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Com carreira estável, artistas buscam "The Voice" como mais uma alternativa

Globo/Divulgação
9.out.2015 - O cantor Del Feliz participa da segunda noite de audições da quarta edição do "The Voice Brasil" Imagem: Globo/Divulgação

Renata Nogueira

Do UOL, em São Paulo

05/11/2015 17h57

O "The Voice Brasil", da Globo, é basicamente um programa para revelar novas vozes, mas o que vemos na edição de 2015 vai além de novatos. O programa deste ano foi contemplado com artistas que já vivem de música e têm destaque em seus trabalhos, ainda que pouco conhecidos do grande público. Del Feliz, Maurílio de Oliveira, Ayrton Montarroyos e Paulynha Arrais são alguns desses nomes que apareceram na primeira fase e já têm um currículo de fazer inveja em muito veterano, seja por parcerias com Dominguinhos e Maria Bethânia, seja por indicação a prêmios como Grammy Latino. Mas o que faz um artista com carreira estável tentar a vez em um programa para iniciantes?

"Meu objetivo não é ganhar. A TV é uma janela importante para a divulgação da minha música e da minha história", diz o baiano Del Feliz. Com 15 CDs gravados e dois DVDs, ele foi prontamente reconhecido por Carlinhos Brown, quando o técnico virou a cadeira, durante sua audição. "Eu conheço o cara", gritou Brown assim que viu quem estava no palco.

Del viu os quatro técnicos do programa --Claudia Leitte, Michel Teló, Lulu Santos e Brown-- virarem suas cadeiras para frente, em sinal de aprovação. Claudia foi a escolhida pelo candidato para ser sua tutora. "Não escolhi o Brown para evitar que o público visse alguma vantagem por eu estar naquele time. Na verdade, eu conhecia o Carlinhos pessoalmente apenas de um breve encontro nos bastidores do 'Sarau du Brown'. Eu costumava abrir o evento e uma vez ele gravou um refrão para mim no celular". 

Com cachês acima dos R$ 50 mil, Del diz ter sido questionado até mesmo pela produção e por amigos sobre a motivação para participar do "The Voice Brasil". "Ninguém ali [dos candidatos] tem um cachê nem próximo do meu, mas nada disso me envaideceu. Eu nunca achei que eu teria vantagem". Del, que se autointitula “o homem mais feliz do mundo", e se orgulha de parcerias com seus ídolos. Dominguinhos gravou três composições dele, Gilberto Gil o convidou para inaugurar a Varanda Elétrica do camarote Expresso 2222 no Carnaval de 2012, e Maria Bethânia passou a interpretar em seus shows "Santo Amaro", uma das composições do conterrâneo. "Vou carregar estes nomes para sempre como exemplos de generosidade e carinho".

Artista consagrado?

Outro candidato que chega experiente ao "The Voice" é Maurílio de Oliveira, que está no time de Carlinhos Brown. "Dizem que já sou consagrado. Não concordo. Consagrado é o Caetano Veloso. Estou na carreira há 15 anos, mas as pessoas não sabem quem é o Maurílio de Oliveira", diz o sambista, que trabalhou por oito anos com Beth Carvalho no Quinteto Em Branco e Preto. "[Entrei no programa porque] Queria ser visto. Quero que saibam quem eu sou e de onde venho. O público só vê a capa, mas não vê os bastidores".

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O sambista Maurílio de Oliveira Imagem: Divulgação

Integrante da dupla Prettos, que forma com o irmão, Magnú Sousá, ele entrou sozinho no reality. Desinibido, Maurílio achou que tinha mais perfil para o programa de TV. Os irmãos vivem em São Paulo e têm composições gravadas por Jair Rodrigues e Dominguinhos ("Migração"), Alcione ("Laguidibá" e "Xequeré"), Beth Carvalho ("Melhor Pra Nós Dois", "A Comunidade Chora") e Maria Rita ("No Meio do Salão").

A paixão pelo samba vem de família e já rendeu frutos: Maurílio até tentou inscrever uma das cinco filhas no "The Voice Kids", mas perdeu o prazo. "Falta um comportamento de samba no jovem", ele se queixa. O músico destaca que sente uma "inveja boa" de outros gêneros que têm destaque na internet e nas redes sociais. "O samba não morreu, mas está adormecido. Já está na hora de o samba ter um boom novamente e espero conseguir isso mostrando meu trabalho no 'The Voice'".

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Ayrton cantou "Força Estranha" na audição Imagem: Globo/Divulgação

Premiado internacionalmente

No time de Lulu Santos está Ayrton Montarroyos, que tem apenas quatro anos de carreira, mas reúne trabalhos tão importantes que lhe renderam até uma indicação ao Grammy Latino, em 2013, pela participação no álbum comemorativo "Herivelto Martins - 100 anos". O intérprete nascido no Recife admite que, quando se inscreveu para o programa, nem sabia que havia prêmio (um contrato com a gravadora Universal Music, gerenciamento de carreira, R$ 500 mil e um carro 0 km). "Achei que ganharia um troféu e só." 

Ayrton trabalha na produção de seu primeiro disco e vê o "The Voice" como parte do processo acíclico de sua trajetória. Ele diz pensar na divulgação do trabalho e tem a mesma percepção sobre os outros participantes. "Artista gosta de dinheiro, mas gosta ainda mais de música".

Autodidata, ele canta desde os 11 anos influenciado pelos grandes nomes da era do rádio, garimpados no acervo de sua avó, que foi funcionária de uma das maiores gravadoras do Nordeste. Já cantou com Cauby Peixoto e Emílio Santiago. E participou da coletânea "Cem anos de Gonzagão", dividindo faixas com Zé Ramalho, Geraldo Azevedo, Elba Ramalho e Fafá de Belém. 

Discografia cheia

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Paulynha Arrais e seu técnico, Michel Teló Imagem: Globo/Divulgação

A cantora sertaneja Paulynha Arrais é, agora, aprendiz de Michel Teló, mas já tem sete discos gravados. Seu público está concentrado principalmente em Balsas, cidade de cerca de 90 mil habitantes onde ela vive no Maranhão. "Sou bastante conhecida lá", diz. Paulynha canta desde os 14 anos e tem uma estrutura montada e personalizada que leva os seus shows para todo o Estado.

Se ganhar o prêmio final, a maranhense pretende comprar uma casa para os pais e investir ainda mais na carreira. "No 'The Voice Brasil' quero ser conhecida e reconhecida por todo o país. Posso mostrar o que sei fazer de melhor, que é cantar e levar emoção", diz.

Em comum, os quatro artistas já superaram a dificuldade de engatar uma carreira na música --nenhum deles reclama de dificuldades para viver do trabalho. Passam agora para a próxima fase: a batalha pelo reconhecimento nacional, algo bem mais valioso do que os R$ 500 mil em disputa no programa.