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Oswaldo Montenegro: "Quanto menos medo do popular, mais o país tem cultura"

Tiago Dias

Do UOL, em São Paulo

24/11/2016 15h52

Oswaldo Montenegro chegou aos 60 anos com a certeza de ter deixado sua marca na música. “O sucesso começa no dia em que alguém não te suportou”, constata, entre uma baforada e outra de seu charuto.

É fato que que sua extensa obra nunca foi unanimidade entre críticos e músicos, mas o autor de canções como “Bandonlins” e “Lua e Flor” sempre contou com o respaldo especial do seu público.

Mesmo sem ser uma figura extremamente midiática, sua terceira investida no cinema, “O Perfume da Memória”, bancada do próprio bolso e lançada diretamente no YouTube, ganhou críticas positivas e já foi assistida 1,6 milhão de vezes na plataforma.

Na estrada, seu habitat há 40 anos, ele emenda turnês e continua a esgotar ingressos. O show para 2017, “Nossas Histórias”, resgatará a sonoridade do início de carreira e tem data confirmada até maio do ano que vem – algo cada vez mais raro em tempos de crise.

Ao mesmo tempo, ele estreia sua primeira série. “De Sonhos e Segredos” chega em janeiro no Canal Brasil, e acompanha os atores vivendo as agruras de seus personagens diante de uma psicóloga de verdade. O próprio artista passou por processo semelhante quando foi diagnosticado com retardo mental por uma bancada de médicos. “Eu sou superdotado e subdotado. Não tenho nada no meio”, observa, durante entrevista com o UOL.

O mito, apesar disso, fala mais forte quando ele abre as portas de seu apartamento no Leblon, zona sul do Rio: uma imensa obra abstrata, com tons psicodélicos. Mas loucura mesmo, para ele, é o "conceito artístico" se colocar acima dos talentos populares. “As pessoas se sentem com medo de gostar do popular e com medo de não gostar do que é ‘inteligentinho’ gostar. Elas precisam se libertar disso. Quanto mais livre disso, mais o país tem cultura”, defende.

UOL - Por que lançar seu novo filme gratuitamente no YouTube, fora das salas de cinema e sem incentivos públicos?

Oswaldo Montenegro - A internet se torna potente na medida em que você tem um público demarcado. Hoje em dia, se você coloca um anúncio em uma emissora aberta, o alcance é de muitas pessoas, mas quantas estão interessadas em você? A internet permite que você receba uma resposta, permite que seu álbum seja completamente pensado antes para um público que, teoricamente, já quer saber o que você tem a dizer.

E o que você tem a dizer neste filme sobre o relacionamento de duas mulheres?

O duelo entre um sentimento e uma maneira de pensar o mundo completamente diferente. O fato de serem duas mulheres, no filme, é irrelevante. O que importa é o quanto elas pensam o mundo de forma diferente e o quanto isso é uma coisa conciliável.

Ivo Gonzalez/UOL
Imagem: Ivo Gonzalez/UOL
 
Ivo Gonzalez/UOL
Imagem: Ivo Gonzalez/UOL
 
"O que acontece é uma certa impossibilidade minha de viver fora da arte. Eu tenderia à melancolia, com certeza" - Ivo Gonzalez/UOL
"O que acontece é uma certa impossibilidade minha de viver fora da arte. Eu tenderia à melancolia, com certeza"
Imagem: Ivo Gonzalez/UOL
Mesmo sem fazer parte do esquema natural de divulgação na TV aberta, seus shows, e tudo mais que você produz, nunca deixou de ter público.

Eu não tenho esse pensamento litigioso de rejeição à grande mídia. Apenas que se eu não caibo ali, acabo cabendo acolá. O que acontece é uma certa impossibilidade minha de viver fora da arte. Eu tenderia à melancolia, com certeza. Acho que, a princípio, esse imenso sucesso do que eu ponho na internet me colocaria como uma pessoa mais popular do que se pensa. Se fosse da TV aberta, eu me contrataria para fazer uma série lá. Sou menos hermético do que se imagina.

