleiros brasileiros. “O brasileiro simplesmente não confia nos seus compatriotas, salvo raras exceções. Isso é algo que acontece, em menor escala, nos cenários estaduais. As bandas locais penam para tocar, enquanto quem vem de fora pega o ‘filé’”, explicou.

Aquiles

  • Julien Froment/Site oficial Aquiles

    A cena metal brasileira vai bem, como sempre. Mas não dá para competir com as bandas que tornaram o heavy metal um sucesso e estão na ativa há 30 anos. Foram essas bandas que fizeram o estilo musical ser o que ele é hoje. Isso é fato

    Aquiles Priester, baterista do Primal Fear

Segundo o pesquisador Wlisses James de Farias Silva, a dificuldade de tocar esse estilo existe em todo o mundo, e, no caso do país, ela se dá especialmente devido aos problemas econômicos enfrentados pela população. “Basta salientar que, mesmo em cidades onde ocorrem mais shows, como São Paulo, é praticamente impossível um fã ter condições de ir a todos os shows que queira pela simples falta de dinheiro para os ingressos, e essa falta de dinheiro acaba favorecendo as bandas estrangeiras, pois o fã acaba optando por ver uma banda que não está com frequência no Brasil”, explicou.

Autor da tese “Heavy metal no Brasil: os incômodos perdedores (década de 1980)”, Silva ressalta que, mesmo com todas as dificuldades, o heavy metal é muito popular em todo o país. “Basta dizer que sou do Acre, um Estado distante dos grandes centros, mas que desde os anos 1980 possui uma cena de heavy metal atuante, com bandas com produção autoral e diversos shows”, disse.

Destaques do metal brasileiro
Ainda de acordo com os músicos e críticos ouvidos pelo UOL, mesmo sem que as bandas nacionais tenham um espaço de destaque no Monsters, o heavy metal brasileiro segue vivo e com bandas de grande qualidade.

Para Andreas Kisser, alguns dos nomes mais relevantes da cena atualmente são os grupos John Wayne, Claustrofobia, Noturnall (que também conta com o baterista Aquiles Priester), além de Oitão, Worst e MX.

Já Priester defende que, se houvesse um festival de metal 100% nacional, ele contaria com as bandas Hangar, Noturnall, Korzus, André Matos, Dr. Sin, Worst, Krisiun, VoodooPriest, Sepultura, Angra, Hibria, Almah, Torture Squad e Project 46. “Não seria de interesse do público que curte metal no Brasil?”, questiona.

O Project 46, citado por Priester, foi a banda brasileira que recentemente mais recentemente impressionou Wilfred Gadêlha. “Vi um show deles, e a molecada toda cantou as músicas dos caras”, disse. Para ele, outro nome forte do metal nacional hoje é o Nervosa. “Mas eu, se fosse da ‘curadoria’, colocaria o Korzus, que lançou um disco muito f*** no ano passado.”

Metal com toque brasileiro
Segundo Wlisses James de Farias Silva, o heavy metal não tem fronteiras e é um estilo musical predominantemente homogêneo em todos os locais do mundo, tanto que dificilmente alguém ouve uma banda de heavy metal desconhecida e consegue acertar qual é seu país de origem apenas pela sonoridade.

Priester e Kisser, entretanto, dizem que hoje em dia percebem uma forte característica que diferencia as bandas brasileiras. “O brasileiro tem um jeito diferente e especial de tocar metal, principalmente os bateristas. As influências são na sua maioria de fora, mas o jeito de tocar tem muito de Brasil”, disse Kisser. “Os bateristas brasileiros são muito diferentes quando tocam heavy metal, e isso está diretamente ligado à nossa habilidade de tocar os nossos ritmos brasileiros dentro do estilo”, explicou Priester.

Reprodução
Capa do disco "Roots", do Sepultura, lançado em 1996 Imagem: Reprodução

Silva, por sua vez, diz que, mesmo antes de discos consagrados como o “Roots” do Sepultura, bandas como Vulcano, Genocídio e outras já haviam introduzido elementos musicais do país em seu trabalho. Já Gadêlha defende que, mesmo que as experiências no uso de ritmos regionais no metal não sejam novas, elas têm ganhado mais espaço nos últimos anos no mundo todo.

“O Sepultura tem um papel fundamental, já que foi a primeira banda a escancarar isso no cenário internacional. Claro, temos o Angra também, além de outros nomes que têm feito misturas, como o Tuatha de Danann, que faz em Minas o que muita gente faz lá fora [metal com música celta] ou até mesmo o pernambucano Cangaço, que une baião a death metal. Mas, via de regra, o metal é o mesmo em todo lugar – no [festival alemão da cidade de] Wacken ou em Caruaru”, disse Gadêlha. 

História do metal brasileiro
A inclusão de elementos “brasileiros” no heavy metal pelas bandas nacionais rompeu com uma tradição do rock pesado que vinha da época em que o estilo começou a aparecer no país, entre os anos 1970 e 1980, quando havia uma total rejeição à MPB e ao rock nacional.

Kisser

  • Felipe Panfili/AgNews

    É difícil fazer metal em qualquer lugar. [O gênero] Ainda sofre muito preconceito. E no Brasil não é diferente, mas isso não é motivo pra desistir ou tocar outro estilo só por causa da grana. Metal é assim mesmo, quebrando barreiras e sobrevivendo com muito trabalho e honestidade no som

    Andreas Kisser, guitarrista do Sepultura e do De La Tierra

Silva explica que o contexto político e econômico do Brasil das décadas de  70 e 80 ajudaram a moldar o rock pesado produzido no país. Segundo ele, a ditadura militar, por exemplo, fez com que a esquerda engajada visse tudo o que era estrangeiro como uma ação de dominação norte-americana. “Nesse aspecto, o heavy metal, e consequentemente seus músicos e fãs, eram vistos por essa parcela engajada da esquerda como ‘alienados’ e submissos à dominação cultural norte-americana.”

Para piorar, diz o pesquisador, a parcela mais conservadora da sociedade brasileira via os músicos e o público de heavy metal como “drogados” e “marginais”. “Para se estabelecer no Brasil, o heavy metal foi achincalhado por todos os lados, sofrendo perseguições tanto da dita direita como da esquerda do período”, disse.

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