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Análise: Girl power de Anitta perdeu o bonde do neo-feminismo das divas pop

Natalia Engler

Do UOL, em São Paulo

14/10/2015 12h05

Não sou particularmente fã da Anitta, mas adoro uma diva pop. Por isso aceitei de "coração aberto" quando meu editor me colou um desafio: fazer uma crítica feminista de "Bang!", o disco que a cantora "poderosa" acabou de lançar (disponível no UOL Música Deezer).

A coisa se revelou um pouco mais complicada quando percebi que, mesmo no ativismo diluído do feminismo pop, Anitta come poeira e fica muito pra trás de outras divas nacionais e internacionais. "Bang!" está mais para um girl power datado, anos 1990, do que para o neo-feminismo pop -muito mais Spice Girls do que Beyoncé, Rihanna, Nicki Minaj ou Katy Perry.

Pensando só na estética e na sonoridade, Anitta conseguiu sim se aproximar do que fazem as divas do pop mundial -o disco é dançante, animado, com uma batida envolvente. Mas quando se presta mais atenção nas letras é que Anitta perde o bonde.

Capa do álbum "Bang" (2015), de Anitta - Giovanni Bianco/Studio 65 - Giovanni Bianco/Studio 65
Capa do álbum "Bang!"
Imagem: Giovanni Bianco/Studio 65

Sua mulher poderosa é apenas aquela que conseguiu virar o jogo amoroso -num estilo "baba baby"- e agora está no comando, tomando a iniciativa ou fazendo o boy pastar. Ela também banca seus desejos sexuais, mas de modo bem mais sutil do que já haviam feito Valesca (quando ainda era Popozuda) e outras funkeiras -que chamaram as coisas pelos nomes e deixaram claro que o que é delas, elas dão pra quem quiserem.

Como as composições do disco são quase todas da própria Anitta, é seguro dizer que as letras transmitem as opiniões, desejos e preocupações da cantora de 22 anos, e ela parece estar muito preocupada com os homens -de 14 faixas inéditas, pelo menos 11 falam de relações amorosas, a maior parte naquela linha de "agora quem não quer sou eu".

Também de nada adiantou Anitta levar um pito da Pitty em rede nacional -ela continua achando que "a mulher tem que se respeitar", mesmo ouvindo da outra o problema que é essa diferença entre o que é uma "mulher de respeito" e o que é um "homem de respeito".

A mensagem aparece de forma sutil nas letras, mas está lá: "Eu não sou tão fácil assim", ela canta em "Deixa Ele Sofrer"; "Eu me dou valor", repete em "Atenção"; e "Gosto Assim" é quase uma ode contra as mulheres que "só querem dinheiro".

Para quem diz que já canta "bastante sobre o poder da mulher", Anitta também bate muito na tecla do amor de conto de fadas, da mulher à espera de um cara perfeito, que vai topar um relacionamento sério. "Cravo e Canela" é basicamente sobre isso ("Procurando alguém só pra cuidar do seu jardim, regando sua vida todo dia, até o fim"), e mesmo "Deixa Ele Sofrer" e "Essa Mina É Louca" falam desse relacionamento idealizado.

Minha vontade é dizer pra ela: "Amiga, o poder da mulher vai muito além de achar o príncipe encantado e se livrar dos canalhas. É muito mais do que subir no salto, malhar pra ficar gostosa, passar um make bafo e ficar com a autoestima em alta. O verdadeiro girl power é se libertar de todas essas ideias preconcebidas pra enquadrar a gente e descobrir de verdade o que nos faz feliz, de preferência numa sociedade sem assédio na rua, diferença salarial entre os gêneros e pressões por uma aparência perfeita".

E mais: "Gata, esquece o boy e vai curtir a vida, a carreira em ascensão, o mundo -com as amigas ou sozinha. Se não, seus discos vão parecer sempre um eterno refrão de 'Single Ladies' -'If you liked it, then you should've put a ring on it' (Se você gostava, então devia ter me dado uma aliança)-, quando a gente já está mais pra 'Who run the world? Girls!' (Quem manda no mundo? As garotas!)".