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Música

Bob Dylan abre Desert Trip Festival com Paul McCartney na plateia

Jotabê Medeiros

Colaboração para o UOL, em Indio (Califórnia)

08/10/2016 01h36

Paul McCartney estava na plateia, atento e embevecido como um fã qualquer. O telão mostrava uma edição de imagens de Bob Dylan em diversas fases da carreira. Súbito, pouco antes das 19h desta sexta-feira (7), no horário local (23h em Brasília), o próprio Dylan surgiu como numa emboscada e sobrepôs seu som à música ambiente, com sua banda já no palco, e triturou o culto à personalidade com "Rainy Day Women #12 and 35" (do disco "Blonde on Blonde", de 1966).

Estava ali no palco, em pleno deserto, feroz e expressionista, o homem que há cinco décadas é uma espécie de Grilo Falante da América, a consciência inconveniente e blasé de seus conterrâneos, praticamente um exilado em sua própria terra.

A câmera praticamente focalizava um vulto, em geral mostrando Dylan do alto, só o tampo do chapéu. O som perfeito que Dylan desfrutou na abertura do megafestival Desert Trip, (em Indio, Califórnia, a 204 km de Los Angeles), totalmente lotado, uma plateia estimada em 75 mil pessoas, amplificou sua figura destoante, sorrateira, critica.

Como de hábito, Dylan nunca toca a mesma coisa do mesmo jeito. "It's All Over Now, Baby Blue" (do disco "Bringing It All Back Home", de 1965) surgiu com nova métrica, suave e ardida ao mesmo tempo, talvez em uma das mais lindas versões.

O telão, gigante, uma cortesia de Roger Waters (a cenografia teve que se ajeitar com sua ópera-rock), mostrou uma enxurrada de imagens em preto e branco: um tigre dançando com seu domador, fábricas antigas, linhas de produção, letreiros de restaurantes, mendigos, um cachorro em cima de uma casa, ilhada pelas águas.

McCartney vibrou com "Desolation Row", a plateia parecia atônita com seu ídolo desafiador, que estava num dia especial (até dançar ele dançou!).

Baladas perfeitas com voz de lixa, como "Make You Feel My Love", traziam a velha disposição de Dylan de questionar os clichês, sem deixar de enfatizar os afetos.

As pessoas formavam fila, antes do show, para tirar foto na frente de um painel com a capa do disco "Highway 61". Quando ele tocou a canção, entretanto, raros a reconheceram (o ator Rob Lowe vibrou).

O lirismo seco de "Love Sick", de 1997, dava o tom. "Às vezes o silêncio pode ser como o trovão". O som de Dylan, pregando no deserto, mostrou sua atualidade no combate à indiferença e ao fascismo. Seu foco em uma era anterior à euforia com as máquinas, com o conforto utilitarista, a ênfase no significado: tudo isso realça sua figura de outsider nos dias atuais.

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