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Chico César fala de corrupção na música, mas diz: "política não é esgoto"

Tiago Dias

Do UOL, em São Paulo

30/06/2015 06h00

O cantor e compositor paraibano Chico César passou seis anos imerso na política antes de entrar no que chama de "Estado de Poesia", nome de seu primeiro disco em sete anos, lançado neste mês pelo projeto Natura Musical. Foi presidente da Fundação Cultural de João Pessoa em 2009 e Secretário de Cultura do estado da Paraíba em 2010, no governo de Ricardo Coutinho (PSB). Saiu enfraquecido, segundo os críticos, principalmente depois de disparar contra o que chamou de "bandas de forró de plástico". 

A política, no fim, não saiu de seu radar e norteou a conversa com o UOL em sua casa, em São Paulo. Para Chico, a corrupção é uma prática inerente ao sistema, inclusive no meio artístico. "Há uma associação entre empresários de bandas, secretários de cultura, mulheres de prefeito. É uma clientela", diz ele.

Em contrapartida, se diz otimista: "A política é uma atividade muito nobre. Não acho que seja o esgoto da sociedade". Ao relembrar da série "Sex and the City", que adorava assistir na TV, diz que a classe média vai precisar ser menos consumista no futuro, e sentencia: "Acho inevitável a volta de Lula".

Em sua volta a São Paulo, no início do ano, Chico se cercou de jovens músicos de sua terra natal e se abriu para o amor no retorno ao estúdio. Na primeira parte do disco, o sentimento tem nome: a paraibana Bárbara Santos, paixão à primeira vista. É para ela canções como "Caracajus", escrita quando Chico estava em Caracas, onde cantou no velório de Hugo Chávez, e Bárbara em Aracaju. Os versos são apaixonados -- e sensuais: "A fruta de seus lábios / a alma saindo pela boca / os lábios de sua fruta calma / derramando em calda a polpa".

No lado B, pulsa outro tipo de amor: social e político. Há canções sobre a negação do racismo em "Negão", opressão aos gays em "Alberto" e a história de dois mendigos que são expulsos de uma praça perto da sua casa em "No Sumaré", bairro paulistano onde mora desde que estourou com "Mama África", em 1996. 

O disco se encerra em tom épico, com a dylanesca "Reis do Agronegócio". Convidado por indígenas, que ocuparam o Congresso Nacional no Dia do Índio deste ano, subiu em plenário e, tal qual um trovador, cantou os versos sobre o "agrebiz feroz, desenvolvimentista", com dedos apontados ao "ruralista cujo clã é um grande clube, inclui até quem é racista e homofóbico".

UOL - Na canção "No Sumaré", você conta a história de dois mendigos que moravam na praça e foram expulsos. É uma história verídica?
Chico César - É uma história real. Estamos em um bairro super bonito, vem dois mendigos (um deles, travesti) e ocupam um lugar abandonado, fazem daquele lugar um jardim. A "não aceitação" do outro fez com que eles fossem expulsos. Um morador da região se viu no direito de colocar até grades na praça, que é um espaço público. Eu estava lendo uma biografia muito boa do Adoniran Barbosa e o livro trata muito das ocupações. Adoniran tinha muitos sambas sobre isso, a mais famosa é "Saudosa Maloca". ["No Sumaré"] É uma das primeiras canções que eu fiz para esse disco. Aí eu fui sentindo que estava de novo sendo compositor, não ficava apenas pensando na gestão [da Secretaria].

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Sua primeira música, então, foi sobre uma atitude conservadora em São Paulo. Como foi sua volta à cidade?
É minha cidade preferida no mundo. Sempre que me encontra, o Djavan diz: "Pare de brincar de ser alternativo, venha para o Rio". (risos). Sempre digo que Catolé do Rocha (cidade paraibana onde nasceu) é minha mãe, João Pessoa é minha namorada, e São Paulo, minha amante. É como os imigrantes europeus em Nova York, eles chegam e veem a Estátua da Liberdade. Aqui você chega e vê o rio Tietê, poluidaço, e diz: "Nego, a barra aqui vai ser pesada". Tem que ter bom pulmão, boas pernas e bom coração. Essas contradições que explodem no país se manifestam de maneira mais radical aqui, mas se você pensar, São Paulo elegeu Luiza Erundina como prefeita, uma mulher paraibana, quando ela não seria eleita nem a vereadora em João Pessoa. Celso Pitta, preto e carioca --tudo bem que o Maluf elegeria até um poste. Mesmo com desgaste do PT, elegeu o [Fernando] Haddad, que faz uma administração interessante.

Eu acho que as pessoas podem fazer seus panelaços, porque ao mesmo tempo aqui tem uma das maiores paradas gays do mundo. O panelão aqui ferve para todos os lados. E uma coisa interessante é a cultura na periferia. Tem sarau, teatro. A cidade transbordou, a periferia virou o próprio centro. Tem o pessoal do [selo musical] Laboratório Fantasma, lá na zona leste, com o Fiote e o Emicida, que reorganiza a cultura. As pessoas que pensam na redistribuição da música, hoje, olham para a periferia. Isso, para mim, é São Paulo.

E sua imersão na política? Muitos críticos disseram que você saiu enfraquecido da secretária. Como foi a experiência?
Paraíba é um estado onde tem uma pujança cultural muito forte, mas os recursos são pequenos. Estamos ali ao lado de Pernambuco, mas não dava para comparar, não tínhamos nem secretaria de cultura na Paraíba. Criamos uma. Pegamos equipamentos culturais sucateados, teatros mofados com ameaça de queda de teto. Fechamos tudo para reformar e a capital ficou quatro anos sem teatro. Não me assustei com as críticas.

