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Guitarrista do Detonator viraliza com solos e impressiona astros do metal

Maurício Dehò

Do UOL, em São Paulo

19/08/2015 07h00

O quarteto de garotas que forma a banda de Detonator, o personagem interpretado pelo humorista Bruno Sutter, não está com ele só para fazer cena. Elas tocam pra valer. E uma delas, a guitarrista Paula Carregosa, vem se destacando pela virtuosidade, viralizando na web com seus vídeos caseiros e chamando a atenção de guitarristas conceituados, como Jeff Loomis e Jason Becker.

Paulitchas, como é conhecida, tem 24 anos e preferência pelo extremo: Cannibal Corpse, Nile, The Faceless e outros grupos brutais e técnicos estão na sua playlist. O gosto exótico e a velocidade de seus dedos formaram uma combinação atraente nas redes sociais a ponto de seu vídeo mais popular ter quase 4 milhões de visualizações no Facebook.

O vídeo com mais visualizações da guitarrista tem apenas 15 segundos, no qual ela toca um trecho de "The Ultimatum", do guitarrista Jeff Loomis (ex-Nevermore, atual Arch Enemy): são 26 mil curtidas, 36 mil compartilhamentos e elogios do próprio Loomis. "Quando mandei o vídeo, ele falou: 'Já vi, você está fazendo um bom trabalho'".

Em outro vídeo, ela toca uma música de Jason Becker, guitarrista que alia música clássica e metal. Apesar de hoje ele ser tetraplégico por conta de esclerose e comunicar-se com os olhos, Becker também manifestou sua aprovação: "Você está detonando", elogiou ele.

Vídeos toscos, mas reais

Os vídeos de Paula são amadores. Até há pouco tempo eram feitos por webcam, mostrando ela de toalha na cabeça após o banho ou com seu cachorro interrompendo as gravações. "Eu não sou muito frescurenta. Simplesmente estou tocando, estou com a câmera e gravo. Como não é profissional, não me preocupo com isso, é só meu dia a dia treinando", conta ela, que sempre tirou os sons de ouvido.

Paula vê em seu gosto parte do atrativo de tantos internautas. "Sempre tive visualizações elevadas, meio porque meu gosto musical é exótico. Eu só ouço death metal. E o pessoal se perguntava: 'O que essa mina com cara de patricinha está fazendo tocando death metal?'. Meu primeiro vídeo, tocando The Faceless, já deu umas 200 mil visualizações".

A visibilidade aumentou quando ela passou integrar a banda de Detonator, e trouxe até haters acusando de os vídeos serem fakes. "Tem 1% que vem xingar, mas o resto é apoio. Por ser mulher, há muito apoio, mas tem cara que olha e, mesmo que você esteja fazendo tudo certo, tenta achar um defeito para criticar".

O começo de tudo

Fã de death metal, ela começou a ter bandas na adolescência como baterista. Em uma delas, tocava deathcore --estilo que combina death metal e metalcore--, mas o som era técnico demais, os guitarristas sofriam para reproduzir as músicas e um dia ela os desafiou. Brincou que conseguia tocar. "Peguei a guitarra e saiu. Ficou todo mundo com aquela cara de 'ah, você tá zoando né?'. E a guitarra era de destro, tudo invertido para mim, que sou canhota", lembra Paulitchas.

A partir daí eles organizaram uma vaquinha e a levaram para comprar uma guitarra. Além de sair de lá oficialmente como guitarrista, Paula também saiu empregada: foi contratada para trabalhar na loja onde comprou o instrumento. Lá também pintou a oportunidade de tocar com Detonator.

Há três anos, o humorista Bruno Sutter fez na MTV uma seleção para montar sua banda. "Queríamos garotas bonitas que tocassem bem, tirando o estigma de que mulher bonita não toca e que para tocar metal as mulheres precisam ser masculinizadas, ou coisa do tipo. E encontramos a Paula e a Isa (Nielsen). A Paula me impressionou porque é muito rápida, com seus arpejos, foi uma aquisição muito bacana para a banda e é uma menina muito legal", diz Sutter.

Paula foi convidada para ir à MTV, mas ficou desconfiada. "Um produtor me viu na porta e falou: 'Preciso de você, você vai tocar na banda do Detonator'. Fui fazer o teste, mas achei que era de brincadeira. Mas, logo que toquei, o Bruno falou: 'Já está na banda'. Na gravação do programa, fiz a linha séria, porque não sabia como ele ia brincar, o que ia fazer, mas deu tudo certo. Depois vieram as outras meninas e estamos aí até hoje, as quatro", relata ela, que é só elogios ao "irmão" Bruno Sutter. "Ele me deu uma 'voadora' e disse: 'Vai fazer sucesso, minha filha'. Devo tudo a ele".

Paulitchas costumava dizer a Bruno, quando tomava bronca por não treinar as músicas: "Eu não sou guitarrista, sou uma pessoa que toca guitarra. Toco para mim, porque gosto". Agora, a realidade mudou, e a brincadeira virou carreira séria. "Hoje tenho patrocínios, pessoas que confiam em mim, sinto um pesinho e assusta um pouco".

O bom momento de Paula como guitarrista chegou a ser interrompido nos últimos meses. Ela foi morar em Londres com o então namorado, o baterista da banda Infant Annihilator, e se dedicou à carreira dele, esfriando seus projetos. Com o fim do noivado entre eles, voltou ao Brasil e percebeu que tinha de focar no trabalho próprio.

A banda de Detonator lançou em 2015 um EP, um disco ao vivo e um DVD gravado em Fortaleza e segue fazendo shows pelo país. Agora, Paula planeja alguns passos em carreira solo: ela vai lançar um EP de músicas instrumentais para apresentar seu trabalho como guitarrista virtuosa, misturando as influências de Loomis e Becker.