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RZO volta após 13 anos com mesmo discurso para novo público: "Nada mudou"

Levi Cruz/Divulgação
Após volta em 2014, grupo de rap RZO lança o 1° disco em 13 anos Imagem: Levi Cruz/Divulgação

Tiago Dias

Do UOL, em São Paulo

16/09/2016 12h01

Muita coisa mudou desde que um dos principais grupos de rap do Brasil decidiu dar uma pausa na carreira. Quando o RZO lançou em 2003 o que seria seu último disco, "Evolução é uma Coisa", Lula havia acabado de chegar à presidência, a periferia ainda não tinha bombado com o funk e o rap sequer havia saído de seu gueto.

Mas por mais moderna que seja a batida que marca a volta do grupo, os rappers de Pirituba prometem a mesma contundência de sempre. Afinal, para eles, o mundo realmente girou muito nos 13 anos em que ficaram longe do estúdio – mas parou no mesmo lugar. "Os mesmos problemas dos anos 1990 ainda estão aí. Chacina voltou e o racismo está à flor da pele”, explica Helião ao UOL.

O rapper, diferente do “mundão”, resolveu transformar corpo e mente para o grande retorno. "Parei de fumar por quatro anos, fui à igreja, fui à academia treinar, fui colher informação”. A paz de espírito, como ele diz, fez ressurgir uma pegada nas letras. "Minha inspiração voltou. Eu cobro de mim, preciso ser um dos melhores, porque isso é tudo que eu faço na vida".

Após 13 anos sem lançar nada, a Rapaziada da Zona Oeste está pronta para tirar o novo disco do forno, agora em parceria com a produção da Boogie Naipe, produtora de Mano Brown. Ainda sem título, mas com a bússola bem apontada para o público mais jovem.

"O disco fala dos problemas que ainda existem, e hoje estão mais explícitos através da internet, mas acabam morrendo ali", conta DJ Cia, enfurnado no estúdio para lapidar a obra. "Fala da nova geração e como eles vivem e enxergam o mundo de hoje". O primeiro single, "Jovens a Frente do Tempo", a ser lançado no dia 30 de setembro, deixa clara a missão.

Com introdução melódica e batida esmerada do DJ, a letra dá o toque, no estilo de clássicos do grupo, como "A Lei", "Pirituba" e "Todos São Manos": "Precisa prestar atenção, pois a vida não é ilusão, não / Nasci em quebrada com a rapa respeito, mané é o ladrão então / O tempo engole seu sonho, vai ver que é cruel o mundão, meu irmão /  Você só tem uma opção, é tremer o chão".

Levi Cruz/Divulgação
DJ Cia: "O disco fala dos problemas que ainda existe, e hoje estão mais explícitos através da internet, mas acabam morrendo ali" Imagem: Levi Cruz/Divulgação
 

Helião, Sandrão, Calado, DJ Cia e Negra Li – que embora cante no disco e participe de algumas apresentações está focada no seu novo disco solo –, sobem ao palco do Sesc Pompéia, em São Paulo, no próximo fim de semana (dias 23 e 24) para mostrar os novos versos sobre violência policial, racismo e até sobre as ocupações nas escolas, que dominou o Estado de São Paulo no ano passado, e que é citada em "Uma Multidão Rumo a Solidão". "Tem muita coisa agora que precisa ser falada que poucos rappers estão falando", justifica Helião.

De volta à cena

No início dos anos 2000, o RZO situava-se no epicentro do rap nacional, quando o Racionais MC's explodiu na MTV e viralizou (mesmo sem internet) o clipe de "Diário de um Detento". Sabotage, nome lançado pelo RZO, tinha acabado de lançar seu disco e o clima era de celebração. Por isso, a notícia da ruptura foi recebida como um baque. "Foi por divergência de ideia mesmo. Somos cabeças pensantes, gênios fortes", explica Helião, hoje. 

A partir dali, ele se aventurou com Negra Li por uma gravadora grande, enquanto Cia viajava o mundo, seduzindo os rappers americanos -- de UGod (do Wu Tan Clan) a Jazmine Villegas -- com sua produção pesada com sabor 'oldschool'.
 

Bruno Ulivieri/AE
Helião: "O mundo precisa saber que a polícia mata aqui, que a gente vive de golpe, coisa que existia há 100 anos e ainda tem. Chacina voltou, o racismo está à flor da pele. Essas coisas precisam ser faladas" Imagem: Bruno Ulivieri/AE

Nesse meio tempo, Criolo e Emicida abraçaram um público distinto introduzindo elementos da MPB. Mas, ainda assim, Cia reclama que a indústria parou no tempo em que o grupo dava os primeiros passos em 1993, com o disco de estreia "Pobre no Brasil só Leva Chute".

Ao apresentar as músicas novas para radialistas, ouviu com frequência que o som estava "pesado e moderno demais". "Tudo para esses caras tem que ter violão. Só toca na rádio se tiver um violãozinho e uma batidinha. Eu não entendo porque eles ficam nesse mundo fechado, brisando nessa ideia. Quando se trata de música gringa, os caras tocam o que a gente produz, com mesmo timbre. A produção da Beyoncé e da Rihanna é pesada, cheio de timbre louco. Nossa produção também é monstro", reclama. "O Criolo que está fazendo a música mais pop, com produção bonita mesmo, também não toca." 

Enquanto a luta por mais espaço por aqui continua, o grupo quer levar as caixas de som para além das fronteiras. "Queremos fazer show lá fora. O mundo precisa saber que a polícia mata aqui, que a gente vive de golpe, coisa que existia há 100 anos e ainda tem”, diz Helião, se referindo ao impeachment da presidente Dilma Rousseff.

“A nossa maior conquista nesses 10 anos foi ter uma mulher presidente e deixamos o golpista derrubá-la. Tudo bem, o partido dela estava totalmente errado, mas acho que a gente tinha uma chance mais ativa de ser ouvido por ela do que por esses caras que entraram", observa o MC. “O brasileiro, principalmente o povo da periferia, precisa se interessar mais. É por isso que estamos aqui."