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Música


Fernanda Abreu volta à cena com o álbum mais intimista de sua carreira

Anderson Baltar

Colaboração para o UOL

04/06/2016 06h00

Uma das mais bem sucedidas cantoras e compositoras do cenário pop nacional, Fernanda Abreu, volta, após doze anos de ausência, a lançar um álbum de estúdio – o último havia sido “Na Paz”, em 2004. Neste período, muita coisa aconteceu. Fernanda perdeu a mãe, após um coma que durou seis anos, e se separou, depois de 27 anos de casamento, do designer Luiz Stein. Porém, segundo a cantora, outros fatores desencadearam esse hiato. Principalmente, as dificuldades impostas pelo novo modelo da indústria da música. “Hoje em dia, lançar um álbum é um grande investimento e de retorno incerto. Preferi focar nos shows e em participações especiais”, explica.

Aos 54 anos, em ótima forma e de coração feliz desde que encontrou o produtor Tuto Ferraz, com quem está casada há quatro anos, Fernanda Abreu volta à cena com o seu álbum mais intimista. “Amor Geral”, produzido por Tuto juntamente com Sérgio Santos, traz nove composições de Fernanda entre as dez canções. Entremeando parceiros antigos (Liminha, Fausto Fawcett, Laufer e Meme) com novos compositores (Qinho, Wladimir Gasper, Sérgio, Tuto e Donatinho), “Amor Geral” tem como uma de suas principais atrações a participação especial de Afrika Bambaataa, criador do Miami Bass, batida característica do funk carioca. Revigorada, com novos parceiros e de bem com a vida, Fernanda Abreu recebeu a reportagem do UOL em seu estúdio, no Rio de Janeiro.



São 12 anos sem lançar um CD de estúdio e dez anos nos separam de seu último trabalho (“MTV ao vivo”). Nesse período, sua vida pessoal foi bastante conturbada e contribuiu para esse afastamento. Quando você sentiu que era hora de voltar a gravar?
Em 2006, lancei meu primeiro disco ao vivo e a partir daí fiz uma turnê grande até 2008. Quando estava começando a pensar em compor para um novo CD, veio o coma da minha mãe. Em paralelo, meu casamento estava desgastado… mas, na verdade, eu sentia desde 2003, quando me tornei artista independente, uma grande mudança na música e na indústria. Por conta da pirataria, as vendas de discos despencaram. Eu me questionava como trabalhar nesse novo momento, de transição do disco pro digital. Me perguntava se as pessoas estavam lançando músicas ou álbuns completos. Isso me desanimou para investir em um conceito de um álbum. Pagar estúdio, músicos, todos os técnicos, designer de capa, fotógrafo, figurinista… Pensei que era hora de esperar.

Essa espera te angustiou?
Nesse período, participei de alguns projetos. Tenho mais ou menos 14 gravações, que pretendo lançar em CD em breve. Eu participei do “Elas cantam Roberto Carlos”, do “Baile do Simonal”, “Samba Social Clube”, cantei “Os Sertões” (samba-enredo clássico da Em Cima da Hora, do Carnaval de 1976) junto com a Mart´nália… Nos últimos anos, na verdade, eu investi nos shows. Fiz a turnê do “MTV ao vivo” e depois criei um show voltado para teatro chamado “Eletro-Acústico”, com uma nova leitura de meus sucessos. Até que chegou o momento em que pensei que a tempestade pessoal já tinha passado. Conheci meu marido há quatro anos e ele foi uma pessoa que me incentivou muito. Comecei a pegar as anotações que tinha juntado e as músicas começaram a surgir.

André Lobo/UOL
Fernanda Abreu durante entrevista em seu estúdio no Rio de Janeiro Imagem: André Lobo/UOL
Você chegou a passar por algum bloqueio criativo?
Passei uns três anos difíceis para produzir, não para criar. Eu tinha anotações feitas, ideias, frases. Às vezes acordava de noite, pegava o telefone e cantava uma melodia. Não tinha vontade e energia para lapidar isso tudo. E o mercado também não contribuía. Resolvi me concentrar mais nos shows, nas participações especiais e esperar o melhor momento para voltar com um álbum de estúdio. Até porque me entrego muito quando resolvo fazer um disco. Eu cuido de todos os detalhes, da contratação dos músicos à fonte de letra da capa. Faço questão de ter controle total sobre o projeto.

