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O que o Desert Trip pode ensinar aos nossos festivais de música

Felipe Branco Cruz e Jotabê Medeiros

Do UOL, em Indio (California)

11/10/2016 07h00

"Se o Coachella é o cadillac dos festivais, o Desert Trip é a nave espacial", brincou um promotor de eventos do sul dos Estados Unidos. Não é exagero: a qualidade de som, o visual, as estruturas e a organização do chamado "festival do século" fazem todos os outros soarem como fusquinhas.

O que caracteriza o Desert Trip como festival de rock certamente é o toque de parque temático: as gigantescas áreas VIPs com guitarras como decoração e TVs LCD de 80 polegadas; barmans e cervejas artesanais jorrando de torneiras gigantes; displays colossais com fotos de discos lendários para as pessoas fazerem selfies na frente deles; roda gigante com fila. Tudo o que já vimos --e vemos-- no Brasil.

Mas também é a noção de conforto, levada ao paroxismo no "Oldchella" (havia até riquixás ciclísticos para ajudar os fãs a atravessaram mais de 1 quilômetro do estacionamento até a área de lazer e banheiro químico com ar-condicionado), que tornou esse festival no deserto incomparável.

Todas essas mordomias têm um sentido dentro do festival, já que o público alvo é bem mais velho. A contar pela imensa quantidade de assentos marcados e, por isso mesmo, a presença de idosos, alguns em cadeira de rodas, outros com bengalas, e a maioria de binóculos. A partir desta constatação fica fácil entender porque o festival contou apenas com um palco e dois shows por noite.

Definitivamente, com um lineup de Paul McCartney, Bob Dylan e Rolling Stones, a principal lição que fica é a de que a única coisa que importa é a boa música. Não vale a pena convidar grupos menores ou desconhecidos só para encher linguiça na programação. Ali, ninguém sentiu falta de vários palcos ou dezenas de bandas, nem precisou se desgastar caminhando de um palco ao outro --só para dizer que viu tal show.

Como a área do Empire Polo Club é muito grande, não houve atropelos para chegar nem para ir embora --um dos pontos fracos de qualquer evento jovem. Mas houve uma estratégia para isso: lasers direcionais de cores diferentes instalados em postes altíssimos indicavam aos fãs os estacionamentos certos, evitando confusões.

Um festival desses seria praticamente impensável em terras brasileiras. As agendas dos astros foram costuradas, segundo a organização, durante alguns anos, não por uma temporada. Esses seis gigantes do rock não saem do seu percurso ao mesmo tempo para uma viagem à América do Sul, por exemplo. É mais plausível reunir dois ou três, como já tem acontecido.

O que se deduz do sucesso deste festival, que vai faturar US$ 160 milhões, é que existe um público financeiramente estabilizado, emocionalmente maduro, com idade média em torno de 50 anos, que viveu as utopias sociais de décadas passadas e ainda sonha em ver grandes ídolos desse sonho em cena. Identificar quais são esses grupos e o que eles ainda conservam de essencial é fundamental --no Desert Trip, a excelência dos seis astros colocados em cena torna difícil até a tarefa da escolha do melhor show.

O festival foi vendido como único, impossível de ser realizado novamente. Há quem veja nesta afirmação um slogan comercial para vender ingressos, mas há uma verdade aí. De fato, existem poucos artistas no mundo que são capazes de atrair 75 mil pessoas por show.

A idade avançada das atrações só evidencia a urgência e aumenta a importância que festivais como esses têm. Com ingressos custando em média US$ 1.000 para os três dias e pagando US$ 11 (cerca de R$ 37) por uma cerveja, o Desert Trip pode ter conseguido a proeza de agradar todas as pessoas e fazerem com que elas saíssem de lá com a sensação de que se o ingresso custasse mais caro, mesmo assim, pagariam por eles.

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