Música

Insultos, dedos médios, garrafadas: relembre as vaias do Rock in Rio

Leonardo Rodrigues

Do UOL, em São Paulo

31/08/2015 11h50

Autoproclamado o maior festival de música do mundo, o Rock in Rio é também superlativo quando o assunto são as vaias. Em 30 anos de história, foram vários os casos em que artistas e público não bateram, a maioria deles nas três primeiras edições.

A ideia que formatou o festival, a de misturar ritmos e estilos, precisou ser azeitada ao poucos e trouxe uma clara lição: artistas diferentes precisam ser escalados em dias diferentes.

Com mais critério a partir de 2011, o Rock in Rio praticamente extinguiu esse tipo de episódio. Mesmo com a proposta atual de usar um palco, o Sunset, justamente para promover encontros musicais inusitados. 

Nesse espaço, por exemplo, já brilharam Mike Patton ao lado da orquestra sinfônica de Heliópolis, e Zé Ramalho em companhia do Sepultura. Nada que lembre as bravatas trocadas de outrora.

"Acho que o produtor cultural tem que dar 20% do que o povo quer e 80% do que ele precisa", disse ao UOL o músico e produtor Zé Ricardo, diretor artístico do palco Sunset.

"Para ter sucesso, é preciso buscar credibilidade. O que tenho percebido é que as pessoas são fãs e confiam no Sunset. Elas aprenderam que estamos fazendo algo para ousar."

Se hoje as ousadias são recebidas com aplausos, no passado elas já renderam dedos em riste, xingamentos mútuos e até uma tempestade de garrafas plásticas.

O UOL separou as quatro maiores vaias proferidas no Rock in Rio e foi atrás de seus personagens. Em comum, a percepção de que, parafraseando Erasmo Carlos, uma das vítimas, é preciso saber viver com os nichos.

Reprodução
Imagem: Reprodução

Kid Abelha (1985)
A banda da vocalista Paula Toller estreou no Rock in Rio abrindo o quinto dia do festival, que tinha como grandes atrações o Scorpions e o AC/DC. A new wave à brasileira do grupo, sempre marcado pelo saxofone de George Israel, não agradou. "Muito obrigado, vocês são o máximo!", "agradeceu" Paula, com um sarcasmo à flor da pele, ao encerrar a apresentação. Momentos antes, durante o hit "Pintura Íntima", ela perdeu a paciência e chegou a mostrar o dedo do meio para o público.

"É meio estranho. Se você está se apresentando e o pessoal não está gostando, então por que estar lá? Sai, vai tomar um negócio. Mas é normal também. Adolescente tem isto, de gostar só de uma coisa. Depois passa", disse Paula em entrevista à rede Globo durante o Rock in Rio de 2001. O UOL entrou em contato com a vocalista, atualmente em carreira solo, para comentar o assunto, mas não obteve retorno. 

Reprodução
Imagem: Reprodução

Erasmo Carlos (1985)
O Tremendão tinha um sonho ainda vívido nos anos 1980: usar da música para unir o mundo. O devaneio hippie, no entanto, foi sepultado logo em 11 de janeiro de 1985, o primeiro dia da primeira edição do Rock in Rio. Os headliners eram Whitesnake, Iron Maiden e Queen. Já ensaiadas no show anterior, de Ney Matogrosso, as vaias tomaram conta quando o ícone da jovem guarda apareceu. Justo ele, que preparara especialmente para a ocasião uma indumentária cintilante, feita de "vidrinhos e paetês", como a de um guerreiro do metal.

"Naquela época não havia informação. Ninguém sabia que existiam tribos. Para a gente, rock and roll era uma coisa só. O Rock in Rio foi um divisor de águas. Foi quando as tribos se revelaram", contou Erasmo ao UOL. "Não fiquei decepcionado. Fique assustado. E a produção também. Depois daquilo, os segmentos foram melhorando. Com dia para a 'metaleira', dia para isso, dia para aquilo. Na minha cabeça sonhadora, a música servia para unir as pessoas. E aquele pensamento morreu ali."

Fernando Rabelo/Folhapress
Imagem: Fernando Rabelo/Folhapress

Lobão (1991)   
Era a grande a expectativa em torno do show do cantor no segundo Rock in Rio, o único realizado no estádio do Maracanã. Afinal, ele havia arrebentado no Hollywood Rock um ano antes. Segundo Lobão, a ideia de se apresentar no dia do metal, antes de Megadeth, Judas Priest e Guns N' Roses, fora dele mesmo. Assim como convidar a bateria da Mangueira. Tudo para provocar o roqueiro padrão brasileiro e seu gosto por um "rock chulé e de baixo teor". O resultado não foi nada menos do que desastroso.

"Ah, eu adorei. Mandei todo mundo tomar no c*. P****! O rock brasileiro começou a declinar no Rock in Rio 1. Neguinho organiza milimetricamente a coisa para você se f****. Você toca de tarde, com 10% do palco, 10% da luz e do som dos gringos. E o cara ainda não cumpriu o contrato. Quando eu cheguei, tinha um palco menor do que o combinado. Isso não era para acontecer. Eu sabia que estava com o melhor show do festival."

Reprodução
Imagem: Reprodução

Carlinhos Brown (2001)
Quer queira, quer não, Carlinhos Brown nunca será esquecido pelo dia em que ficou preso no corredor polonês de garrafinhas d'água do Rock in Rio 3. Nem era o dia do metal, mas o de Papa Roach, Oasis e Guns N'Roses. Não houve jeito. Brown cantava (ou tentava) "A Namorada" quando desceu do palco. Ele foi tão furiosamente alvejado pelos roqueiros que talvez tenha reescrito, sem perceber, o episódio da "Noite das Garrafadas", do Brasil Império. "Não adianta gostar de nada quando não tem juízo, quando é ignorante, quando não pensa", discursou, entrincheirado.

"Acho que eles precisavam de alguém para jogar alguma coisa. Precisavam se expressar. Você tem vários adolescentes ali, que antes de chegar passaram numa avenida onde tudo é Nova York. Quando eles veem uma coisa extremamente brasileira, talvez eles reneguem dessa forma", disse Brown após o (a)incidente. "O mais importante é que ficou a mensagem da paz. E teve um momento que foi unânime, quando eu falei sobre um mundo melhor. Eu sou da paz, nada me atinge. Por isso que tenho Ogum comigo." O UOL procurou o escritório de Carlinhos Brown para relembrar o caso, mas, segundo sua assessoria, ele não tinha agenda para conceder a entrevista.

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