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Música

"Éramos banda de revista de meninas", diz Lucas Silveira, da Fresno

Felipe Branco Cruz

Do UOL, em São Paulo

11/04/2016 06h00

Trabalhando de maneira independente desde 2011, Lucas Silveira, vocalista da banda Fresno, montou em sua casa um estúdio que está se transformando em um polo de atração de novos artistas, que buscam nele a expertise adquirida nos últimos 15 anos de banda.

Sem deixar de lado o trabalho com a Fresno, Lucas investiu também na carreira de produtor. Um de seus primeiros clientes foi a banda RPM, com a qual produziu o álbum “Deus Ex Machina”, ainda não lançado. “Mostrei [para o Paulo Ricardo] o Skrillex. Disse para ele: ‘isso aqui que é legal, cara’”, contou Lucas. “O último disco deles, ‘Elektra’ [2011] tinha umas batidas. Mas era de pop rock. Um lance Paradoxx Music”, apontou.

Bruno Santos/UOL
Lucas Silveira em sua casa Imagem: Bruno Santos/UOL
Para falar sobre a nova carreira, o artista recebeu o UOL em sua casa, no bairro de Sumaré, em São Paulo. O local reúne tudo o que uma pessoa que já passou dos 30 anos gostaria de ter. Por exemplo: uma máquina de fliperama com jogos clássicos dos anos 80. No primeiro andar, Lucas montou o estúdio, e, na varanda, foi instalada uma minipista de skate, onde sua mulher, a tetracampeã mundial de skate Karen Jonz pratica o esporte.

A decoração toda descolada da casa, no entanto, teve de ceder espaço para a nova integrante da família, a bebê Sky, nascida há três meses. “Ela está começando a se virar na cama. A coisa está ficando tensa”, brincou.

Além de falar sobre o trabalho com o RPM, Lucas também comentou sobre sua relação com o seu ex-produtor Rick Bonadio e constatou que o novo disco de Justin Bieber, “Purpose” (2015), é bom, graças, segundo ele, ao trabalho de produtores musicais.

Confira a seguir os principais trechos da entrevista

UOL - Hoje em dia qualquer pessoa com o mínimo de equipamento consegue gravar uma música, distribuú-la e fazer sucesso, como no funk. Qual é a importância do produtor atualmente?

Lucas Silveira - Vou aproveitar que você usou o exemplo do funk. Com certeza, quando se coloca um produtor no meio do funk, é capaz de ele estragar a história. E isso ocorre em toda manifestação que seja de gueto. O que a caracteriza é justamente o fator de não ter nenhuma interferência de um cara de fora.

A importância do produtor é principalmente em quem está a fim de encontrar um caminho. Pode até ser um funkeiro. O produtor tem referências. Por exemplo, se o músico gosta da Madonna e quer fazer um som com aquela cara, o produtor é a pessoa. Ele é o cara que já ouviu muita música e para quem tudo é mais ou menos familiar. O produtor consegue ter esse "insight" e apontar o caminho.

Bruno Santos/UOL
O cantor Lucas Silveira Imagem: Bruno Santos/UOL
Então, o produtor é o cara mais importante do pop?

Vai muito do artista. No pop é onde se revelam os produtores. É onde eles ficam milionários. Porque o pop é um estilo feito pelo produtor. Um produtor como o Timbaland é uma fábrica de hits e fica procurando cantores. Às vezes ele vira superstar, tipo o Pharrell Williams.

A culpa do sucesso do Justin Bieber é do produtor?

É o caso do Jack Ü [duo formato por Skrillex e Diplo]. Ele fez as pessoas gostarem de Justin Bieber. Antigamente, nos primeiros discos, só o fã de Bieber gostava de sua música. A música do Bieber chegava para a gente distorcida. Muita gente nem a ouvia. O Skrillex e Diplo fizeram todo mundo não ter a menor vergonha de falar que a música nova [do Bieber] é realmente boa.

Você gosta de Justin Bieber?

Putz! Esse trabalho novo é muito bom. Ele toca nas festas, e todo mundo começa a dançar e sorrir. Mas eu sei que é trabalho dos produtores. Talvez, a maturidade do Justin Bieber permitiu que ele fosse lá e dissesse que queria o som assim.

No começo da Fresno, muita gente criticava a banda. Quando você lançou o trabalho solo “Beeshop”, passaram a te elogiar. Aconteceu com você o mesmo que aconteceu com o Bieber?

Nunca fomos o Justin Bieber. Mas o Midas [selo musical do produtor Rick Bonadio] trabalhava as bandas muito dessa maneira, meio Menudo. Por lá, se a banda é muito boa ou muito ruim, só existe um jeito de trabalhar. E dava certo. Éramos a banda da revista de menina, tipo Capricho. Quando você faz rock, é muito difícil fazer isso, já o pop é feito disso. Você empacota as coisas e faz um algo maravilhoso. Pega os melhores produtores e o melhor fotógrafo. No rock, o público olha e diz: “tá tudo errado isso”. Inclusive quando é bom. Entramos em uma máquina que fazia isso. Nós não nos encaixamos direito.

Ao vivo, toda banda quer reproduzir mais ou menos o que gravou no estúdio. Mas no começo da carreira, vocês tinha fãs que gritavam tão alto que não se ouvia nada. Você se sentia frustrado em tocar para meninas histéricas?