E quando você sentiu que era o momento de voltar ao estúdio?
Foi um processo natural. De 2012 para cá as coisas começaram a clarear, comecei a formatar e finalizar as músicas e pensar em quem poderia chamar. Nesses anos, conheci muita gente nova, produtores, músicos, DJs… Não, eu não passei esses anos em casa deprimida. Apenas fiz a opção de não lançar um álbum enquanto tudo não estivesse nos eixos. O interessante é que utilizei esse período e todas as coisas que aconteceram como inspiração para um novo trabalho. Achei que era vital vir com um material pessoal.

Esse é o seu disco mais pessoal?
Sem dúvidas. Nos anteriores, a tônica era a crônica, a narrativa em terceira pessoa, como em “Rio 40 graus” ou “O Brasil é o país do swing”. As músicas tinham o olhar do escritor. Esse disco tem um pouco da minha história. O interessante é que, mesmo em um momento mais intimista, eu não me fechei para o mundo. Tem música que fala de minha mãe, que aborda minha separação. Mas, ao mesmo tempo, minha filha chegava em casa se queixando de um cara que a tinha pego pelo braço na balada. E conversávamos sobre feminismo, intolerância, direitos das mulheres. Eu captei situações que vinham do mundo e as trouxe para o disco. Falo de minhas dores, mas falo sobre racismo, homofobia, direitos da mulher, em busca de um mundo mais tolerante. Esse é o amor geral.

Como foi a construção do conceito do álbum?
O disco começa com “Outro Sim”, que é um manifesto sobre a vida e que fala que sempre há um recomeço a cada dia. Outro dia, outro amor, outras possibilidades... a mensagem da música é essa. “Tambor”, a segunda música, é uma ode à festa e ao instrumento mais ancestral. E, por um encontro totalmente inusitado, consegui trazer o Afrika Bambaataa, que apareceu aqui no estúdio graças a amigos em comum. Eu queria trazer o funk histórico e o Afrika é fundamental, já que sua “Planet Rock”, foi a pedra fundamental do Miami Bass. Depois o disco vem para um lado mais intimista: falo da perda da minha mãe (“Antídoto”) e do casamento desfeito (“O que ficou”). “Double love”, do Fausto Fawcett e do Laufer, joga o disco pra cima e fala sobre a busca do prazer, seja da forma que for. No fim do álbum tem “Valsa do Desejo”, que é uma declaração de amor para o meu marido. E fecha com “Amor Geral”, que é outro manifesto, quase uma vinheta editorial, sintetizando o conceito do álbum.

Quando teremos o show do novo disco?
Já estamos ensaiando, mas acho que só lançaremos a turnê no segundo semestre. Preciso ainda criar a estrutura de palco, cenário, figurino, luz. Pensar no conceito do show, pinçar quais músicas antigas cabem no roteiro, ver se algum arranjo antigo será mexido. Por exemplo, “Você pra mim”, estará no show com uma nova roupagem. Fui convidada a tocar no dia 12 de agosto, em um dos palcos que a Prefeitura do Rio montará para a Olimpíada, e pretendo já apresentar o novo show nessa ocasião. No dia 28 de junho, vou tocar, ainda com o projeto do “Eletro-Acústico”, no Teatro Porto Seguro, em São Paulo. Nesse show, devo apresentar uma versão acústica de “Outro Sim” e, talvez, de “Tambor” já para dar um gostinho para a galera.

Agora, com o álbum na rua, como você sente o mercado da música atual?
Ainda estamos em transição, não dá para ter uma real noção do que é fazer sucesso hoje em dia. É tocar no rádio? Mas é tão complicado tocar… Venda de disco hoje já não quer dizer muita coisa. Então eu foco muito na Internet, que é hoje o local mais democrático para fazer o nosso trabalho circular. Procuro investir em uma Fan Page legal, com conteúdo. Mostro os livros e discos que curto, quais são minhas referências como artista, minhas posições políticas. Isso é fundamental para mim. E o público reage bem, sinto uma sintonia bacana dos meus fãs com meus pensamentos. Não me inibo em dizer que o modelo político brasileiro é ineficiente e que nada vai mudar sem uma reforma política. Existe um gap enorme entre a população e seus dirigentes. Não entendo o Temer como presidente e acho que o povo deve eleger o seu comandante. Sempre fui de esquerda. Fiz campanha para o Lula, toquei em sua posse, e posso dizer que estou desiludida com o PT, especialmente após a sua aliança com o PMDB. Hoje, me sinto independente, não há partido que me represente.