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Música

Feminista e ousado, novo disco de Beyoncé é mais do que história de traição

Tiago Dias

Do UOL, em São Paulo

26/04/2016 11h39

Já era previsível. No último sábado (23), Beyoncé monopolizou as redes sociais mais uma vez. “Lemonade”, seu novo álbum-visual -- conceito lançado pela própria cantora de forma dispersa há três anos, com “Beyoncé” – fez a internet parar para “assistir ao álbum”, mas não evitou que o trabalho fosse analisado apenas pelo prisma sensacionalista. A cantora teria revelado nas letras, sem rodeios (e com muita raiva), que foi traída pelo marido, o rapper Jay Z.

Na minimalista e sussurrada “Pray You Catch Me”, que abre o álbum, Beyoncé suspeita do adultério e narra, no filme: “Na tradição dos homens em meu sangue, você chega em casa às 3h e mente pra mim. O que você está escondendo?”

A suposta infidelidade entre o casal negro mais influente no entretenimento hoje, entretanto, é apenas o ponto de partida de uma jornada de autoconhecimento.

Entre a negação e a raiva (reações que servem como capítulos à narrativa do filme), Beyoncé aparece em imagens potentes e de grande beleza estética, ora quebrando a cidade com um taco de beisebol (na irresistível “Hold Up”), ora no recado literal: “Hoje eu me arrependo da noite em que coloquei esse anel”, ela canta em “Sorry”, se referindo ao refrão do antigo sucesso “Single Ladies”. Sem meio termo, a cantora não mostra mais a mão à espera de uma aliança na coreografia. “Dedos do meio para cima”, ela agora convoca na nova música.

Mas é com a empatia que o processo de cura interior se intensifica. Acompanhada de referências estéticas da tradição sulista dos Estados Unidos e das religiões afro, a história de traição serve mais como metáfora. É a repetição da história de tantas outras mulheres negras, que tem o amor e o afeto negados pela família, pelo machismo ou pela violência policial.

Não à toa, mulheres negras aparecem com o retrato real de seus filhos mortos pela polícia, em um momento forte e emocionante dessa viagem. No filme, um trecho do discurso de Malcolm X resume bem: “A pessoa mais desrespeitada na América é a mulher negra”, diz o líder afro-americano, enquanto a câmera mostra os rostos de cada uma dessas protagonistas.

A cantora Nina Simone e a poeta somali radicada na Inglaterra Warsan Shire também são citadas, mas é na história da própria família que Beyoncé busca esse ensinamento mágico de reconstrução --seja no country blues de New Orleans em “Daddy Lessons” (sobre os ensinamentos duros do pai), ou com a força ancestral das avós do casal (a quem ela dedica o disco).

Em trecho de seu discurso de aniversário, a avó de Jay Z acaba explicando o processo (e dando nome ao disco): “A vida me deu limões, mas fiz uma limonada”.

 A sonoridade de “Lemonade” é tão ampla e poderosa quanto o discurso. Um caldeirão de R&B une de forma homogênea a vibração eletrônica de James Blake e The Weeknd, a guitarra e o órgão de Jack White e a batida moderna do produtor Diplo – que, assim como a chefe, mostrou ser um produtor cuidadoso e esperto, sem ceder à vala comum do pop.

O hino “Freedom” aparece grandioso já no final, com sample psicodélico da banda Kaleidscope, participação de Kendrick Lamar e mensagem sobre os direitos dos negros. “Formation”, single lançado há dois meses, e que fez barulho nos Estados Unidos pela citação aos Panteras Negras, não aparece no filme, mas fecha o álbum propositalmente. Marca o final dessa jornada e decreta (se ninguém ainda tinha percebido): Beyoncé não é apenas mais uma artista pop.

Na semana em que Prince se vai prematuramente, a cantora lança um conto de fadas violento e feminista, protagonizado por uma mulher negra e feito para mulheres negras. Transformada após a experiência pessoal, seu discurso feminista é traduzido facilmente pelas ondas pop e assimilado nas redes sociais e nos fones de ouvido, como poucos artistas conseguem hoje. E isso é muito.