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"We Are the World" do pagode? Artistas se reúnem após 20 anos por boa causa

Renata Nogueira

Do UOL, em São Paulo

27/11/2016 07h00

Era 1997 quando Leandro Lehart passava com o seu carrão importado pela rua da Consolação, região nobre de São Paulo, e pareou no semáforo com uma Kombi da Ação Solidária. Ele buzinou e perguntou para a mulher que conduzia o carro o que era o instituto. Sem tempo de responder, ela conseguiu jogar um folder pela janela do pagodeiro, na época no auge com o grupo Art Popular. Após duas horas e uma ligação de telefone, nascia o Samba Cura, projeto que reuniu vários artistas do pagode semanas depois do ocorrido e resultou na construção de um hospital que desde dezembro de 2002 trata crianças que enfrentam a batalha contra o câncer.

Passados quase 20 anos, o pagodeiro conseguiu reunir boa parte do time de 36 artistas que se juntaram a ele na época e outros nomes de peso da velha guarda do samba e da nova geração para repetir a gravação da música e do clipe de "Noite Fria". A renda gerada será destinada à criação de novos leitos para o Instituto de Tratamento do Câncer Infantil, que sediou o reencontro na última quarta-feira (23).

Reprodução
Pagodeiros reunidos em 1997 para a gravação do clipe original de "Noite Fria" Imagem: Reprodução

A iniciativa de regravar a faixa "Noite Fria", que acabou entrando no álbum do Art Popular "Samba Pop Brasil", lançado no mesmo ano (1997), partiu dos próprios convidados. Embaixador do projeto Samba Cura, Leandro Lehart conta que até pensou em fazer uma música nova para o aniversário de duas décadas da iniciativa, mas que a nova geração insistiu em cantar o clássico.

Da nova geração envolvida na ação, nomes como Thiaguinho, que tinha apenas 12 anos na época da primeira gravação. "É uma honra, tanta gente importante. Lembro de crescer ouvindo 'Noite Fria', de ver o clipe com vários ícones da música que eu sou fã, que é o samba. É até difícil cair a ficha de onde eu estou hoje", confessou.

Dilsinho, apresentado como a nova promessa do pagode, também estava presente. "Eu me sinto um privilegiado. Fiquei muito feliz de ser lembrado entre nomes que fizeram história nesses anos todos. Estou chegando agora e poder cantar com esses caras é a realização de um sonho", contou o cantor carioca de 24 anos que já acumula 14 milhões de visualizações no YouTube no clipe da música "Trovão".

Marcos Ribas/Brazil News
Thiaguinho posa com Rodriguinho, ex-Travessos, e Belo durante o evento Samba Cura Imagem: Marcos Ribas/Brazil News

A comparação com "We Are The World", projeto de 1985 encabeçado por Michael Jackson que reuniu grandes nomes da música para combater a fome na África, é inavitável e aceitável, tomadas as devidas proporções. Só na tarde de quarta-feira Leandro Lehart conseguiu reunir grandes nomes do samba como Jorge Aragão, Arlindo Cruz, Leci Brandão, Demônios da Garoa e integrantes do Fundo de Quintal e Originais do Samba. Nenhum artista recebeu cachê pela participação.

O veterano Reinaldo, conhecido como "Príncipe do Pagode", deixou o hospital em que tratava seu câncer um dia antes apenas para participar do evento. "O samba também cura adulto", declarou o músico de 62 anos, que foi homenageado.

Representando o pagode romântico que atingiu o auge nos anos 90, nomes como Luiz Carlos, do Raça Negra, Salgadinho, ex-Katinguelê, Belo, Rodriguinho, ex-Travessos, e Netinho de Paula, do Negritude Júnior.

Consciente do time de peso que reuniu, Leandro Lehart não se incomoda com a comparação com o projeto do rei do pop. "Para mim é uma honra porque eu sou fã do Michael. O 'We Are The World' foi inspiração para vários movimentos musicais e o samba tem uma peculiaridade que ele consegue ser testemunha das desgraças do povo brasileiro porque ele é uma música que vem dos guetos."

"Noite Fria" será relançada em duas versões para abranger todos os nomes das dezenas de artistas envolvidos. O clipe ganha nova versão no início de 2017.

Enquanto o clipe novo não sai, veja o antes e depois dos cantores que estavam na versão original de 1997 e voltaram para a regravação:

Reprodução e Mario Rodrigues
Imagem: Reprodução e Mario Rodrigues

Belo

Belo estava na gravação de 1997 e chega a aparecer no clipe, mas não cantou a versão original de "Noite Fria". Na época ele ainda não tinha o cabelo descolorido e estava apenas no começo da carreira com o grupo Soweto. Vinte anos depois, ele conta que não chegou a cantar. "Vinte anos se passaram e nós continuamos assim. O Leandro é inovador, um cara que sempre defendeu a bandeira do samba e do pagode e isso é muito importante para o movimento."

Reprodução e Marcos Ribas/Brazil News
Imagem: Reprodução e Marcos Ribas/Brazil News

Netinho de Paula

No auge com o Negritude Júnior, Netinho de Paula foi uma das principais vozes de "Noite Fria" em 1997. Ele aceitou o convite de Leandro Lehart para a nova versão e também gravou trechos da música agora, no final de 2016. "É uma sensação de missão cumprida. Permanecer nesse ramo depois de 20 anos e ter sua voz como referência, as pessoas reconhecem, é porque marcou. Vivemos outro momento do samba hoje, mas a missão ainda é a mesma." 

Reprodução e Thiago Duran/AgNews
Imagem: Reprodução e Thiago Duran/AgNews

Rodriguinho

O tímido Rodriguinho de 1997, que cantava no grupo Muleke Travesso (pré-Travessos), também voltou. "A chama continua acessa. É muito bom ver a cumplicidade, aqui tem 80% dos artistas que participaram naquela época". Ele continua na ativa e lançou 4 álbuns só neste ano. O primeiro foi "Controle do Jogo", ainda com Os Travessos. Logo após deixar a banda, ele gravou um disco com a família. Depois veio o CD solo "Xinga Aí" e um álbum gospel que estava na gaveta.

Reprodução e Mario Rodrigues
Imagem: Reprodução e Mario Rodrigues

Marcelinho

Marcelinho, do Sem Compromisso, também se envolveu com o Samba Cura desde o início. Com os cabelos loiros, ele é um dos destaques no clipe de 1997 e voltou à convite de Leandro Lehart para regravar a música em 2016. O pagodeiro foi o único a discordar da associação do projeto com a música "We Are The World". Nas palavras de Marcelinho "o Samba Cura é o Samba Cura. 'We Are The World' é outra coisa".

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