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Música

Em tempos de protestos, Ultraje lança disco sem letras: "Somos do contra"

Leonardo Rodrigues

Do UOL, em São Paulo

27/08/2015 10h37

À frente do Ultraje a Rigor, Roger Moreira já invadiu a praia do rock nacional, já posou nu para uma revista gay e já discutiu com Deus e o mundo vermelho do PT na internet. Hora de lançar um disco com letras ironizando a crise política e econômica? Nada disso. O álbum da vez é instrumental.

"Pessoal fala: 'Meu, você é burro pra cacete! Um disco instrumental justo agora?' (gargalhadas). Mas é isto, sempre fomos do contra", diverte-se o líder do Ultraje em entrevista ao UOL por telefone.

Lançado apenas em plataformas de streaming, como o UOL Música Deezer, "Por Quê Ultraje a Rigor?, Vol. 2" é dedicado a covers da surf music, influência persistente na trajetória de 35 anos do grupo paulistano, que começou justamente fazendo versões.

"Sempre pediram uma continuação do 'Vol. 1" [de 1990]. Começamos a tocar estas músicas no programa [do Danilo Gentili; primeiro no "Agora É Tarde", da Rede Bandeirantes, que virou "The Noite" no SBT]. Então entramos no estúdio com 40 músicas. Conseguimos gravar 20 em quatro horas."

Reprodução
Capa de "Por Quê Ultraje a Rigor?, Vol. 2" Imagem: Reprodução

Com releituras de "Walk Don't Run", dos Ventures, "Pipeline", dos Chantays, e até de "Arnold Layne", da fase psicodélica do Pink Floyd, o álbum é o primeiro completo do Ultraje desde "Os Invisíveis", de 2002, ano em que Lula foi eleito pela primeira vez.

"Sou contra o comunismo e tal. Mas não me considero de direita. Sou centro. Sou a favor da iniciativa privada. A gente poderia ter um país muito melhor em termos de riqueza. Mas já falei demais. Se eu falar mais agora, só se eu partir para a agressão (risos)".

Já que Roger não tem mais nada para dizer e também não tem mais o que fazer, só para garantir esta entrevista, o UOL resolveu enfiar uma palavrinha: "praia".

Foi ela que conduziu o papo e revelou um músico que se descobriu surfista aos 45 anos, que é capaz de eleger de cor as melhores ondas do Brasil e que usa um aplicativo de celular para não perder as baterias dos brasileiros no circuito mundial de surfe. Leia abaixo:

UOL- "Eu Vou Invadir sua Praia" é, em parte, uma brincadeira com o fato de vocês invadirem o antigo rock nacional, dominado pelo Rio. Mas você frequentava praias de verdade?
Roger - Gosto demais de praia. Desde bem pequeno eu pegava "jacaré" com uma tábua de madeira. Quando começou a pintar o surf, era difícil. Era a época das "tábuas" de surfe --era o jeito que se falava. Era tão grande que parecia mais ou menos um barco. Feito de madeira. Pesado pra caramba. Só lá pelos anos 80 é que elas começaram a ficar menores, mais leves.

Ainda costuma pegar onda?
Costumo. Nesse tempo todo eu peguei muito jacaré. Fiz "bodyboarding". E, aos 45 anos, há uns 13, comecei a aprender a surfar de verdade na praia. Vi um cara dando aula na areia, e lá tinha uns adultos também. Pensei: "pô, posso aprender ainda". Mas eu faço é com pranchão, né? É de acordo com minha idade (risos). É muito divertido. E eu faço outras coisas também. Ando de skate desde os 18 anos. Recentemente, comprei um brinquedinho elétrico para andar no calçadão. 

Quais são suas praias favoritas?
Geralmente vou a Santos. Já fui a muitas praias no Brasil inteiro. Pra surfar, principalmente com o pranchão, eu ainda prefiro Santos. Era onde eu pegava "jacaré". Naquele canto em que eles até construíram um píer grande. É um canto muito bom pra surfar. Tenho um carinho muito grande por Santos. Costumo ir ao Guarujá também. Já surfei no centro, mas é mais complicado pra mim, por não ter um lugar meu ali por perto. Eu surfo mais na ponta. Praia do Iporanga, naquela parte ali. Antigamente, eu ia para Itamambuca [Ubataba, SP]. Era legal. Fui ver muito campeonato de surfe, antes de ter condomínios lá. Era uma praia afastada, deserta. Trindade [RJ] eu ia também, mas não tanto assim. Ia em Santa Catarina também.

O inverno é mesmo a melhor época para pegar onda?
Sempre. As ondas são bem melhores. O mar está mais alto, mais revolto. Não sei se é por causa do vento. Mas é mais frio. Você tem que ir normalmente com roupa própria. Eu, como surfista amador, vou mais é no verão mesmo (risos). Na verdade, eu gosto é de me divertir. Não sou surfista profissional. Não gosto nem um pouco de disputar onda com outros. Então, quando o mar está gostosinho, tranquilo, eu vou.

Tem acompanhado o Gabriel Medina e toda essa nova geração de surfistas brasileiros?
Eu tenho aqui um aplicativo no iPhone que me avisa sempre quando tem as baterias. Acompanho não só ele, mas todos os outros também. O Brasil está numa fase muito boa. Eu já via surfe bem antes. Quando eu tinha uns 18 anos, havia filmes de surfe que as pessoas projetavam na parede das próprias casas. Juntava um pessoal. Às vezes até vendia ingresso.

Faltam bandas que representem a cultura da praia no Brasil?
Acho que sim. Existem algumas, mas geralmente elas não têm muito destaque. Mas existem banda de surf music em Florianópolis. Na Bahia também tem algumas. Mas realmente é pouco em relação ao que a gente tem de costa e o que tem de rock. O Digão [líder dos Raimundos] fez música mais ou menos nesse clima durante uma época, mas a banda acabou não pegando muito.

Consegue eleger as melhores músicas de praia?
Os Beach Boys têm que estar em qualquer lista dessas, com "Surfin' U.S.A.", por exemplo. Tem muitas bandas instrumentais que a gente curte: Ventures, o Chantays, que gravou "Pipeline". Também recomendaria algumas coisas não tão óbvias. Tem uma banda havaiana que eu gosto chamada Ka'au Crater Boys, que é música com ukulêle, meio havaiana. Bem de praia.