Música

Após capa recusada por nudez, Jonas Sá lança epopeia desbocada sobre sexo

Jorge Bispo/Divulgação
Com falsetes e versos lascivos, Jonas Sá faz pop desbocado Imagem: Jorge Bispo/Divulgação

Tiago Dias

Do UOL, em São Paulo

17/06/2015 07h00

Assim que lançou o primeiro álbum, “Anormal”, em 2009, Jonas Sá não fugiu da comparação. “É o novo Lulu Santos”, diziam os críticos na época. “Eu não me dei conta, mas eu cantava uma música desse disco com um tipo de vibrato semelhante ao de Lulu, um maneirismo que ele faz”, relembra.

Lançado no mês passado, “Blam!Blam!”, seu “segundo primeiro disco”, como ele mesmo gosta de chamar, enterra qualquer relação com o autor de "Como Uma Onda". Jonas não deixou de surfar nas ondas do pop. Muito pelo contrário. Produziu o elogiado segundo disco de Ava Rocha (“Ava Patrya Yndia Yracema”) e aprofundou a experimentação com amigos músicos (entre eles o irmão Pedro Sá, guitarrista de Caeteno Veloso, e o filho do baiano e amigo de infância Moreno Veloso).

“Blam! Blam!” é uma verdadeira epopeia dançante e desbocada sobre sexo. “Eu sou um cara lascivo”, ele reconhece, em conversa ao UOL. “Quis falar sobre sexo e, talvez em consequência das letras com imagens cinematográficas, eu caí no submundo e tive que falar do encontro da sexualidade com a brutalidade -- dois vieses que polarizam o ser humano”.

As letras libidinosas e os arranjos belos e intrincados passeiam pelas 'chansons' francesas (“J'espère, Adèle”), pelo techno oitentista (“Sexy Savannah“), pelo soul da Motown (“Gigolô”), e fazem de “Blam!Blam!” uma deliciosa colagem sonora.

A exemplo de discos como “Paul’s Boutique”, de Beastie Boys, e “Odelay”, de Beck -- produzidos por The Dust Brothers e Mario Caldato Jr. --, Jonas queria que o disco fosse construído apenas com samples de canções brasileiras dos anos 1960 e 1970. “O tropicalismo já tinha isso. O ‘Sgt. Peppers’ [clássico dos Beatles de 1967] também. Descobri que isso poderia ficar muito caro. Acabamos usando um trecho de uma canção do Novos Baianos na introdução de ‘Perdidos na Noite’, apenas um trecho na virada da música, e tive que abrir uma porcentagem para os autores da música”, explica.

Entre timbres graves e falsetes, Sá canta tramas desbocadas e confissões íntimas. Enquanto “Perdidos na Noite” traz o verso forte “A cor do sangue fosforescente/ Manchando o lenço / Que te dei de presente”, “Chat Routelle” é direta: “beijando mil travecos com você na mente”. Até a balada latina “Safo” padece na sacanagem, sem perder a ternura. “Eu fiz essa canção para mostrar meu lado feminino todo teu / carícias lesbianas para te dar, mesmo que seja eu”.

Divulgação
Capa de "Blam! Blam!", segundo disco do carioca Jonas Sá Imagem: Divulgação

Até Gal Costa se valeu dessa imagem em “Casca”. A música, escrita por Jonas e Alberto Continentino, foi pinçada para o novo álbum da baiana, “Estratosférica”, que reúne novos compositores: “Nas unhas tem um pouco d'eu / Nas coxas, o torpor / Congela o instante em que tremeu / Teus olhos de isopor”.

Nudez proibida
Embora fresco e moderno, “Blam! Blam!” foi gravado em 2012 e ficou guardado durante um ano. O motivo foi a capa do álbum: uma foto do ventre nu de uma mulher negra. Em pleno 2014, a imagem do fotógrafo Jorge Bispo, conhecido pela série “Apartamento 302″, em que fotografa mulheres nuas fora dos ditos “padrões”, gerou polêmica e emperrou o lançamento do álbum.

"Mandamos para a fábrica Novodisc e eles falaram: ‘isso é um filme pornô?'", relembra Jonas. "'Não vamos fabricar isso não. O que me garante que eu não vou mandar a caixa com seus CDs por engano para um cantor gospel? Ele pode não trabalhar mais comigo. Vou perder dinheiro’”. Foi recusado por outros fabricantes com a mesma justificativa: medo de represálias de clientes da música gospel. Na mesma época, os filmes europeus "Ninfomaníaca" e "Azul é a Cor Mais Quente", com cenas de sexo, também foram recusados.

O cantor chegou a pensar em grudar um adesivo de um cacho de banana na imagem para liberar a impressão. A versão com a nudez escondida foi escolhida para evitar problemas nas plataformas de streaming. Jonas conta que vai conseguir trocá-las pela arte original, menos no iTunes. A Apple não permite nudez em sua loja digital e também vetou o álbum “Encarnado”, de Juçara Marçal, cuja capa traz a ilustração de uma mulher com os mamilos a mostra.

“Blam! Blam!” só conseguiu ver a luz no fim da prateleira em uma fábrica em São Paulo, longe da Zona Franca de Manaus. Jonas não tem dúvidas: “Foi uma censura industrial. Quando eu fiz essa capa eu sabia que estava provocando”, observa.

Não saiu ileso: além do veto das empresas, foi chamado de machista e racista por algumas pessoas. Ele rebate: “A nudez da mulher é essencialmente de consumo masculino? É uma questão de empoderamento, não de enfraquecimento. É arte erótica. Quer saber, cara? Acho que tem política nessa capa”.

E promete: na versão remixada do álbum, que deve ser lançada em breve, será a vez de um homem nu na capa. “A mesma coisa, só que dessa vez vai ser um ‘peru’”.

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