PUBLICIDADE
Topo

Planet Hemp, o filme: Cinebiografia sai em 2017 após 8 anos de resistências

Os primeiros shows do Planet Hemp em São Paulo são retratados no longa "Anjos da Lapa". As filmagens aconteceram numa locação na Lapa, no Rio de Janeiro - Dan Behr/Divulgação - Dan Behr/Divulgação
Os primeiros shows do Planet Hemp em SP são retratados no longa "Anjos da Lapa"
Imagem: Dan Behr/Divulgação

Giselle de Almeida

Do UOL, no Rio

15/07/2016 14h31

No palco de uma casa de shows na Lapa, no Rio de Janeiro, o ator Renato Góes puxa os primeiros versos de "Phunky Buddha" repetidas vezes --no ensaio, na passagem de som, na gravação só com a banda e na gravação com cerca de cem figurantes. De camisa xadrez e gorro, este último emprestado de Marcelo D2, ele encara suas últimas cenas como o rapper no derradeiro dia de filmagens de "Anjos da Lapa". A animação que toma conta do espaço se deve em parte ao simbolismo da sequência, que representa os primeiros degraus da trajetória bem-sucedida do Planet Hemp, mas também por conta da realização de um projeto gestado há longos oito anos.

Depois de alguns contratempos na captação e duas tentativas frustradas de realização, o longa dirigido por Johnny Araújo e Gustavo Bonafé enfim encerrou uma etapa importante na última terça-feira (12), quando o UOL visitou o set. E o resultado deve, finalmente, chegar aos cinemas no primeiro semestre de 2017.

"Última diária é sempre intensa e confusa. A gente está cansado e, ao mesmo tempo, bate uma saudade, uma tristeza", diz Johnny. "Esse projeto especialmente teve um envolvimento muito grande das pessoas e demorou oito anos. Passamos por várias etapas. É um misto de sentimentos, tem horas que dá vontade de chorar, de gritar, uma loucura. É quase como se seu filho falasse: 'Tô indo nessa'".

O cineasta conta que chegou a pensar, por mais de uma vez, que a história de amizade entre D2 e Skunk, apelido de Ícaro Silva, fundadores da banda, não fosse sair do papel. "Teve um momento em que a gente parou e eu pensei: 'Poxa, como eu gostaria de fazer esse filme, mas talvez não chegue lá'. Mas nos readaptamos, entrou outro roteirista [Felipe Braga] no projeto. Todos nós envelhecemos, a cabeça muda. Já não era a história que eu queria contar. Senti a necessidade de dividir a direção, seria bom para trocar ideias. Eu estava ligado ao filme de um jeito muito emocional. Fiquei com medo de isso me atrapalhar. A entrada do Gu, que é meu parceiro há muitos anos, foi fundamental para eu me sentir seguro", diz.

Segundo o produtor Paulo Schmidt, da Academia de Filmes, o projeto orçado em R$ 7 milhões esbarrou em algumas dificuldades, como a liberação de financiamento por questões de mercado. Outro entrave foi a resistência de algumas marcas em aceitarem patrocinar o longa. "Algumas faziam associação da banda com drogas, o próprio nome do grupo é uma irreverência, uma provocação. Mas o filme não tem esse viés da apologia ou de defender a causa. É uma contradição, já que o próprio Marcelo é chamado para fazer publicidade, inclusive de cerveja", afirma ele, que aposta num potencial de 2 milhões de espectadores.

Nesse meio tempo, Johnny dirigiu outro filme e algumas séries, o roteiro passou por algumas reescrituras e a produção ficou mais enxuta. Além disso, o elenco precisou ser substituído por questões de agenda - há cerca de um ano, com a retomada da produção, Renato foi convidado pelo diretor e Ícaro, pinçado em testes.

"Renato estava superfocado em fazer, ensaiou as músicas do Planet Hemp por conta dele. O Skunk era uma incógnita para a gente. O Fabrício Boliveira a gente perdeu para outro longa, e o Ícaro caiu como uma luva. Ele já tinha muitas características do personagem, não só físicas, mas de astral, de humor. Aquelas coisas de males que vêm para o bem. Filme precisa dessas sortes", diz Gustavo, acrescentando que D2 acompanhou todo o processo de perto, em leituras, gravações, ensaios com os protagonistas e também na trilha sonora.

Fã-clube ou figurantes?

Antes de entrar em cena, Renato Góes se concentra, muda a postura e ensaia letra e gestos até o grito de "ação". Entre os muitos takes que a sequência do show exige, é nítida a diferença quando ele precisa cantar (em playback) para uma plateia de verdade, formada de figurantes escolhidos entre o fã-clube da banda.

"É natural essa mudança, você sente a resposta do público. É igual ao teatro. Ensaio é uma coisa, no dia da estreia é uma magia. Tudo que a gente achava que não ia dar certo de repente dá. Foi mais ou menos assim. Quando a gente vê o público ajudando, cantando e pulando, a gente se empolga e vai junto", afirma o ator.
 
Embalado por muita fumaça, o clima do show se completa com moshs de fãs, que dividem também um cigarro e umas cervejas com os ídolos da ficção. Empolgadíssimos, os figurantes levam bronca da produção, no entanto, quando deixam à mostra um celular - um pecado para uma produção que retrata o início dos anos 90.
 
 
Mas o momento que dá um pouco mais de trabalho é quando Ícaro entra em cena. Na trama, D2 pensa avistar o amigo, já bastante debilitado pela Aids, no meio da plateia. Para isso, ator e dublê precisam ensaiar precisamente a marcação para trocarem de lugar enquanto o câmera, posicionado em cima do palco, treinava os movimentos que escondiam o truque.
 
Nada muito difícil para quem havia passado o domingo anterior correndo o dia inteiro. "A cena mais tensa que gravei foi a do Skunk sendo perseguido pela polícia, no centro da cidade. Estou com muita dor da perna, mas cinema é isso: suor para alcançar resultados", brinca Ícaro.
 
Despedir-se das filmagens só com cenas de shows (que também incluíam apresentações do Planet Hemp na extinta casa de shows Garage, no Rio) deu um gosto especial ao último dia de trabalho, após um mês rodando em cenários como os Arcos da Lapa. "É gostoso. Trabalhei muito tempo com videoclipes, depois fugi bastante disso. É até engraçado fazer isso de novo. E é legal que o filme não tem muitos shows, a gente não focou nisso. Nosso foco é a história de amizade, e quem quiser ver o Planet vai no YouTube. Mas é importante para justamente mostrar o que aconteceu. Olha, essa batalha toda do Skunk e do Marcelo resultou nisso", diz Johnny.