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Música

Beth Carvalho: "Indústria rotulou que MPB é chique e samba é brega"

Anderson Baltar

Colaboração para o UOL, no Rio

29/09/2015 17h55

Uma das grandes damas do samba, Beth Carvalho completa 50 anos de carreira desfrutando de grande popularidade e de um respeito incomum diante do público e da crítica. Ao longo de meio século de carreira, ela deixou várias marcas na vida cultural brasileira. Não abriu mão de sua independência e afirmação feminina, mesmo frequentando ambientes claramente machistas. Sem papas na língua, sempre se posicionou politicamente e, recentemente, reclamou do uso de "Vou Festejar", um de seus maiores sucessos, em uma manifestação contra o governo.

Após ter ficado ausente do cenário por conta de um grave problema na coluna, Beth Carvalho comemora agora seu retorno. Homenageada com um espetáculo em cartaz no Rio de Janeiro ("Andança - Beth Carvalho, o Musical"), a cantora preparou dois shows para celebrar as cinco décadas de trajetória. O primeiro aconteceu no sábado passado, no Rio de Janeiro. E no dia 23 de outubro, será a vez de São Paulo participar de sua festa. Em entrevista exclusiva ao UOL, a cantora faz um balanço de sua carreira e da vida cultural e política do país.

UOL - Como você vê esse marco dos 50 anos de carreira?
Beth Carvalho - Fiquei assustada. É impressionante. Quando caí em mim, me espantei, porque esses 50 anos passaram muito rápido. Eu nem me toquei. Meio século é muita coisa.

E como você escolheu as músicas que farão parte dos shows comemorativos?
Inicialmente, fiz uma lista das músicas que achava importante e escolhi uns 80 sucessos. Obviamente, não teria como cantar tantas músicas e comecei a cortar. Ficaram 25 grandes hits. É um show para o público cantar junto o tempo todo. Para o show de São Paulo vou incluir algumas músicas de compositores paulistanos, que gravei em um CD especialmente dedicado ao samba local. Mas, no geral, é um show de sucessos. A princípio, só programei shows no Rio e em São Paulo, mas quero rodar o país.

Como é o sentimento de estar de volta aos palcos depois dos problemas de saúde?
Retornei no ano passado e, inclusive, gravei um DVD no Parque Madureira [Rio de Janeiro]. O palco é o meu lugar, onde me sinto bem, onde me sinto feliz. Esqueço qualquer dor, qualquer problema. A música tem esse poder. E o público me acaricia. Fico muito feliz em ter muitos fãs jovens. Isso é fantástico. O samba é revolucionário e é underground. No dia em que a juventude se tocar, vai dar ao samba a atenção que ele merece. Acho muito maluco não gostar ou respeitar o samba. É a nossa cultura.

Sua carreira começou oficialmente em uma participação no programa do Flávio Cavalcanti. Quando você teve a noção de que o seu futuro seria cantar?
Eu adorava cantar desde criança, mas era uma coisa sem pretensão. Fazia balé clássico, era a primeira bailarina da minha academia. Quando meu pai trouxe do disco do João Gilberto, eu fiquei encantada. Minha mãe me deu um violão comprado à prestação, vagabundo, mas comprado com muito amor [risos]. E passei a tocar violão o dia inteiro. Depois, fui ser professora de violão. E o balé acabou ficando de lado, apesar de eu também o amar. Até hoje eu vou ao Theatro Municipal assistir aos espetáculos.

Os anos 60 foram de transformações profundas na humanidade. E você era uma jovem que tinha a marca da ousadia. Como era ser assim naquela época?
Não era comum. Poucas mulheres tinham meu posicionamento. Eu era uma pessoa independente, que criou, desde cedo, o próprio caminho. E isso incomodava. Eu era ousada desde pequena. Estudei no Colégio Andrews, que era bastante tradicional, e ninguém lá era como eu. Musicalmente, sempre fui moderna na forma de cantar. Era minimalista, como a bossa nova e o samba são. Me apaixonei pela sonoridade da bossa nova, mas o seu lado alienado me incomodava. Afinal, fui criada em uma casa onde sempre se falou de política [o pai, João, foi cassado pelo golpe militar de 1964].