Era um pouco frustrante, sim. Felizmente não eram todas assim. Na época, inclusive, existiam outras bandas que estavam mais dispostas a ser isso. Tipo um Restart e um Cine. Elas foram bandas mais dispostas a preencher confortavelmente esse papel de banda teen. Sempre fomos mais velhos e nos sentíamos estranho no mundo teen. Em geral, o público pop é adolescente. Algumas TVs nos ligavam com propostas de matérias das mais absurdas. Ali você percebia como estava sendo visto. Se a gente não tivesse amadurecido, essa galera não acompanharia mais. Seríamos uma banda que o fã ouviu quando adolescente e hoje teria vergonha de falar. Temos uma retenção de público muito grande.

Uma coisa meio Los Hermanos?

Eu gosto de comparar com o Los Hermanos. Os fãs estão com eles há dez, 15 anos. No show dos Los Hermanos tem cara levando o filho. Existe essa retenção de público. Nós conseguimos pegar o nosso público quando jogamos essa rede no oceano. É o tiro do mainstream, quando você aparece no “Fantástico” e tal. A rejeição vem de pessoas que às vezes nem deveriam te conhecer, mas te conhecem porque você apareceu na Globo. 

Sabe quando o "Fantástico" faz uma matéria sobre o Marilyn Manson? Para o público dele, ele é normal. Mas, minha mãe vendo o "Fantástico", acha que esse homem é o demônio, porque ela nunca pensou em conhecer ele.

Bruno Santos/UOL
Imagem: Bruno Santos/UOL

Você prefere ouvir música por streaming?

Quando eu estou no carro eu gosto de ouvir rádio. Gosto de ouvir um negócio que eu não escolhi. Desta forma, eu não fico no mundinho das músicas que eu escolhi e na playlist que o Spotify sugere pra ti. Mas eu estou ficando velho, fico ouvindo Band News e CBN. Eu tenho um lance: o taxista está ouvindo forró no rádio e fala: “quer que eu troque?”. Eu respondo que não. Gosto de saber o que tá rolando. Quero saber o que é “Ta tranquilo e favorável” e “Metralhadora”. Tudo vira uns memes muito rápido, e eu não quero perder as piadas.

Agora que você é produtor, entende o lado de Rick Bonadio?

Eu sempre entendi o lado dele. Na verdade, a gente nunca teve uma briga. Tivemos brigas normais de bandas. Qual é a fórmula dos anos 1990 e metade dos anos 2000 que perdurou? Foi o rádio. O trabalho dele era fazer um disco que fosse tocável no rádio.

O que fazer para uma banda tocar música na rádio hoje?

É muito difícil responder. A não ser que ele faça um som sertanejo ou pagode. Eu sempre voto no crescimento orgânico, que é o certo. A não ser que consiga uma coisa tipo “SuperStar” [reality show de bandas da Globo], que é um atalho para conquistar um público genuíno. Se alguém chega aqui com o papo de “quero bombar”, já acho bizarro. Todas as bandas que fizeram realmente sucesso, não chegaram com esse papo.

Você vê muitos caras querendo pegar emprestado o meu “aval”. Às vezes, você vê o cara disposto a fazer uma gravação de um EP de R$ 50 mil. Mas o cara não fez o mínimo que é a música. Quando a gente começou, rolava o papo de banda que já tinha foto promocional, logotipo, já tinha um conceito, mas não tinha uma música. O principal é: faça a música. Me mande umas 30 para escolhermos umas quatro.

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Tattoo do Seiya, dos Cavaleiros do Zodíaco Imagem: Bruno Santos/UOL
Como foi a produção com o RPM?

Foi fácil. As pessoas me falaram tanto que os caras são difíceis. Os anos 1980 estão lá atrás. Os caras são pessoas mais responsáveis. O meu trabalho foi mais com o Paulo Ricardo. O único problema desse disco é que ele não foi lançado. A produção foi tranquila, mas cansativa. A gente trabalhou cada música como se não houvesse amanhã. Muitas precisavam de muitos trabalhos de composição e de testar mil arranjos. Foi massa. Eles me deram um banho de experiência, e eu dei um banho de coisas novas.

O que você mostrou de novidade para o RPM?

Eu mostrei Skrillex. Disse para o Paulo: “isso aqui que é legal, cara”. Ele citou Depeche Mode. É muito legal. Inclusive é mais legal do que Skirllex. Mas queria mostrar o que a galera está fazendo hoje. O último disco deles, “Elektra” [2011], tinha umas batidas. Mas era de pop rock. Um lance Paradoxx Music, meio anos 1990. Disse que eles deveriam fazer EDM mesmo. Eu trouxe o FTampa aqui para casa, que é um DJ brasileiro que mora lá fora.

Você tem uma tatuagem no braço do Seiya, dos Cavaleiros do Zodíaco. Você cresceu assistindo a eles?

Sim. Ainda bem que é o Seiya, com a armadura da saga de Hades. No passado, a nossa banda já era chamada de emo, imagine se eu tivesse a tattoo do Shun? Ele já era afeminado, frágil e dependente do irmão (risos).

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O vocalista da banda Fresno no estúdio montado em sua casa Imagem: Bruno Santos/UOL