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Feita por elas, mas para todo mundo: mulheres do reggae criam festa própria

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Laylah Arruda e Dani Pimenta se apresentam na festa Feminine Hi-Fi Imagem: TV UOL

Mariane Zendron

Do UOL, em São Paulo

2016-06-14T11:18:13

14/06/2016 11h18

O som é reggae, o DJ só toca vinil e a estrutura de som é de várias caixas de som empilhadas. Criada em Kingston, na Jamaica, a sound system nasceu democrática, no meio da rua, para alcançar o maior número de pessoas independentemente da classe social. Democrática, sim, mas comumente gerida e realizada por homens. Neste ano, quatro amigas de São Paulo se juntaram para mudar essa história. Criaram a festa Feminine Hi-Fi, que já teve duas edições, e querem ter seu próprio sistema de som.

Publicitária e DJ, Daniella Pimenta teve, no início deste ano, a ideia de fazer uma festinha em homenagem ao Dia das Mulheres com amigas que há muitos anos atuam na cena reggae paulistana: as também seletoras Renata Aguiar e Andrea Soriano e a cantora Laylah Arruda. "Mas a Renata achou que a gente tinha que fazer logo uma festa de sound system só de minas e chamar um monte delas para fortalecer, já que o espaço para nós nessa cena é restrito", contou Dani ao UOL.

Sucesso desejado, mas não esperado

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Feminine Hi-Fi é a festa formada por mulheres do reggae em São Paulo Imagem: TV UOL

Era para ser uma edição única e modesta, mas apareceram mais de 500 pessoas, homens e mulheres, na festa feita em um condomínio residencial no bairro do Jaraguá, Zona Oeste de São Paulo. "Foi uma repercussão que a gente queria, mas não imaginava", contou Pimenta. Em seguida, elas foram chamadas para se apresentar em dois momentos da Virada Cultural de São Paulo e, no último sábado, 11, fizeram a segunda edição da Feminine Hi-Fi no Largo da Batata, em Pinheiros, novamente para mais de 500 pessoas.

O UOL acompanhou a festa do último sábado, em que 14 mulheres tocaram e cantaram nas oito horas de festa. Elas chegam cedo, montam os equipamentos, com ajuda de alguns amigos, posicionam as tendas, preparam seus vinis. Nas letras, elas falam de política –"Fora, Temer" foi repetido várias vezes – combatem violência policial e o racismo, mas também inserem pautas feministas. "Não tem diretamente uma divisão da mensagem, mas a visão da mulher é diferente. Temos condições diferentes das dos homens", explica Laylah, que canta há mais de 10 anos. Na recém-lançada "Flor de Aço", por exemplo, ela manda: "Carrego a semente no ventre/ Cê me respeite!/ Não sou objeto pra sustentar seu deleite/ Adjetivo que é suspeito logo me esquivo".

Laylah diz que por muito tempo se viu sozinha "no rolê" predominantemente masculino do reggae. "Canto há 11 anos e tinha uma época que eu tava até meio sozinha no rolê. Hoje em dia fico feliz e honrada por ter várias companheiras". Também há mais de uma década no reggae, Renata tem discurso parecido. "Quando comecei quase não tinha mulher na cena. Quem quer ficar no reggae tem que ser persistente".

Chegada de outras minas



Além de reunir o mesmo público de qualquer festa de reggae, Dani Pimenta falou que depois da primeira edição da Feminine Hi-Fi, outras mulheres disseram se sentir mais à vontade para cantar. "Muitas meninas dizem ter vergonha de cantar reggae. Sentiam-se tímidas e até oprimidas", diz Dani. Mariana Soares é uma delas. "Conhecia o trabalho das minas há um tempo, mas eu to chegando agora e elas estão me dando espaço. Estamos aqui para somar sempre e não para competir".

O equipamento é emprestado pelo grupo Smoke'Dub Sound System, que é um grupo formado por homens, mas que têm discurso afinado com as Feminine. "Eles entendem qual é a proposta do grupo e não acham que é mimimi ter uma festa só nossa". Mesmo assim, o objetivo é ter um sistema de som só delas. O dinheiro está vindo aos poucos, do próprio bolso das organizadoras.

Para quem curtiu a proposta, a promessa é de muitas edições de Feminine Hi-Fi pela frente, pelo uma a cada três meses. "Vamos com calma para não perder a essência da festa". Renata diz ainda o que deseja para as próximas edições. "Queremos incentivar cada vez mais mulheres, que elas venham, que elas cantem, que elas colecionem discos. Queremos formar um movimento massivo de mulheres do reggae".