Música

Cantora carioca Mahmundi produz próprio disco e quer ser hit nas rádios

Divulgação
Capa do disco "Mahmundi" (2016) Imagem: Divulgação

Tiago Dias

Do UOL, em São Paulo

07/06/2016 07h00

Marcela Vale trabalhava em uma loja da rede de fast-food KFC, no Rio de Janeiro, quando criou um perfil no extinto MySpace. Entre toneladas de gigabytes de MP3 e pedaços de frango frito no dia a dia do trabalho, a carioca de então 19 anos guardava sonhos. "Eu queria ser guitarrista e produzir alguém", lembra ela.

Os alvos eram os amigos que se aventuravam em realities shows de música. "Eu pedia: 'Quando vocês começarem a fazer muito sucesso, me chamem para tocar guitarra'".

Nos últimos dez anos, Marcela trocou o trabalho no fast-food para ser técnica de áudio. Colaborou para a captação de som em projetos para o cinema e pilotou a mesa de som em apresentações na casa de shows carioca Circo Voador para apurar ainda mais sua paixão. Decidiu ela própria gravar suas ideias nos EPs "Efeito das Cores" e "Setembro". Virou sensação da cena indie na capital fluminense. 

O artista perfeito a ser produzido, porém, nunca apareceu. "Não aparecia ninguém com o timbre que eu imaginava e também não tinha quem bancasse a produção de alguém de 19 anos", se recorda, aos risos. "Essa inocência da idade é uma coisa engraçada, né?". 

Hoje, aos 29 anos, ela trocou o Rio de Janeiro por São Paulo e assumiu de vez o codinome artístico criado na época, Mahmundi, o mesmo que dá nome a um dos discos nacionais mais interessantes deste ano.

Dessa vez, a multi-instrumentista assina a produção e divide as guitarras, sintetizadores e bateria com os amigos Lux Ferreira e Felipe Vellozo. "Todos os artistas que eu amo são produtores e músicos. Sou apaixonada pelo Phil Collins, pelo Genesis, e gosto desse conceito de mixtape, de como fazer um disco e como ele vai influenciar minha vida e na vida das pessoas".

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Marcela Vale, a Mahmundi, lança o primeiro trabalho pela Skol Music Imagem: Divulgação

Música de rádio

"Mahmundi", o disco, é um petardo pop, calcado em batidas eletrônicas e refrões que remetem ao melhor do que a MPB produziu nos anos 1980. É fácil encontrar ecos de Guilherme Arantes em "Quase Sempre" e de Marina Lima (com quem é frequentemente comparada) em "Eterno Verão". "Eu fico feliz, mas não consigo traduzir minha música assim. Só quero fazer coisas de harmonias boas e de bons timbres".

"Hit" abre o álbum como uma carta de intenções. "Final de verão / Fiz um hit para entoar você”, Marcela canta sob uma profusão de sintetizadores com levada reggae. É o que ela vislumbra para a carreira. "Quero que minha música soe popular, que minha mãe ouça e se sinta confortável. É boa essa sensação de que as pessoas estão com você no fone", explica.

Marcela tem uma opinião contundente sobre pessoas que reclamam da música sertaneja e do pagode. "Acho isso tão pequeno. Tudo que está na boca do povo é maravilhoso. Das sinfonias de Bethoveen a Beatles, é tudo música pop, é hit. Não gosto de músicas em que eu preciso ficar entendendo. Música boa vem e acontece, conversa com você quando você está mal e quando você está bem".

Mulher, negra, do subúrbio

Solar e simpática, Marcela é a personificação do clima que permeia no disco. Mas em momento de grande conquista, em que seu trabalho está prestes a ser descoberto a um público mais amplo, ainda tem algo que a derruba.

Nos agradecimentos do encarte, ela dedica o trabalho a cinco jovens que ela não conhecia, mas que foram cruelmente mortos pela Polícia do Rio de Janeiro em dezembro de 2015.

Na época, ela morava ao lado do Madureira, lugar da chacina. A notícia caiu como uma bomba. "Eu sou negra, sou mulher, eu morava no subúrbio. Se eu estou voltando da casa dos meus amigos e passo de carro com mais quatro amigos negros, eu posso ser alvejada", desabafa. "Esses cinco jovens não vão ver isso acontecendo. Não era minha pretensão, mas sei lá. Eles não vão ouvir as minhas músicas".


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