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Música

Análise: Naná Vasconcelos foi um contrabandista da música brasileira

Jotabê Medeiros

Colaboração para o UOL, em São Paulo

09/03/2016 11h51

Apesar de ter vivido mais de 30 anos fora do Brasil, ganhado oito prêmios Grammy, gravado em Paris e Los Angeles e tocado com Don Cherry, Miles Davis, Pat Metheny, Jack DeJohnette, Gato Barbieri, raras vezes se viu um brasileiro tão brasileiro quanto Naná Vasconcelos. Era corriqueiro encontrar o percussionista em um chope no Filial, numa roda de conversa na Bodega do Veio ou num papo improvisacional infinito na universidade aberta da noite do mundo. Era aguardado pelo grupo Barbatuques para um show no Sesc Vila Mariana, nos próximos dias 12 e 13 (para quem produziu o disco Ayú).

Conhecia e se relacionava com profundidade com os mestres da cultura popular de sua terra, como Dona Olga, matriarca da Nação Maracatu Estrela Brilhante de Igarassú, e Dona Juracy, presidente dos Caboclinhos Tribo Canindé do Recife (ambas as agremiações fundadas no século 19). Essa ponte entre o cosmopolita e o regional foi um legado que Naná soube manusear com rara habilidade. E contrabandear mundo afora.

Como ele mesmo explicou, sua importância internacional (ao lado de Airto Moreira) foi ter bagunçado o coreto do jazz tradicional, que admitia até aquele momento apenas a percussão afro-cubana --que chegara aos Estados Unidos por intermédio de Dizzy Gillespie e outros exploradores. "Quando nós, brasileiros, entramos, era pinico, caçarola, apito, grito. Todo mundo queria os brazilian boys", dizia.

Era um berimbau livre, que triturava do maracatu brasileiro ao reggae jamaicano, do jazz americano ao afro-pop matricial, do choro ao samba. Como Hermeto Pascoal, escolhia o instrumento conforme o som, e a queixada de burro não era exotismo, era sonoridade. Não conhecia a chamada barragem cultural: andou com David Byrne e os Talking Heads e astros do rock. Sua última grande celebração foi no Rec-Beat, em fevereiro. Agitava as convicções arraigadas nas noites jazzísticas de Nova York com sua banda Bush Dancers (que tinha, entre seus integrantes, Trilok Gurtu).

Mas sua contribuição é mais ampla do que suas performances inesquecíveis como o maior percussionista vivo do Brasil. Inseria, entre suas composições rigorosas, canções de seus conterrâneos mais destacados, de Elomar a Gismonti e Villa-Lobos. Fazia trilhas para o cinema, como a de "Os Filhos do Gigante", do cineasta francês Pascal Vasselin, e "O Menino e o Mundo", de Alê Abreu (que disputou o Oscar e é a história de um menino que deixa seu lar para conhecer o mundo, como Naná).

Aos 12 anos, já tocava profissionalmente para viver. Aos 17, com o Quarteto Yansã, foi para Lisboa, primeira parada internacional do jovem percussionista. Voltou para Recife, foi para o Rio, tocou com Capiba, depois morou com Glauber Rocha em Nova York (o que lhe rendeu fãs como os cineastas Bernardo Bertolucci e Jean-Luc Godard).

E, como Carlinhos Brown, achou por bem restituir a ventura com que o destino o fez sair da periferia pobre do Sítio Novo para o mundo e passou a cuidar dos meninos do Recife depois de famoso. Criou, com Gil Jardim, em 1984, os projetos ABC Musical e Língua Mãe, no qual se dedicava ao ensino da música para crianças. Na abertura do Carnaval pernambucano, era seu toque que abria a festa, regendo 17 nações de maracatu, 600 batuqueiros em fúria.

Político e politizado, integrou o Quarteto Livre de Geraldo Vandré, com o qual o mítico compositor da chamada música de protesto fez o derradeiro show em Goiânia, em 1968, antes de desaparecer para sempre nos interstícios da ditadura. Com Egberto Gismonti, gravou em 1976 um disco referencial da música brasileira, "Dança das Cabeças".

Agitador cultural, abria espaços físicos para lecionar, dirigiu o Percpan (Panorama Percussiva Mundial), que se tornou um dos mais notáveis festivais de música do país. Usava seu prestígio para transitar entre os mundos e mantinha a música em um processo de existência física, dentro dos lugares que ela mais precisava habitar.

Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal Rural de Pernambuco, foi o autodidata mais sofisticado que a música brasileira viu passar no último meio século. "Quando você aprende teoria musical por livros, precisa sempre consultar os textos. Quando você aprende com o corpo, é como andar de bicicleta. Seu corpo se lembra", disse, ao "Diário de Pernambuco".

No dia 27 de fevereiro, fez o que é considerado seu último show, dois dias antes da sua internação, justamente no Candyall Ghetho Square, em Salvador, com o celista Lui Coimbra. Lá, ele teria dito: "Estou doente e, quando descobri o câncer, pensei: se eu tiver que ir, eu vou, se eu tiver que ficar, eu fico. Eu estou ficando com a mente cheia de vida, e o coração cheio de músicas e mantras. Ao meu redor, uma miscigenação de pessoas orando por mim. Eu só tenho que dizer a vocês: amém, amém e amei".