Música

"Satisfaction" faz 50 anos e ainda intriga: obra-prima ou deslize machista?

Dean Goodman*

Do UOL, em Los Angeles

30/04/2015 06h00

O hino que transformou os Rolling Stones em divindades do rock completa 50 anos bem no momento em que a banda se prepara para pegar a estrada mais uma vez na América do Norte e apresentar o hit para fãs de diversas gerações cantarem juntos a cada show.

"(I Can’t Get No) Satisfaction", um ataque da banda ao consumismo desenfreado, foi gravada nos Estados Unidos, em maio de 1965, lançada pouco mais de três semanas depois e rapidamente catapultada ao topo das paradas, onde ficou por quatro semanas na primeira posição.

Trecho da letra de Satisfaction, dos Rolling Stones

  • Quando estou dirigindo meu carro / E o homem entra no rádio / Ele me diz mais e mais e mais / Sobre algumas informações inúteis / Que deveriam mover minha imaginação

    Mick Jagger e Keith Richards, versos iniciais da letra de "(I Can't Get No) Satisfaction"

A música "Satisfaction" foi não somente a primeira das nove dos Stones a liderar as paradas nos EUA mas também um sucesso mundial - a canção chegaria ao número 1 entre as mais tocadas no Brasil no ano seguinte, em 1966. Para a revista "Rolling Stone" e o canal de TV VH1, trata-se da maior canção de rock de todos os tempos.

Gene Simmons, baixista do KISS, ouviu pela primeira vez aos 15 anos, quando era ainda um imigrante israelense tentando se adaptar ao modo de vida americano em Nova York, onde vivia com sua mãe, uma húngara que sobrevivera ao Holocausto. A identificação com a canção foi imediata. "Eu já tinha ouvido Beatles e estava chapado com aquilo tudo. Já tinha ouvido algumas outras músicas do Stones antes também, mas quando 'Satisfaction' saiu fiquei paralisado", disse.

Bob Bonis/eBay
Keith Richards, que teve inspiração para riff de "Satisfaction" durante um sonho Imagem: Bob Bonis/eBay
Depois daquele riff
De fato, "Satisfaction" guardava poucas semelhanças com as músicas de blues e r&b que os Stones tinham lançado nos dois anos anteriores. Sua característica mais marcante é o riff (espécie de frase musical facilmente reconhecível) distorcido da guitarra de Keith Richards, que abre a faixa e volta a cada refrão. "Em dois segundos ouvindo, é provável que até quem não seja um grande fã dos Stones consiga reconhecer a música", afirma Ben Camp, professor assistente de composição na prestigiada Escola de Música Berklee, em Boston, que inclui "Satisfaction" em seu curso sobre os cem anos da música popular em língua inglesa.

"'Satisfaction' é o arquétipo da canção de riff", acrescenta Camp. "E riffs são uma coisa tão eficiente hoje quanto nos primórdios da música gravada, mesmo antes disso. [O riff] Permite que você prenda a atenção do ouvinte com algo diferente logo no comecinho da música."

Não tarda até que entre a voz de Mick Jagger cantando os três primeiros versos que já remetem a um tema antigo: as diferenças entre gerações e as frustrações que as acompanham. Nesse caso, jovens do pós-guerra como Jagger, então com 21 anos, desdenhando das mensagens consumistas de seus pais caretas. Jagger não quer saber de "useless information" (informações inúteis, ao pé da letra) saindo dos falantes do rádio ou das promessas do cara da televisão sobre "quão brancas minhas camisas podem ficar".

"As letras eram profundas", lembra Simmons. "Muito mais do que outras letras daquela época. As pessoas começaram a perceber que não bastava ficar só correndo atrás de um rabo de saia." 

Mas é claro que, como se trata dos Stones, o verso final da canção termina, sim, com uma história de azaração, ainda que patética. O personagem da música é um rock star viajado que no fundo só quer transar com a garota. Mas ela o dispensa dizendo "Baby, melhor voltar na próxima semana, porque eu estou numa fase ruim" (em inglês "on a losing streak", expressão usada no mundo esportivo para se referir a uma sequência de derrotas em jogos). A referência à menstruação, no entanto, é inevitável, e não é difícil imaginar a cara dos adolescentes ouvindo a música na época. 

Trecho 2 da letra de Satisfaction, dos Rolling Stones

  • Quando estou viajando ao redor do mundo / Fazendo isso e assinando aquilo / E tentando pegar alguma garota / Que me diz 'Baby, é melhor você voltar, talvez, na próxima semana / Porque eu estou numa fase ruim

    Mick Jagger e Keith Richards, tradução de trecho final de "(I Can't Get No) Satisfaction", dos Rolling Stones

Há quem enxergue em "Satisfaction" um reconhecimento involuntário do poder feminino por parte de Jagger - o mesmo que um ano depois seria acusado de misoginia pelas faixas "Under My Thumb" e "Stupid Girl".