Mas te deu um novo olhar para a política?
Eu acho que amadureci. A política é uma atividade muito nobre, não acho que seja o esgoto da sociedade. Precisamos resgatar esse lugar civil na política. Eu vejo esses enfrentamentos: "Ciclovia ou não ciclovia?" Todo dia às 18h eu vejo os carros parados na avenida Afonso Bovero [na zona oeste de São Paulo]. Eu, sempre a pé ou de bicicleta, porque não sei dirigir, fico pensando: "Quando as pessoas vão achar chique andar de metrô em São Paulo, e não só em Paris?" A nossa classe média precisa resgatar a política do bem viver, da convivência, achar bacana ver gente pobre pegar um avião para João Pessoa, e ver que isso é avanço.

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Uma das polêmicas durante a sua gestão certamente foi sua crítica às "bandas de forró de plástico".
Nós tínhamos cem dias de governo e um repórter de rádio veio me perguntar como seria a participação do Estado nas festas juninas. Eu não tinha nem dinheiro ainda na pasta e falei: "Com certeza não vamos contratar duplas sertanejas e grupos de forró de plástico. Temos que dar espaço para a cultura popular". Geraldo Azevedo foi vaiado em Campina Grande, na maior festa de São João do mundo, porque estava tocando Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga, e as pessoas esperando pelo show de Zezé Di Camargo e Luciano aos gritos. Geraldo Azevedo, que é uma moça das mais doces, com aquela educação de Petrolina, disse: "Olha, pessoal, se tem alguma coisa que está fora do lugar, não sou eu". Falei com a rádio de manhã, e a tarde já tinha o movimento "Fora, Chico" (risos). Aí veio empresário do Wesley Safadão criticando.

Há uma associação entre empresários de bandas, secretários de cultura, mulheres de prefeito. O empresário leva as mesmas bandas na festa de São João, no Natal, é uma clientela. Quando estava na Fundação, um artista amigo meu foi contratado para um show e disse: "Me dá o número da sua conta para eu me depositar os 10%". Eu disse que nunca tinha nada disso e ele rebateu: 'isso é normal'. Essa coisa da corrupção, que está em todos os lugares hoje, nas empreiteiras, nos bancos, está em todos os níveis de administração. O mercado quer dizer ao governo como eles devem se comportar. O mercado da coleta de lixo, de quem constrói prédios, asfaltam ruas, eles querem dizer: "Sempre foi assim, você entraram dizendo que vão mudar, mas vai ser desse jeito". O mercado da indústria da música é a mesma coisa. O Estado tem que fazer o que o mercado não faz.

O disco se encerra de maneira direta em "Reis do Agronegócio", uma canção de protesto.
O pessoal vibra quando eu digo: "Vocês abafam, mas está tudo no YouTube". O [letrista, Carlos] Rennó me deu esse poema e eu a musiquei. É um poema lindo, épico e necessário.

É uma crítica muito direta à bancada ruralista, em um momento em que o Congresso inteiro tem sido criticado pelo conservadorismo.
Nos últimos tempos nós conquistamos a união homoafetiva e 45 milhões de pessoas saíram da linha abaixo da pobreza, por mais que se critique a Bolsa Família. Você tem também a religião afrodescendente sendo valorizada. Tem um lado da sociedade que ficou observando isso e não gostou. Não que ela tenha perdido privilégios, apenas deixou de ser apenas dela para ser de mais pessoas. É como se você tivesse puxado uma parte da sociedade e dado cidadania à elas. É natural que grupos conservadores se manifestem, mas a sociedade não pode apenas assistir a essa reação, tem que dar a resposta. Você só governa com o outro, e isso é bom.

O que não poderia acontecer, mas acontece, é isso de "se você não me der a emenda parlamentar, se você não depositar US$ 20 mil na minha conta, não vou votar nisso". Isso sempre aconteceu, em todos os governos. Agora que veio à tona, vai deixar de acontecer. A sociedade está mais vigilante, mas não pode ser fascista. Não é todo mundo que é corrupto, o sistema que é. Parece que estamos em um avião com muita turbulência. Mas eu sempre acho que o buraco é menor que o Brasil.

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Em uma entrevista recente, Caetano Veloso disse que o ciclo do PT parece estar chegando ao fim. Qual é a sua opinião?
A impressão que eu tenho é de que a presidente Dilma é pouco hábil na condução da política, embora possa ser boa gestora. Acho que o governo do PT deveria ser mais ousado, fazer mais reforma agrária, dar mais terra para os índios, assentar os quilombolas. De certa forma, torço pela volta de Lula. Não é nem que eu torça, eu acho sua volta inevitável. Ele faria uma gestão mais ousada, e aí sim fecharia o ciclo.

Eu acho que a classe média alta e os ricos vão perceber que dá para viver com menos, não precisa ter uma conta gorda na Suíça. Vivemos em uma sociedade consumista, mas você pode viver bem com um carro, três calças, dez cuecas. Não precisa ser a mulher do Ferdinand Marcos [ex-presidente das Filipinas], que tinha um quarto só para os sapatos, ou aquelas mulheres de Nova York da TV... como é?

"Sex and the City"?
Isso. Uma consome sapatos, outra consome homens -- a Samantha consumia homens, eu super assistia (risos). A gente pode viver com menos e viver mais intensamente. Não é essa coisa de "quero que Dilma sangre" ou "ah, não ganhou meu candidato, então vou para Miami". Eu quero que melhore, e eu acho que vai melhorar. Sou muito otimista. Não me sinto alienado, mas tenho fé (risos).

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