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Sem saber cantar, Xuxa vendeu 2,5 milhões de cópias de "Xou da Xuxa"

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Capa do box comemorativo "Xou da Xuxa", lançado em julho de 2013 Imagem: Divulgação

Guilherme Bryan

Do UOL, em São Paulo

29/06/2016 07h00

"Se vira". Essa foi ordem que o produtor musical Guto Graça Mello recebeu do presidente da gravadora Som Livre, João Araújo, quando disse: "Xuxa não é cantora e não sabe cantar".

"Ela era artista da TV Manchete e já havia lançado um disco lá. Quando ela foi contratada pela Globo, consequentemente, foi feito um acordo também com a Som Livre. O João Araújo me chamou e disse: 'Nós contratamos a Xuxa e você tem que fazer um disco do programa dela. Fui apresentado a ela e pedi para cantar. Percebi que, naquela ocasião, ela não conseguia dar uma única nota. Contei para o João, e ele: 'Se vira. Inventa um disco para fazer com ela'", recorda Guto, que produziu o primeiro álbum do "Xou da Xuxa", lançado em 30 de junho de 1986 e que vendeu mais de 2,6 milhões de cópias.

As dificuldades de Guto não pararam por aí: nenhum compositor queria dar música para Xuxa --bem diferente do que aconteceu no segundo disco dela, quando tinha fila na porta. "Eu queria colocar compositores que não eram exatamente infantis. Saí, feito um maluco, catando música que dessem para ela. A música que até hoje toca, 'Quem Qué Pão', era da Aretuza [que assina como Tuza, junto com J. Corrêa], nossa assessora de imprensa, que a tinha criado como brincadeira para os filhos comerem", revela. 

Outras músicas que tocaram bastante desse disco foram o tema de abertura do programa, "Doce Mel (Bom Estar com Você)", de Claudio Rabello e Renato Corrêa; e "She-Ra", de Joe e Tavinho Paes.



A proposta, totalmente desacreditada por parte da Som Livre em termos de venda, era unir letras para crianças com a parte instrumental e de arranjos feitos por músicos do rock nacional. Não é de se estranhar a presença de "Peter Pan", de Rita Lee e Roberto de Carvalho; e "Garoto Problema", de Frejat e Guto Goffi, com a participação de Evandro Mesquita. A cantora Patrícia Marx, na época do Trem da Alegria, também canta uma faixa, "Miragem", versão de Ronaldo Bastos para "Black Orchid", de Steve Wonder. O resultado alcançado foi beneficiado pelo plano econômico Cruzado, que gerou uma onda de consumismo e a criação do disco de diamante.

"Em uma semana, foram cem mil discos vendidos. Tiveram que fazer um disco de ouro e entregar para a Xuxa. Uma semana depois, 250 mil, e foi em progressão geométrica. Quando chegou em 2,5 milhões, o João já estava de saco cheio, porque tinha que parar a fábrica, e falou: 'Ou a gente faz disco para vender --e não parava de vender-- ou disco-prêmio'. Daí eu disse: 'Inventa um disco de diamante. Faça um disco como se fosse de platina, bota um diamantezinho e dá para sua artista'. O João botou um plástico bem vagabundo e foi a primeira vez que teve esse negócio de disco de diamante", assegura Guto.

Para Guto, a vendagem do disco, que se tornou um recorde para a época, superando RPM, fenômeno da música pop, e Roberto Carlos, é resultado da empatia da Xuxa com o público infantil e um vazio que havia em um segmento que consome com uma voracidade impressionante até hoje.

Em 1995, "Xou da Xuxa" foi reeditado com duas faixas bônus que estavam presentes originalmente em "Karaokê da Xuxa", de 1987: "Papai Noel dos Baixinhos" e "Parabéns da Xuxa", sucesso da dupla Michael Sullivan e Paulo Massadas, que rendeu elogios de Erasmo Carlos. "Um dia Erasmo chegou junto da gente e disse que nós queimamos a língua dele, porque numa entrevista havia dito que se fosse fácil fazer sucesso comercial, todo mundo faria um novo 'Parabéns para Você' e nós fizemos", comemora Sullivan.

Primeiro disco da Xuxa

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"Xou da Xuxa 3" entrou para o Guiness como o disco infantil mais vendido Imagem: Divulgação

Xuxa já lançou 28 álbuns de estúdio, 13 compilações e oito álbuns em espanhol. Boa parte deles foi realizada com o produtor, cantor e compositor Michael Sullivan, que trabalhou com ela desde o primeiro disco, "Clube da Criança", de 1984, e que contou com a participação de Pelé e do palhaço Carequinha, até 2000. Juntos, eles venderam mais de 40 milhões de cópias.

