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Música


Com público mais maduro, Monsters of Rock vira festival de metal "gourmet"

Leonardo Rodrigues <br>Felipe Branco Cruz <br>Marco de Castro <br>

Do UOL, em São Paulo

2015-04-27T06:00:00

27/04/2015 06h00

Esqueça aqueles antigos shows de metal dos anos 80 e 90 em que o público bebia até cair ou se mantinha de pé à base de hot dogs baratos. Nem mesmo o rock pesado escapou da "gourmetização". Hoje, quem vai a um festival como o Monsters of Rock – que aconteceu neste fim de semana (25 e 26) em São Paulo — encontra, além de uma infinidade de produtos e serviços de entretenimento, até uma área gourmet, onde o headbanger pode degustar um temaki de salmão, um lombo marinado no vinho branco, um hambúrguer de cordeiro ou até uma paella. Tudo, é claro, a preços salgados, entre R$ 15 e R$ 24.

Mesmo as opções mais simples pesam no bolso, como o bom e velho cachorro quente, que era vendido no Monsters a R$ 12. Encher a cara, então, nem pensar, com a lata de cerveja sendo vendida a R$ 9. "De uns anos para cá o pessoal está pensando que isso aqui é a Europa", diz o aposentado Antonio Mello, 62 anos, que foi ao festival no sábado para ver Ozzy Osbourne. "Não dá para pagar R$ 12 em um cachorro quente. Os caras deviam cobrar menos e ganhar na quantidade. Ainda mais agora que está todo mundo sem dinheiro no país", opinou.

Já o técnico de informática Alan Paixão, 23 anos, que veio de Itaúna (MG) para os dois dias do festival, disse que não comeria nada que era vendido dentro do evento – nas mãos, ele tinha um pacote de bolachas que havia trazido de fora. "Já vendi meu rim para comprar o ingresso, não vou gastar mais para comer aqui", brincou ele.  "E eu vendi minha mãe", completou seu amigo, o autônomo Janio Geraldo de Lara, 42, também vindo de Itaúna.

Para Lara, o preço do ingresso foi caro, mas justo, tendo em vista a escalação de bandas de peso no festival. "Mas o rango está caro demais", avaliou ele, que esteve em outras edições do Monsters nos anos 90. "Naquela época não tinha nada disso."

Outro veterano de Monsters, Michael Moura, o "Michael Killer", 43 anos, só não foi a uma edição do festival. Ele não concorda que a venda de lanches caros descaracterize um evento de heavy metal. "Não existe esse tipo de coisa, de que headbangers gostam das coisas bagunçadas. A gente gosta de organização. É preconceito achar que só porque é do metal quer ir em uma coisa zoada", disse Killer, que é vocalista da banda Disgrace, produzida por sua mulher, Daniela Bezerra, a "Danil Roll", 32 anos.

"Achei o preço caro. Mas a qualidade da comida compensa. No primeiro Monsters, não tinha nada para comer. O Monsters deste ano foi o único festival em que eu achei a cerveja gelada. Nos outros, estavam todas quentes", destacou.

Rafael Roncato/UOL
O bar do chef Henrique Fogaça era uma das opções para o público do Monsters of Rock Imagem: Rafael Roncato/UOL
Chef metaleiro

Se há alguém que entende de comida boa e heavy metal, esse cara é Henrique Fogaça, chef do restaurante Cão Véio, que serviu mais de 3 mil hambúrgueres gourmet em seu "stand" montado no Monsters. "A galera quer qualidade", justifica ele, que também é vocalista da banda Oitão e um dos jurados do programa "Master Chef", da Band.

Fogaça vendeu apenas um tipo de sanduíche: uma versão do hambúrguer Bruto, por R$ 18, que leva carne de kobe, queijo gruyére, farofa, bacon, tomate e cebola caramelizada no pão de batata. O chef, que supervisionou pessoalmente a montagem dos pedidos, quase não teve tempo de ver os shows. "Nosso hambúrguer combina com tudo, inclusive com metal."

Aumentando o conforto

Para o criador do Monsters of Rock no Brasil, o empresário José Muniz, não existe "gourmetização". A sofisticação dos produtos e serviços é apenas reflexo do crescimento do festival, que este ano reuniu nomes de peso como Kiss, Ozzy Osbourne e Judas Priest.

"Hoje você não tem só estudantes, mas também executivos, caras de 70 anos. Por que essas pessoas não podem ter uma área com um sanduíche mais elaborado? A gente só está aumentando o conforto, colocando algumas coisas de bom gosto", afirmou ao UOL Muniz, que trouxe festival para o país nos anos 1990.

"Porque as pessoas têm que ter coisa feia, coisa trash? Não pode ter rock and roll e ser uma coisa legal? A plateia cresceu, amadureceu e está preparada para receber outras coisas", disse o empresário, que, no entanto, soube preservar algo muito prezado pelos seguidores do metal. Ao contrário de outros eventos, o Monsters não cede espaço para a pista VIP. "Quem chegar primeiro, chegou. Sempre foi assim e vai continuar sendo."