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Entre Gretchen e novela, Emanuelle Araújo se joga no mundo em 1° disco solo

Tiago Dias

Do UOL, em São Paulo

09/09/2016 17h16

Num primeiro momento, a trajetória de Emanuelle Araújo parece comportar facetas muito distintas entre si. Ela foi mãe precoce aos 17 anos, segurou a bronca em cima do trio elétrico aos 22, ao substituir Ivete Sangalo na Banda Eva, e antes dos 30 já era figurinha fácil no elenco das novelas da Globo. Mas quem é e para onde vai essa mulher de 40 anos, que finalmente lança o primeiro disco solo?

A resposta pode estar no irresistível samba “Uma Mulher” que abre “O Problema É a Velocidade”, lançado nesta sexta-feira (9). A canção do carioca Gabriel Mizak aborda os universos distintos de homens e mulheres, e descreve a figura feminina como alguém que vaga sem pressa acendendo o cigarro “na guimba do outro”.

“Não tinha feito essa análise psicanalítica. Realmente sou uma mulher que gosta muito de acender na guimba do cigarro dos outros”, ela observa, aos risos, em entrevista ao UOL. “Gosto muito de troca. Sou uma pessoa do mundo. E hoje, com minha filha criada com 22 anos, me sinto mais do mundo ainda.”

Não se trata de um novo caminho a ser trilhado. Ela ainda é tudo ao mesmo tempo agora. Enquanto divulga o primeiro rebento musical só seu, está mergulhada nas gravações de “A Lei do Amor”, nova novela da TV Globo, e aguarda sua volta ao cinema na pele da cantora e dançarina Gretchen em 2017, no filme “O Rei das Manhãs”, inspirado na vida de Arlindo Barreto, intérprete brasileiro do palhaço Bozo durante os anos 1980.

“Fiz com muita dedicação esse desafio de viver a Gretchen, que é um ícone feminino do Brasil”, conta. “Foi uma pesquisa absurda, assisti talvez a todos os vídeos da época no início dos anos 1980, quando ela estourou em vendas de discos”.

Não se trata, contudo, de uma artista que se “divide” entre as funções. “Não uso essa palavra. Acho que eu consigo fazer bastante coisa, porque quando eu estou em qualquer um desses lugares, eu estou inteiraça”, rebate.

Emanuelle - Marcos Pinto/UOL - Marcos Pinto/UOL
Aos 40 anos, a cantora e atriz Emanuelle Araújo finalmente lança o primeiro disco solo "O Problema é a Velocidade"
Imagem: Marcos Pinto/UOL

 

Eu sou a favor da democracia no Brasil, sou contra qualquer atitude que seja antidemocrática. Para mim, isso é claro. Essa superficialidade da modernidade é o grande problema






“Além do Carnaval”

De certa maneira, “O Problema É a Velocidade” refaz a geografia dessas muitas Emanuelles. Sob a batuta do produtor Kassin (Los Hermanos, Vanessa da Mata e Gal Costa), o álbum tem composições de Arnaldo Antunes, Zeca Veloso (filho de Caetano) e Paulinho Moska, entre outros.

No estúdio, Pedro Sá (violão e guitarra), Stephane San Juan (percussão), Danilo Andrade (teclados), Alberto Continentino (baixo) e o próprio Kassin (baixo) buscaram uma simbiose entre o samba, o ijexá e a MPB, em um trabalho delicado e sedutor, gravado em um ambiente mais analógico, sem muitos efeitos. Finalmente, o disco que esperavam que ela lançaria ao sair da banda Eva em 2002.

Mas, como indica o título do trabalho, ela não teve a menor pressa, e se jogou primeiro nos trabalhos coletivos do Moinho (com a percussionista Lan Lan e o guitarrista Toni Costa) e da big band Orquestra Imperial. “Quando saí da Banda Eva, queria me reencontrar em um mix musical que realmente me desse liberdade, onde eu não ficasse restrita a um estilo. Eu sou do Carnaval, mas sou além do Carnaval”, observa. “Sou mais lenta e não gosto dessas expectativas sob mim. Geralmente eu driblo todas”.

Assim foi quando se viu no ano passado, mais uma vez, nas colunas de fofoca, apontada como namorada de Nanda Costa. Poderia ter reagido com negativas, mas preferiu dividir os vocais com a atriz e amiga em uma música irônica chamada “Me Erra”, divulgada na internet. Em um trecho, ela diz que é "sacanagem tirar vantagem da vida privada" e que "se eu pego mais de um a vida é minha".

"Eu não gosto quando as pessoas que me seguem compartilham esse tipo de informação sem saber o que estão falando. Mas a salvação do mundo passa pelo amor e pelo humor", prega, rindo. “O problema é o anonimato”. E ela não está falando só de manchetes sensacionalistas. Em tempos de polarização política, e da velocidade – sempre ela – das informações, ela teme que estejamos todos nos tornando superficiais.

“Não é ver uma manchete e se posicionar diante dela, é se aprofundar. Não dá para você criar uma divisão partidária, que é o que está acontecendo no Brasil, onde grande parte das pessoas não sabem do que estão falando e estão defendendo ideais seríssimos”, diz.

“Muitas vezes seu posicionamento desperta ódio, uma relação totalmente estranha com esse universo do anonimato. Eu sou muito clara quanto ao meu posicionamento básico”. E declara: “Eu sou a favor da democracia no Brasil, sou contra qualquer atitude que seja antidemocrática. Para mim, isso é claro. Essa superficialidade da modernidade é o grande problema”.