Você surgiu justamente em um momento em que a canção era protagonista, com festivais e especiais na TV. Como vê a música popular hoje?

Ela foi a protagonista do século 20 e ocupou a vida e o espaço das pessoas. Era a ponta de lança do mainstream. Não é mais. Ao mesmo tempo em que nunca se fez tanta música no mundo. Ela agora é trilha da internet, do desenho animado, da novela e até mesmo de uma personalidade gritante de alguém. Isso para mim é ótimo, porque eu sempre amei a música como trilha. Eu já estava esperando por isso aqui sentado. Só é difícil quando eu sinto que alguns jovens chegam ainda com esse passado recente na cabeça. Eles absorvem conceitos velhos muito recentes. O mundo está mudando rápido demais. Só que as pessoas mais velhas já perceberam isso.

Mas existem muitos contemporâneos seus que falam em perda de qualidade com as músicas que são sucesso hoje.

É uma pretensão fodida ter esse preconceito. Uma coisa que ficou chata na arte foi o fato do conceito e da habilidade de conceituar ter se tornado uma coisa à frente do talento artístico. O povo normalmente é mais livre disso do que o cara que, como dizia Millôr Fernandes, chegou na contracultura sem passar pela cultura. Esse cara é muito presa do conceito. Tudo que parece moderninho, maneirinho, ele adere porque ele se sente obrigado a gostar. Nós estamos no terceiro milênio. O modernismo faz um século. Ser moderno, tudo bem, tentar ser moderno é cafona.

'Beijinho no ombro para as invejosas' é um achado sociológico, todas as mulheres querem dizer isso. Isso é igual a “Parabéns a Você”, não pode ser analisado sob o mesmo critério que você analisa a 'A 9ª Sinfonia'

Os artistas populares do funk e do sertanejo estão livres desse conceito, por isso fazem sucesso?

Eu enxergo essas pessoas como artistas dignos de respeito. Eles não tiveram uma pretensão intelectual de achar que bastasse a sofisticação da sua arte para se ter valor e, portanto, usam milhões de coisas para melhorar sua arte. O que significa uma humildade difícil de ver. Nunca vi um artista popular do funk ou do sertanejo dizer: 'Ah, meu movimento é esse’. “Beijinho no ombro para as invejosas” [trecho da música “Beijinho no Ombro” de Valesca Popozuda] é um achado sociológico, todas as mulheres querem dizer isso. Isso é igual a “Parabéns a Você”, não pode ser analisado sob o mesmo critério que você analisa a “A 9ª Sinfonia” [de Beethoven]. É um outro tipo de coisas, como “Poeira, levantou poeira”, como “Ai, ai, Se Eu te Pego”. É outro tipo de valor, muito difícil de se achar.

Acha que isso pode estar afastando a dita grande canção do popular?

Isso pode iludir também os artistas, e o próprio público que se sente obrigado a gostar do que o segundo caderno diz para ele gostar. As pessoas se sentem com medo de gostar do popular e com medo de não gostar do que é ‘inteligentinho’. Elas precisam se libertar disso. Quanto mais livre disso, mais o país tem cultura.

Em determinado momento da sua carreira, você chegou a mudar de identidade para afastar o tédio, mudou o visual e passou a morar no Espírito Santo como um anônimo. Parece uma coisa meio Belchior, não?

Foi bem diferente. Fiquei um tanto de tempo nômade em 1981. Me tornei Sergio Antunes. Cortei a barba e o cabelo. As pessoas imaginam isso como uma coisa louca, mas foi extremamente saudável. O que você faria se você não tivesse que dar satisfação a exatamente ninguém? Será que você seria outra pessoa? Se suicidaria? Tomaria todas drogas do mundo? Eu tive essa experiência e não aconteceu nada comigo. Fiquei igualzinho a mim. Tive a comprovação clara de que eu gostaria de ser esse sujeito mesmo. Preciso dessa sensação do novo e se a vida não me dá, a arte dá sem que você necessariamente rompa com o aparelho da lógica. Acho que essa é a grande utilidade da arte, permitir a fantasia sem que o meio social sofra alguma consequência com isso. Você não pode realmente se suicidar com sua namorada, senão você vai ter prejuízos incríveis, mas Romeu e Julieta podem viver isso todo dia no teatro. E o melhor: depois de jantar fora (risos).