Uma pesquisadora da Universidade de Virginia, em Charlottesville, porém, classifica a faixa como o típico exemplo de "cock rock" (subgênero musical dos EUA conhecido por letras e atitudes machistas em relação à mulher). Para Stephanie Doktor, que defendeu uma tese de mestrado sobre inúmeras versões de "Satisfaction", cantadas por artistas masculinos e femininos, a música "contém todos os ingredientes" de "machismo e sexualidade agressiva".

AP/Rock and Roll Hall of Fame and Museum, Bob Bonis
Aos 21 anos, Mick Jagger grava nos estúdios da RCA, em foto de 1965 Imagem: AP/Rock and Roll Hall of Fame and Museum, Bob Bonis
Como nasceu o hit
Pensamentos assim provavelmente nunca passaram pelas cabeças de Jagger e Richards quando compuseram a música. Na verdade, "Satisfaction" chegou bem perto de nem existir. Richards teve a ideia inicial da música num sonho, acordou rapidamente para cantar a melodia em um gravador de fita K7 e logo voltou a dormir, aos roncos, esquecendo de desligar o gravador. Nem ele, nem Jagger, que escreveu a maior parte da letra, ficaram muito entusiasmados com as possibilidades da música, inicialmente imaginada como uma faixa mais folk do álbum. 

Os Rolling Stones começaram a gravar "Satisfaction" no estúdio Chess, em Chicago, em 10 de maio. Esse estúdio, no lado barra pesada da cidade, era sagrado para os jovens ingleses, por ter sido a casa de seus heróis como Chuck Berry, Howlin' Wolf e Muddy Waters. Foi uma faixa de Berry ("Thirty Days"), aliás, que inspirou o verso "I can't get no satisfaction" - gramaticalmente ambíguo, já que pode significar tanto "Eu não consigo ficar satisfeito" ou "Eu não consigo não ficar satisfeito".

Quando chegaram ao estúdio, os Stones tinham só uma versão acústica da faixa, com Brian Jones tocando gaita. Dois dias depois, agora no estúdio da RCA, em Hollywood, começaram os novos trabalhos em "Satisfaction". Paradoxalmente, foi uma pessoa de fora da banda que teve papel fundamental no desenvolvimento da música.

Jack Nitzsche, compositor e arranjador da RCA, tinha trabalhado com um guitarrista profissional chamado Billy Strange, que plugou sua guitarra em um pedal de efeitos então obscuro chamado Fuzz-Tone. A sonoridade do pedal havia sido pensada para aproximar o som da guitarra ao de um instrumento de metal como trompete ou tuba. Foi Nitzsche quem apresentou o Fuzz-Tone a Richards - e assim se fez história. Os pedais Fuzz-Tone rapidamente sumiram das prateleiras de lojas de instrumentos musicais depois que "Satisfaction" foi lançada.

Nitzsche, a propósito, acrescentou outros ingredientes indispensáveis à música - é ele que se ouve batucando um pandeiro e tocando um piano praticamente inaudível na faixa original.

"O piano dele é tão brilhante que, na maioria dos aparelhos de som, você sequer consegue ouvir, mas se não estivesse lá...", comenta Andrew Loog Oldham, empresário e produtor da banda. Ele lembra ainda que depois de gravado esse piano, ficou "fácil" para os Stones continuarem a gravação e completarem a música. Depois que o trabalho todo estava pronto, coube a Oldham e ao arranjador Dave Hassinger transformarem a faixa no hino que todos nós conhecemos e aprendemos a amar.

Avançamos 36 anos no tempo, para 2001, e Jagger está caminhando pelas ruas de Miami quando uma garota de 9 anos educadamente se aproxima. Se tem uma coisa que ela sabe sobre os Rolling Stones é "Satisfaction". Ou melhor, a versão recente que Britney Spears havia feito da música, com algumas adaptações na letra. Os dois concordam que a nova versão ficou muito boa. A garotinha, hoje com seus 23 anos, já tem idade suficiente para conferir a versão de verdade, que provavelmente será tocada em um estádio de time de futebol americano mais próximo dela na nova turnê dos Stones. Satisfação garantida.

Dan Goodman é jornalista especializado na cobertura de música e showbiz de Hollywood desde 1992. Entrevistou centenas de astros do pop, incluindo Mick Jagger, Keith Richards, David Bowie, Jimmy Page e outros. É autor do livro de memórias e fofocas do rock'n'roll "Strange Days: The Adventures of a Grumpy Rock 'n' Roll Journalist in Los Angeles"

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