Música

Biografia de Clementina de Jesus resgata a cultura dos escravos no samba

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Imagem: Divulgação

Rodolfo Vicentini

Do UOL, em São Paulo

14/02/2017 04h00

“Clementina é a voz dos milhões de negros desfeitos no fazimento do Brasil. Poderosa voz anunciadora do brasileiro que, amanhã, se assumirá como povo mulato, mais africano que lusitano”, resumiu o antropólogo Darcy Ribeiro sobre o papel da sambista que tem sua história contada na biografia inédita “Quelé, A Voz da Cor – Biografia de Clementina de Jesus”, escrita pelos jornalistas Felipe Castro, Janaína Marquesine, Luana Costa e Raquel Munhoz.

Neta de escravos, Quelé, como era chamada, resgatou o conhecimento de seus antepassados e expôs a cultura africana para a grande mídia, em um período que o Brasil ainda se encantava com a Bossa Nova e a Jovem Guarda.

O encontro derradeiro da cantora com o poeta e produtor musical Hermínio Bello de Carvalho, “descobridor” de Clementina, transformou a vida da empregada doméstica de 63 anos, que cantava em bares próximos de onde morava e era apaixonada pelo carnaval.

O produtor usou toda a sua influência e levou Clementina ao estrelato. A peça “O Menestrel” surgiu com a ideia de unir o popular e o erudito, terreno no qual Hermínio se sentia confortável. A sambista venceu o medo e cantou para centenas de pessoas, que se apaixonaram de imediato por aquela senhora de branco com largo sorriso.

Quelé tinha uma relação de muita amizade com Hermínio, e o ensinou inúmeros partidos, jongos, curimãs, caxambus, lundus e incelenças. Passados três anos do encontro da dupla, a sambista estava pronta para o álbum de estreia.

Foram cinco álbuns lançados, além de participações em outros trabalhos. Resgatando os tradicionais cantos de seus antepassados, Clementina foi uma peça fundamental para a popularização do samba.

“Quelé, A Voz da Cor” reúne depoimentos de inúmeros personagens que participaram da história musical e pessoal de Clementina. A quantidade de nomes que aparece na obra chega a assustar e pode confundir em alguns momentos, mas a leitura flui e logo nos sentimos imersos no Rio de Janeiro do século XX.

Assim como João do Rio, que flanava pelas ruas da cidade maravilhosa, a biografia caracteriza os encontros dos bambas do samba. Carola, Donga, Pixinguinha, Noel Rosa e Tia Ciata são alguns que dão as caras.

O canto dos escravos

Em oposição ao capítulo que abre o livro, a segunda parte da biografia traz o último álbum da Clementina de Jesus, “O Canto dos Escravos”, de 1982. Nessa época, a idosa cantora se locomovia com dificuldade e passava por problemas pessoais e financeiros. Por conta da idade, a sambista não conseguia mais fazer shows grandes, e vivia com a aposentadoria de empregada doméstica.

O projeto foi inspirado no livro “O Negro e o Garimpo em Minas Gerais”, de Aires da Mata Machado Filho, que relatava a rotina, a cultura e as condições dos escravos no povoado de São João da Chapada, em Diamantina.

Os idealizadores Aluízio Falcão e Vinícius de Andrade pensaram logo em Clementina para entoar as cantigas dos escravizados. Geraldo Filme e Tia Doca completaram o trio.

Entre os depoimentos recolhidos pelos autores, o produtor de “O Canto dos Escravos”, Marcus Vinícius de Andrade, resume o talento de Clementina ao lembrar de histórias que aconteceram há décadas. “Os africanos têm um ditado assim: toda vez que morre um velho negro, é uma biblioteca que vai embora”.

As raízes de Quelé

Dona Amélia, mãe da cantora, foi uma das responsáveis por apresentar à filha algumas cantigas. A transmissão oral foi uma característica que Clementina levou para a vida, uma griô, segundo a cultura africana.

“Quelé, A Voz da Cor” mostra a infância de Clementina em uma narração que, muitas vezes, não segue uma ordem cronológica. A importância dos familiares e das relações durante a vida da cantora é lembrada aos poucos, como resgates da memória. Em um desses regates está o encontro dela com o Albino Pé Grande, o grande amor de Clementina, que esteve sempre ao lado da sambista nos momentos mais difíceis.

Fotos, gravuras, caricaturas e recortes de jornais complementam o extenso trabalho de pesquisa. A homenagem dos quatro jornalistas é um projeto minucioso da obra de um dos maiores nomes do samba, muitas vezes esquecido. Clementina conciliou o trabalho como empregada doméstica e a "voz do samba" por mais de 50 anos antes de virar uma estrela. Citando um trecho do livro, "Clementina de Jesus foi a cantora que melhor sintetizou o resgate da cultura negra na música brasileira".

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