Você contou uma vez que foi diagnosticado como retardado mental por oito psicólogos...

Eu sou superdotado e subdotado. Eu não tenho nada no meio.

Mas essa história, junto com seu apartamento de cores psicodélicas, reforça o mito, como se vissem você como uma espécie de guru...

Eu sou o anti-guru. Eu acredito piamente que não há nada pior no mundo do que alguém que tem certeza. Não sou uma pessoa especialmente mística, como as pessoas imaginam, sou apaixonado pela ciência. A ciência tem a dignidade de dizer ‘não sei’ quando não sabe. O terreno místico, de 20 anos para cá, tendeu para um tipo de autoajuda que parece dar uma fórmula que não existe, e é uma maldade você dizer que existe. “Doze caminhos para você ser o cara mais feliz do mundo”. “Pense certo e fique rico”. Isso é tudo mentira. Eu só sou um poeta solitário que está falando coisas. Se alguém realmente entende alguma coisa que eu falei, é: ‘Não me siga’. E não siga ninguém. Acho que todas as coisas da humanidade que deram errado vieram de alguém que tem certeza. E eu não perdoo gurus na medida em que os caras aceitam ser guru. Dá para o cara dizer: ‘Acredite em mim, eu sou um merda’. Somos todos uns merdas, e também somos todos bacanas. A única fé que eu tenho real na vida é que todo mundo tem alguma coisa especial e ninguém tem nada de muito especial.

E o que você tem de especial?

O afeto. Sou extremamente ligado aos meus amigos, minha família, ao meu filho. Eu nunca pude ter vaidade, porque eu sou comprovadamente uma besta quadrada em todos os testes, nem a insegurança, porque eu sou um superdotado. Então ter uma habilidade não quer dizer nada em uma pessoa. Um toca violão, outro joga vôlei, faz salto a distância, isso tudo é uma bobagem. A única coisa que preenche essa merda de solidão é o afeto. Na verdade, bicho, a vida é trágica. Você nasce sem vontade nenhuma, vive sem entender nada e morre sem estar afim. A única coisa que você pode fazer no meio do caminho é se divertir um pouco.

Você está prestes a iniciar um novo show, “Nossas Histórias”, em que quer resgatar sua fase inicial.

Estou em uma fase de imitar a mim mesmo. Porque você pensa: ‘pô, o que que eu tinha de legal que eu perdi no caminho?'

Você acha que perdeu algo?

A gente sempre perde alguma coisa, talvez pela vontade inconsciente de agradar alguém. Todo artista que agradou a todo mundo não tem sucesso nenhum. O sucesso começa no dia em que alguém não te suportou. Se você é um artista popular, você tem que botar sua marca. E se você botou mesmo, alguém não vai gostar. Tenho grandes amigos que não gostam da minha música e tem quem ama minha música e que eu acho uma besta quadrada.

Aos 60 anos, você imprimiu então sua marca?

Tem muita gente que gosta de mim, e muita gente me odeia. Estão está ótimo. Está muito legal. 

Entre um charuto e um copo de Coca-Cola, o autor de canções memoráveis, como "Bandonlins", "A Lista" e "Lua e Flor", acredita que imprimiu sua marca: "O sucesso começa no dia em que alguém não te suportou" - Ivo Gonzalez/UOL
Entre um charuto e um copo de Coca-Cola, o autor de canções memoráveis, como "Bandonlins", "A Lista" e "Lua e Flor", acredita que imprimiu sua marca: "O sucesso começa no dia em que alguém não te suportou"
Imagem: Ivo Gonzalez/UOL

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