Topo

Música

Filme resgata Aracy de Almeida muito além da jurada do Silvio Santos

Tiago Dias

Do UOL, em São Paulo

03/07/2015 06h00

Aracy de Almeida ainda está no imaginário dos brasileiros como a jurada implacável do programa “Show de Calouros”, nos anos 1980. No palco com Silvio Santos, ela era a personificação da malandragem carioca e malhava sem dó quem se arriscava no microfone. A plateia a vaiava, mas ela era firme: “Está todo o mundo com ouvido entupido”, rebatia.

Acontece que a carioca de Encantado, bairro da zona norte do Rio, foi muito maior do que a personagem mostrada nos vídeos daquela época. Apontada por estudiosos como uma das maiores cantoras de samba da era de ouro da música, ao lado de Carmem Miranda, de quem era amiga, Aracy deixou um legado ainda presente nos dias de hoje. Foi ela quem deu novo fôlego aos sambas de Noel Rosa (1910-1937), nos anos 1950, quando o repertório do compositor andava no meio fio do esquecimento.

Aleques

  • Ela era muito inteligente, articulada, uma mulher à frente do seu tempo, em uma época em que só havia muitos cantores. Enfrentava o machismo de igual para igual, não se abalava

    Aleques Eiterer, diretor de cinema


É com intenção semelhante, a de resgatar Aracy do limbo musical, que o curta “Araca – O Samba em Pessoa” estreia nesta sexta-feira (3), na sétima edição do In-Edit, Festival Internacional do Documentário Musical, que teve início no dia 1° e vai até 19 de julho, em São Paulo e Salvador.

“A memória que ainda guardam dela é equivocada”, observa o cineasta mineiro Aleques Eiterer, diretor do filme. “Ela era muito inteligente, articulada, uma mulher à frente do seu tempo, em uma época em que só havia muitos cantores. Enfrentava o machismo de igual para igual, não se abalava.”

Aleques não conhecia a fundo o trabalho de Aracy, até encontrar gravações dos anos 1940 em suas pesquisas musicais. “Eu estava bastante curioso a respeito das cantoras brasileiras antigas, e a única lembrança que eu guardava da Aracy era como jurada do Silvio Santos. Nem sabia da vertente como cantora”, relembra.

O produtor e compositor Hermínio Bello de Carvalho, amigo de Aracy, diz logo no início do filme que não gosta da fama que a amiga ganhou no fim da vida. “Eu acho lamentável que a Aracy tenha sido jurada e tenha sido aquele tipo de jurada.” Segundo ele, a cantora enxergava a oportunidade como um renascimento. Dizia que preferia estar trabalhando a ficar fazendo tricô em casa.

Malandragem estudada por Mário de Andrade
O curta traz apresentações preciosas de Aracy, na mesma época em que era jurada de Silvio Santos, e narra como aquela voz nasalada ressoou pela primeira vez na Rádio Educadora do Rio. A partir daquele momento, seu canto virou até estudo nas mãos de Mário de Andrade. Em uma conferência de 1943, o escritor e pesquisador elogiou e analisou “os nasais e a pronúncia vocálica da cantora”.

O estilo refletia uma personalidade popular e diversificada. “Comecei numa escola de samba, cantei muito macumba, cantei em escola protestante, fui aprendendo aquela malandragem da zona norte do Rio de Janeiro”, ela se recorda, em um depoimento mostrado no curta.

O jornalista Eduardo Logullo já havia entendido a complexidade da figura e tentado traduzir essa força no livro “Aracy de Almeida: Não Tem Tradução”, que reúne ensaios e trechos de entrevistas –foi o único presente para o centenário da cantora, em 2014.

Mas muita coisa há de se falar ainda sobre Aracy. Aleques sabe disso e guarda as diversas imagens captadas para começar a produção de um longa-metragem sobre a cantora em breve. Ao mesmo tempo, o pesquisador Sérgio Cabral finaliza a biografia do “Samba em Pessoa”.

“Pretendemos fazer um longa sobre ela, gravamos bastante coisa e temos muito material de arquivo que não usamos. O problema é mais a grana”, reclama o diretor. Segundo ele, uma parte considerável do orçamento do curta foi utilizada para pagar os direitos autorais das canções.

Outro fator que emperrou a negociação da liberação das músicas foi a completa ausência da família de Aracy. Ela morreu aos 74 anos, em 1988, sem deixar herdeiros –nunca se casou e jamais foi mãe. “Não encontramos ninguém. Parece que existe um sobrinho, mas ainda não conseguimos contato”, comenta Aleques. A tarefa não será fácil. Como Aracy costumava dizer: "O mingau está grosso".

"Araca - O Samba em Pessoa"
Exibições no In-Edit
Matilha Cultural, 03/07, 18:30h
CCSP, 09/07, 16h
CCSP, 10/07, 16h