"Nós estávamos bolando um grupo no qual pensávamos botar o nome de Trem da Alegria. As músicas seriam cantadas por Luciano e Patrícia, e pensamos na Xuxa, que tinha o 'Clube da Criança' na Manchete. Eu e Miguel Plopschi fomos até à televisão para mostrar duas músicas para ela, que disse que não queria cantar, ficou chateada e quase expulsou a gente de lá. Uma semana depois, ela disse que a mãe, Dona Alda, havia a incentivado. Tiramos o tom, fizemos o arranjo e ela cantou com muito sacrifício, porque não queria ir ao estúdio. Mas ficou direitinho e ela então nos convidou para fazer com o programa dela", conta Sullivan. A apresentadora ainda lançou "Xuxa e Seus Amigos", em 1985, com a participação de Caetano Veloso, Chico Buarque, Zizi Possi, Nara Leão e Erasmo Carlos, entre outros.
           
Sullivan voltou a trabalhar com ela em "Xegundo Xou da Xuxa", lançado em 1987, e que vendeu mais de 2,7 milhões de cópias, com sucessos como "Festa do Estica e Puxa", de Bell Marques e Wadinho Marques (ambos na época do Chiclete com Banana); "Rambo", de Michael Sullivan e Paulo Massadas; e "Dodói Neném", de Fred Góes e Guilherme Maia.

Mas o grande campeão de vendagens é mesmo "Xou da Xuxa 3", também produzido por Sullivan, que superou a marca dos 3 milhões de cópias, muito em função de "Ilariê", de Cid Guerreiro, Dito e Ceinha, que virou uma verdadeira mania entre os brasileiros e, depois, também em sua versão em espanhol. Até hoje, ele só foi superado por "Músicas para Louvar o Senhor" (1998), do Padre Marcelo Rossi, que chegou a 3,2 milhões. "É o maior ícone da carreira dela. São clássicos. Todas as músicas estouraram e foi a partir daí que nós fizemos o disco dela internacional", garante Sullivan.


Outro sucesso do disco foi o "Abecedário da Xuxa", composto por Souza e Cesar Costa Filho. "A música foi feita a pedido do Paulo Massadas, que morava no mesmo condomínio que eu", conta Cesar. "A repercussão foi imediata junto ao público. As escolas passaram a utilizá-la para facilitar na alfabetização das crianças em todo o Brasil. A partir daí, outras músicas infantis foram feitas e gravadas por Angélica, Trem da Alegria, Eliane, Mara Maravilha. Foi uma experiência nesse segmento que deu certo e a letra tem um cunho social que poucas pessoas perceberam. Até hoje é considerada uma das músicas mais marcantes da trajetória da Xuxa".

Mesma repercussão teve "Brincar de Índio", composição de Sullivan e Massadas a pedido da própria Xuxa. "Ela pediu uma música em homenagem aos índios, porque gostava deles e queria que falássemos de uma maneira séria a favor deles. Fizemos e foi muito elogiado por toda a crítica. Quando ela chegou no estúdio com as Paquitas e ouviu a música, já foi pulando e fazendo a dança. Quem pensa que a Xuxa não dava opinião, está enganado. Ela dava opinião em tudo, 70% do que ela gravava era o que pensava e dava ideia. Ela passava o briefing", garante Sullivan.

Ele também assegura que o diferencial dos discos da apresentadora era ter letras para crianças, mas com uma qualidade musical digna do que havia de mais moderno para os adultos e adolescentes no mundo. "A Xuxa não cantava muito bem, mas o que fazia era muito verdadeiro e o que prevalece é a verdade. Nesse sentido, ela era a maior intérprete", finaliza.
 

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Capa do disco de Patrícia Marx de 1987 Imagem: Reprodução/Instagram

Duas lendas do universo Xuxa

Patrícia Marx cantou no lugar de Xuxa em todas as faixas?

Guto Graça Mello garante que não. "A Xuxa cantou com muita dificuldade. Ela não conseguia cantar. Eu peguei uma cantora que fazia backing vocal para mim, chamada Nina, e a produzi como se fosse a personagem Xuxa, com os trejeitos que eu gostaria que ela fizesse. Gravei com essa menina, a Xuxa foi para o estúdio e passou dias e dias ouvindo no fone a voz dela e imitando-a. Naquela época não tinham esses programas de afinar a voz. Então ela cantava em vários canais e eu reduzia para um com os melhores momentos. Então, para cada música, ela gravou centenas de vezes até chegarmos à voz ideal. A Xuxa nunca teve a pretensão de ser cantora. Mas foi uma guerreira".

Quando se ouvia a música "Meu Cãozinho Xuxo", de Rogério Enoé Messias Correa, ao contrário, era possível escutar a mensagem: "meu anjo é o diabo e o mundo tem que ter esse seu amor que recebo"?

"Isso é viagem", diz Guto. "Fui eu que gravei essa música. Não tem nada disso. Algum maluco deve ter tocado a faixa ao contrário e ouviu algum som estranho. É normal provocar isso. Mas nada a ver [risos]".