A gravadora me considerava cantora de MPB. E eu não aceito essa separação entre MPB e samba. Mas a indústria criou esse rótulo: MPB é chique e samba é brega. Hoje melhorou um pouco, mas ainda vivemos em um país com muito preconceito social.
Beth Carvalho

Quando você decidiu ser uma sambista?
Foi quando assisti à Clementina de Jesus. Ela me emocionou demais quando assisti ao espetáculo "Rosa de Ouro", dirigido pelo Hermínio Bello de Carvalho no Teatro Jovem. Ao ver Clementina, eu senti uma emoção, uma identidade, uma negritude que existia em mim. Todos nós a temos, todos somos miscigenados, apesar de que muitos não assumam isso. O pessoal da gravadora não gostou muito; eles me consideravam como cantora de MPB. E eu não aceito essa separação entre MPB e samba. Não há nada mais popular e brasileiro do que o samba. Mas a indústria criou esse rótulo: MPB é chique e samba é brega. Hoje melhorou um pouco, mas ainda vivemos em um país com muito preconceito social.

Você tomou uma decisão ousada, em tempos de feminismo, de sair de uma zona de conforto e abraçar o samba. Como você vê o papel da mulher no samba?
O samba é, ao mesmo tempo, machista e matriarcal. A mulher tem um papel muito forte e não só na cozinha. Desde sempre, as pastoras tinham o papel de definir os sambas das escolas. A mulher é fundamental como ponto de equilíbrio e o melhor exemplo é o respeito que os homens têm pelas mães e avós. E tem o lado religioso: ninguém faz nada sem consultar a mãe de santo. E eu, ao longo da minha carreira, procurei me afirmar como mulher, conquistar meu espaço, mas sem deixar de lado o papel acolhedor. Não à toa, acabei virando madrinha de muita gente que surgiu neste meio.

Você proporcionou a Cartola e Nelson Cavaquinho o momento de maior sucesso popular nos últimos anos de vida.
Eu me sinto muito honrada, de ter ficado amiga deles, de ter melhorado a vida deles também. Passaram a fazer shows com mais constância e cobrando preços justos. Eu sempre pegava no pé do Nelson para que ele tivesse controle de quanto seriam os cachês. Enxerida, não? [risos]. Depois que gravei suas músicas, eles passaram a fazer muitos shows comigo e todos ganhavam a mesma coisa que eu. Passaram a gravar um disco por ano, na RCA, que era minha gravadora. A casa do Nelson Cavaquinho, que era um horror, passou a ter três andares e terraço. Cartola chegou a sair do morro e se mudar para Jacarepaguá. Ele estava na Mangueira porque não tinha condições de morar em outro lugar. Estava mais velho e não tinha mais pique para frequentar a escola. Ele a fundou e tinha sido maltratado pelos dirigentes.

Você também passou por um episódio semelhante em 2008, quando foi impedida de subir em um carro alegórico da escola. Como é sua relação com a Mangueira agora?
Agora está boa porque o Ivo Meirelles [compositor e ex-presidente], assim que assumiu a presidência da escola, veio aqui e me pediu desculpas em nome da Mangueira. Em seguida, fez enredos sobre Nelson Cavaquinho e o Cacique de Ramos e eu me senti, de certa forma, homenageada em ambos. A situação amenizou, mas foi algo inesperado e nunca me foi explicado até hoje. Mas, apesar disso, não deixei de ser Mangueira. Diretorias passam e a escola fica.

Em 2017, o samba completará um século. Podemos dizer que ele foi o principal cronista da vida brasileira nestes cem anos?
Com certeza. Mais do que qualquer gênero. Ele traz a vida do brasileiro que anda de trem lotado, que passa dificuldades econômicas, sofre com a violência. E eu sempre busquei isso na minha carreira. Durante o Plano Cruzado, eu cantei que o povo estava com a corda no pescoço. Em plena ditadura, reclamava do preço do feijão. "Vou Festejar" é uma música altamente simbólica em um momento de abertura política do país.

E justamente essa música foi utilizada recentemente em protestos contra o governo...
Me manifestei contra o uso indevido. Essa é uma música que sempre representou a esquerda brasileira. Como pode botar essa música numa manifestação de direita? Eu não sou dona da música, ela é de Jorge Aragão, Dida e Neoci. Mas a voz é minha e a minha autorização deve ser pedida. Porém, sei que é uma música que está no imaginário coletivo e muitas pessoas acabam não se ligando no seu real significado. Fiz meu protesto nas redes sociais deixando bem claro o meu descontentamento.

A torcida do seu Botafogo canta.
Mas aí eu aplaudo. É uma manifestação popular. Não só a do Botafogo, a do Atlético Mineiro também. E acabei virando um pouco atleticana depois de ver o Mineirão inteiro cantando "Vou Festejar". Me emocionei demais. É alvinegro também, né? [risos]

Se você pudesse sintetizar sua carreira em uma frase, qual seria?
Valeu a pena. Isso é o que fica. É maravilhoso ter o carinho e respeito dos sambistas e do público.

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