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Em show no Rio, Iron Maiden pede união e punição aos "caras maus"

Guilherme Guedes

Colaboração para o UOL, no Rio

18/03/2016 00h43

Obras inacabadas, chuva insistente, um engarrafamento messiânico e shows simultâneos de Wesley Safadão e Simply Red. Nenhum desses obstáculos foi páreo para a multidão que lotou nesta quinta-feira (17) a HSBC Arena do Rio de Janeiro, na Barra da Tijuca, para ver o início da nova passagem do Iron Maiden pelo Brasil. Desta vez, a banda, que não passava pela capital fluminense desde 2013, divulga o 16º álbum de estúdio, "The Book of Souls", lançado em setembro do ano passado.

Aclamado como um clássico recente, o disco reúne o melhor do Iron Maiden, aproximando-se perigosamente dos limites do autoplágio. Há ecos da era mais popular do grupo, na primeira metade dos anos 1980, e de grandes momentos da fase atual do sexteto, iniciada na reunião com o vocalista Bruce Dickinson no ano 2000. Não que isso seja um problema. Para a fiel e apaixonada plateia do Maiden, fundador de um estilo único de metal épico, agressivo e voluptuosamente teatral, o motivo de tanta adoração é justamente esse: a certeza de que o grupo, formado pelo baixista Steve Harris há 40 anos, jamais a decepcionará.

A apresentação no Rio começou com o novo álbum. Após uma divertida animação protagonizada pelo Ed Force One, avião pilotado por Dickinson que leva a banda pelo mundo, o grupo deu a largada com a grandiosa "If Eternity Should Fail" e o primeiro single do disco, a instigante "Speed Of Light".

Com fôlego respeitável, ainda mais se considerarmos sua vitória recente contra um câncer de língua, Dickinson correu de um lado para outro nas plataformas laterais do palco ornado por simulações da arquitetura pré-colombiana, enquanto Harris comandou a pequena orquestra de cordas no andar térreo do palco, completada pelos guitarristas Dave Murray, Adrian Smith e Janick Gers. Todos, é claro, à frente do carismático Nicko McBrain, o pulso da banda, como de praxe escondido atrás de um kit de bateria gigantesco apesar das levadas eficientemente simples. 

Nesta turnê, a participação de Eddie, mascote da banda, é discreta. No palco, ele surge apenas em uma breve aparição durante a cerimoniosa "The Book of Souls", que vai das costumeiras estripulias com Janick Gers a uma conclusão dramática no qual Dickinson atira o coração de Eddie à plateia sedenta. 

A força do repertório antigo do grupo deu as caras com uma versão inspirada de "Children of the Damned", extraída de "The Number of the Beast". Ao fim da música, Dickinson olhou encantando para a plateia que cobria todos os setores do ginásio com braços erguidos e camisetas pretas. "Depois de percorrer a América do Sul, finalmente chegamos ao evento principal: Brasil!", exaltou. 

Diplomacia

Foi quando uma bandeira do país caiu ao pé esquerdo do vocalista, que a ergueu diante da plateia extasiada. Com a diplomacia de um frontman experiente, Bruce aproveitou a oportunidade para abordar a crise política de forma discreta e apartidária. "Eu tenho visto muito essa bandeira nos noticiários", disse. "E espero que os caras maus se f*dam, quem quer que sejam".

Antes que o show ganhasse contornos políticos, o grupo seguiu com outra sequência do novo trabalho, mas foi em sucessos antigos, como "The Trooper" e "Powerslave" que o público de fato vibrou, justificando a escolha do Brasil como palco de álbuns ao vivo (tanto do "Iron Maiden - Rock In Rio", gravado no festival de mesmo nome em 2001, como da carreira solo de Dickinson "Scream For Me, Brazil", de 1999). Reverberados pelo eco da arena, cuja preparação acústica seguiu longe do ideal, a cantoria impressionou em hits atemporais como "Hallowed Be Thy Name" e --claro-- "Fear Of The Dark", com linhas de guitarras entoadas por gargantas pulsantes em todos os setores da casa.

Depois de um breve intervalo, o público voltou a roubar o show ao seguir a tradição nacional de declamar a introdução de "The Number Of The Beast", a primeira do bis. Antes de "Blood Brothers", Dickinson encaminhou o show para o fim com um discurso de união. "O mundo pode ser um lugar terrível, mas querem saber? Estamos em um show do Iron Maiden", relfetiu. "Há pessoas de várias nacionalidades, raças e orientações sexuais aqui, e não estamos nos matando. E é isso o que importa, pois somos todos irmãos de sangue". Os headbangers, emocionados e pressionados uns contra os outros, derreteram-se em suor e gritos de apoio.

Com experiência de veteranos e invejável energia de principiante, o Maiden subverteu a noção temporal ao encerrar o show com a balzaquiana "Wasted Years", lançada em "Somewhere In Time", de 1986. Com o refrão marcante que despreza a nostalgia ("Não perca tempo procurando aqueles anos desperdiçados (…) Perceba que você vive a sua era de ouro"), a banda confirmou a boa forma e o desejo de seguir em frente, respeitando o passado erguido, mas sem depender dele para voltar ao Brasil em um futuro próximo. E com certeza voltarão.