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Na despedida do Brasil, nem temporal esfria show dos Stones em Porto Alegre

Alexandre de Santi

Colaboração para o UOL, em Porto Alegre

02/03/2016 21h50

Às 20h59 ainda não chovia em Porto Alegre. Mas, dois minutos depois, assim que o telão encerrou a introdução do último show da turnê “Olé” no Brasil, Keith Richards soltou o riff de "Jumpin' Jack Flash" na sua Telecaster, e a água desabou sobre o estádio Beira-Rio. E não parou mais. Depois de três apresentações no país (uma no Rio de Janeiro e duas em São Paulo), a noite desta quarta-feira (2) tinha sabor de despedida para os Rolling Stones, mas era tudo novidade para os porto-alegrenses, que puderam ver os ingleses pela primeira vez.

Na verdade, o público de 48 mil pessoas que lotou a casa do Internacional transcendeu a população da capital gaúcha: a passagem inédita dos britânicos por Porto Alegre permitiu que pessoas de toda a região Sul interrompessem cinco décadas de espera e celebrassem os Stones ao vivo, perto de casa. Artistas do porte de Mick Jagger, Keith Richards, Ronnie Wood e Charlie Watts não costumam se apresentar pelo Rio Grande do Sul, e, por isso, fãs como Roque Dias dos Santos, 62, dirigiram quase 300 km para ver os ingleses. Santos mora em Marau, município de 36 mil habitantes, encravado em meio a algumas das lavouras de soja mais rentáveis do Brasil.

Nos anos 1960, Marau parecia ainda mais distante das capitais, mas o rock chegava por lá. Por volta de 1968, Santos já se via encantado com os Beatles, Creedence Clearwater Revival, e, claro, os Rolling Stones. “Quem curtia eles em Marau era quase revolucionário”, relembra. A paixão de Roque pelo rock atravessou as décadas. Já adulto, foi a Liverpool conhecer a terra natal dos Beatles e veio a Porto Alegre prestar sua reverência a Paul McCartney, em 2010. Nesta quarta, viu os Stones pela primeira vez ao vivo.

A poucos metros de Santos, também na pista premium, Valmor Berri, 64, exibia uma tatuagem da língua dos Stones no ombro. Em 2006, saiu de Blumenau, em Santa Catarina, e foi assistir Jagger e companhia no Rio de Janeiro. Fã de rock desde a adolescência, ficou tão impactado com o show dos ingleses em Copacabana que decidiu eternizar o logotipo da banda na própria pele dois dias depois. Quando o primeiro boato de uma nova turnê brasileira dos Stones chegou às emissoras de rádio de Joinville, onde mora, logo percebeu que teria uma segunda chance de ver os ídolos. “Fiquei todo eufórico”, conta. Dessa vez, decidiu viajar ao Sul para ouvir “(I Can't Get No) Satisfaction”, seu hit favorito. “É o hino deles”, diz.

Em Porto Alegre, os Rolling Stones atenderam as expectativas. Mick, para agradar uma nova plateia, abusou do dicionário de "porto-alegrês". “E aí, gurizada?”, disse logo após a primeira música. Mais tarde, depois de “Tumbling Dice”, avançou mais no vocabulário local: “Bah, primeiro show em Porto Alegre. Capaz, último show no Brasil”.

O repertório seguiu os modelos usados no Rio e em São Paulo nesta turnê. A novidade veio na sexta música, “Ruby Tuesday”, que ainda não tinha sido tocada na América Latina neste giro. Nos intervalos, Mick seguiu explorando temas porto-alegrenses. “Ouvi que Porto Alegre tem as gurias mais bonitas do Brasil. Guris, é verdade?”, disse depois de “Ruby Tuesday. “Bah, nos divertimos muito em Porto Alegre. Pegamos a Linha Turismo (ônibus da prefeitura que faz um city tour) e vimos muitas coisas impronunciáveis. Vimos o pôr do sol de mãos dadas”, brincou mais tarde, quando a chuva já tinha se transformado em temporal. Mick, no entanto, não parecia se importar: colocou um chapéu e comandou o espetáculo na passarela que avança sobre a pista, debaixo d'água. 

Depois de uma hora de chuva forte ininterrupta, o público pareceu desanimar, ainda mais com a sequência de canções mais intimistas que dominam a parte central do repertório, quando Keith Richards assume os vocais de duas músicas. Mas Mick voltou ao palco em “Midnight Rambler” e esbanjou 50 anos de experiência na liderança de uma das maiores bandas de todos os tempos: colocou todo mundo para cantar, deu uma injeção de adrenalina na plateia encharcada e ignorou as poças de água na passarela. Keith e Ronnie, embora mais contidos, também não se importaram em molhar as guitarras embaixo do temporal. Em “Gimme Shelter”, o vocalista apelou para um sobretudo para se proteger (apropriadamente, a tradução da canção para português é “me dê abrigo”) e fez um dueto animado com a backing vocal Sasha Allen.

Às 23h11, os Stones encerraram a perna brasileira de “Olé”, após o riff explosivo de “Satisfaction”. Mesmo absolutamente molhado, Roque dos Santos estava encantado ao final do show. “Fantástico. Os caras são muito bons. Muita humildade e muita qualidade”, elogiou. Para ele, a chuva não estragou o espetáculo. “Nem me doeu o joelho. Vale muito sair do conforto para viver um espetáculo desses”, disse.

Berri, o sexagenário tatuado, embarcou no ônibus da sua excursão de volta para Joinville assim que acabou o show – bate e volta não tem idade.
Já os Stones arrumaram as malas para Lima, no Peru, onde se apresentam no dia 6. Bogotá, na Colômbia, e a Cidade do México ainda recebem os ingleses antes da banda desembarcar em Havana para o histórico show gratuito que será realizado em solo cubano no dia 25 de março e que vai encerrar o tour latino americano.

O setlist:

“Jumpin' Jack Flash”
“It's Only Rock 'n' Roll (But I Like It)”
“Tumbling Dice”
“Out of Control”
“Let's Spend the Night Together” (escolhida por votação pelo público)
“Ruby Tuesday”
“Paint It Black”
“Honky Tonk Women”
“You Got the Silver (Keith Richards nos vocais)”
“Before They Make Me Run (Keith Richards nos vocais)”
“Midnight Rambler”
“Miss You”
“Gimme Shelter”
“Start Me Up”
“Sympathy for the Devil”
“Brown Sugar”

Bis:
“You Can't Always Get What You Want”
“(I Can't Get No) Satisfaction”

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