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Uma beatle brasileira: Como uma jovem gravou e foi ao espaço com a banda

Tiago Dias

Do UOL, em São Paulo

26/08/2016 12h14

Em 1968, os Beatles já haviam abandonado os palcos e se enfurnado nos estúdios da Abbey Road, em Londres (na época conhecido como estúdio EMI). Ali, onde poucos ilustres tinham tráfego livre, uma carioca de 16 anos furou o bloqueio durante uma noite e eternizou sua voz em uma canção da maior banda de todos os tempos.

A voz de soprano da brasileira Lizzie Bravo serviu de backing vocal no refrão de “Across the Universe”, lançada como single em 1969 e posteriormente no álbum “Let it Be” [já sem os vocais de apoio].



Aquele sonho mais longínquo e delirante se realizara ali. Lizzie cantou em um microfone direcional junto de John Lennon, seu beatle favorito. Na época, descreveu, entre lágrimas, a sensação de ter John suspirando perto do seu pescoço. "Queria ter podido não piscar para ver mais o John", registrou em seu diário.

Duas horas antes, ela era apenas mais uma fã que acampava na frente do estúdio, quando Paul abriu a porta com um pedido insólito: “Alguém de vocês consegue sustentar uma nota aguda?”. Lizzie e a britânica Gayleen Pease levantaram a mão.

A brasileira Lizzie Bravo posa diante do "carro psicodélico" de John Lennon - Arquivo pessoal de Lizzie Bravo - Arquivo pessoal de Lizzie Bravo
A brasileira Lizzie Bravo posa diante do "carro psicodélico" de John Lennon
Imagem: Arquivo pessoal de Lizzie Bravo

Tiete aos 15

O relato é apenas mais uma página do diário que mantinha desde que deixou a vida confortável na zona sul do Rio de Janeiro para ver os Beatles de perto.

A ideia partiu da amiga, Denise Werneck, com quem dividia o desespero da notícia da aposentadoria dos palcos. Bolaram então um plano: pedir aos pais uma viagem a Londres em vez de uma festa de debutante.

Do jeito que desembarcou em Londres, em fevereiro de 1967, ela foi para a porta do estúdio. Trombou com Lennon logo de cara. “Ele apertou minha mão, disse alguma coisa que eu não me lembro. Deu um branco”, conta Lizzie hoje, aos 65 anos.

Assim que Lennon entrou no seu Rolls-Royce preto, caiu no choro. A amiga, seguidora de Paul McCartney, pediu: “Vai para lá que eu não quero que Paul me veja com você assim”. Acabou sendo consolada pelo roadie Mal Evans com um Kit Kat.

A partir dali, manteve o ritual em três turnos. A via-crúcis ainda passava pelas portas das casas de Paul e na mansão Kenwood, de Lennon. Uma vez, George Harrison passou por elas e brincou que elas deveriam estar na igreja. “Mas nós estamos”, responderam.

“A maioria das meninas não podia ficar até de madrugada. Meu pai só ficou sabendo recentemente que víamos o sol nascer, que passávamos fome, que às vezes íamos embora para casa a pé porque não tínhamos mais dinheiro.”

A viagem de “férias” virou uma peregrinação de mais de um ano. À certa altura, o pai mandou avisar que a matrícula do colégio já tinha sido feita. Lizzie peitou: “Não vou voltar”.

“Eu era a princesinha da classe média. Frequentava colégio de freira, estudava balé clássico, tocava piano, era bandeirante. Era aquela caretona, ninguém podia imaginar que eu faria uma loucura dessas”, relembra.

Sua rotina consistia em conversar um pouco com os integrantes, ganhar mais um autógrafo e tirar fotos. Muitas fotos. Com uma cópia de plástico de uma Instamatic de tiracolo, Lizzie fez centenas delas, que agora são lançadas no livro “Do Rio à Abbey Road”.

Bancado do próprio bolso, o livro é vendido exclusivamente na exposição Beatlemania Experience, que abriu as portas nesta semana no Shopping Eldorado, em São Paulo. Parte do seu acervo também está na mostra, que contou ainda com sua consultoria.

Está no livro também a íntegra do seu diário. “Quem conta essa história é aquela menina de 15 anos. Então tudo é um exagero, todo dia eu quase morro ou choro”, ela brinca.

Mas o maior tesouro está nos relatos. Certa vez, com Denise já no Brasil, buscava um gravador para ouvir a fita que a amiga havia enviado para Londres. No entre e sai do estúdio, comentou sobre a encomenda recebida com Paul. “Passa lá em casa que eu tenho um gravador para você”, disse o beatle.

A brasileira passou a barreira das fãs, entrou na sala da casa de Paul e recebeu o aparelho das mãos do próprio: “Mas as pilhas estão ferradas”, advertiu.

No espaço

“Across the Universe” seria mais uma entre tantas que Lizzie cantou na vida. Ela acompanhou e gravou com Joyce, Djavan, Milton Nascimento, Zé Ramalho, Egberto Gismonti e Zé Rodrix com quem foi casada, mas foi com os Beatles que ela ultrapassou a estratosfera.

Em 2008, quando a canção completou 40 anos, a Nasa transmitiu a gravação original em direção à estrela localizada a 431 anos-luz da Terra. 

Há 48 anos, a cantora tenta decifrar aquela outra viagem em Abbey Road. “Na hora não caiu a ficha, não passou pela minha cabeça. Só anos depois que eu entendi que era uma loucura aquela menina sair do subúrbio carioca para dividir o microfone com seu ídolo. Ainda tento compreender o que aconteceu”, diz.

 Serviço
Beatlemania Experience
Quando: de 24 de agosto a 20 de outubro de 2016
Onde: Shopping Eldorado (Av. Rebouças, 3.970, Pinheiros)
Quanto: de R$ 25 (meia) a R$ 50
Vendas: bilheteria, pelo site www.ingressorapido.com.br ou telefone (11) 4003-2051