Música

"Fui revolucionária porque contestava meu pai no palco", diz Wanderléa

André Rodrigues/UOL
Wanderléa durante os ensaios do musical "60! - Década de Arromba", no Theatro Net Rio Imagem: André Rodrigues/UOL

Tiago Dias

Do UOL, em São Paulo

20/03/2017 04h00

Aos 70 anos, Wanderléa encara o passado. Cinco vezes por semana, a eterna Ternurinha revive as glórias da Jovem Guarda no musical “60! Década de Arromba”, em cartaz no Theatro Net Rio até 26 de março, e com São Paulo na rota para abril. Mas fora dos holofotes, ela tem passado a limpo as barras que enfrentou nos bastidores dos 50 anos de carreira.

O espetáculo remonta eventos importantes da década e tem na figura da musa do iê-iê-iê a grande cereja de um bolo nostálgico. Com a silhueta esguia, longas madeixas e sete figurinos diferentes, Wanderléa canta sucessos como “Ternura” e “Pare o Casamento”, e não raro leva os espectadores às lágrimas.

Ao mesmo tempo, a cantora mineira derrama algumas ao exorcizar o que chama de karmas – entre elas, a morte do filho Leonardo, aos 2 anos de idade, em uma piscina em 1984 – em sua autobiografia, a ser lançada ainda este ano pela editora Record.



Entre glórias e tragédias, ela percebeu que fora também revolucionária: “Contestava meu pai no palco. Eu demonstrava uma liberdade de se vestir, de cantar, de dançar”, observa, em entrevista por telefone ao UOL.

Na época, criava a própria coreografia e quebrava paradigmas não apenas com Seu Salim, o pai mineiro, descendente de árabe, bastante rígido. Com a minissaia -- “quatro dedos abaixo da pélvis”, ela observa – promoveu uma verdadeira revolução de comportamento no Brasil, embora revele que também sofresse com machismo na coxia do movimento. “São roqueiros e tal, mas vieram de uma geração com vários conceitos de machismo. Vem de criação. Hoje tem uma diferença”.

Com disco recém-lançado, "Vida de Artista", com repertório de Sueli Costa, Wanderléa evita ser refém da nostalgia, mas revela sentir falta da mocidade. "A gente era mais inconsequente, mais leve."

UOL - Você fez muitas coisas diferentes na carreira, mas nunca se negou a revisitar a Jovem Guarda. O que essa nova visita ao passado te mostrou?

Essa amorosidade bonita que eu pensei que fosse uma coisa efêmera da minha vida, que fosse passar, mas está muito viva nos corações das pessoas. Isso me deixa muito sensibilizada.

Naquela época, a Ternurinha era um modelo para as meninas na época. Embora você mesmo fosse bastante jovem.

Eu vivia como todos os jovens no Brasil, com aquela pressão de comportamento. Os vestidos eram abaixo dos joelhos. [Existia] todo um ‘bênção mãe, bênção pai’. O jovem não tinha uma identidade própria, uma maneira de vestir, uma gíria própria, músicas próprias. Nós trouxemos, de uma forma muito intensa, essa jovialidade para o país. Era uma briga séria dentro de casa para usar saia curta. Os rapazes usavam só azul marinho, camisa branca, e de repente veio aquela garotada toda cabeluda, blusas de babados, e eu com a minha minissaia.

A informação que vinha do exterior era muito demorada. Não existia internet. A gente sempre estava buscando coisas, querendo inovar, querendo ter a palavra, e brigando dentro de casa para contestar. Isso tudo eu levava para o palco. Fui revolucionária porque contestava meu pai no palco. Eu demonstrava uma liberdade de se vestir, de cantar, de dançar. Hoje, cada um conta uma história, briga que tinha com o pai, o outro que foi expulso. Foi difícil para eles [o público] nos acompanhar.

Divulgação
Com sua minissaia, Wanderléa comprou briga com o pai e mudou o comportamento das mulheres nos anos 1960 Imagem: Divulgação

Hoje em dia a discussão em torno do empoderamento feminino está em alta, e muitas das referências vieram inclusive dos 1960...

Vieram dos anos 1960 e eu sou referência feminina disso tudo. Hoje eu percebo realmente. Na época, eu só me divertia, achava engraçado porque de repente São Paulo inteiro estava usando as mesmas roupas. Muita gente enriqueceu com tudo isso. Fui uma das primeiras bonecas Estrela e para mim era uma homenagem, ninguém imaginava que estavam ganhando rios de dinheiro. Éramos inocentes e não tínhamos referencial. Fomos os primeiros a movimentar esse gênero de mercado. Cada um era livre para inventar aquilo que queria inventar e como a filha de seu Salim aqui era criativa... (risos)

Como era ser a maior voz feminina da Jovem Guarda? Sofria com o machismo?

Ah, isso aí até dentro de casa. Hoje isso não mudou muito, embora as mulheres estejam mais antenadas, à frente do homem. Ficamos muito tempo atrás da porta ouvindo as conversas. Os meninos iam brincar na rua e a gente tinha que ficar com a boneca e ajudando a mãe dentro de casa.

E a questão salarial na época?

Nunca procurei saber o quanto que Roberto e Erasmo ganhavam. Por ética, a gente não pergunta. Mas lógico que era menos que eles (risos). A mulher tem que bater o pé na sua profissão. Tem que mostrar que é importante dentro do contexto. Eu, como imprescindível dentro do meu espaço, procuro me colocar. Mas a mulher sente muito isso. Eu respeito muito meu gênero.

Como era com Roberto e Erasmo?

Eles brincavam: “Ô Wandeca, menos, menos. Não está curto demais?”. Embora eles possam tudo, não é? Era da mesma forma nas coxias da Jovem Guarda. Falavam da saia quatro dedos acima do joelho, mas eu colocava a minha quatro dedos abaixo da pélvis.

Erasmo conta na autobiografia “Minha Fama de Mau” que fazia comentários machistas, dizia que espiavam você e as outras cantoras pelo buraquinho da porta.

Eu não gosto de grosseria até hoje. Não sou uma pessoa que reivindica nada de moral, mas um pouco de delicadeza... Não é que tem que abrir a porta, mas na medida do possível é bom ser elegante com seus parceiros. Hoje eles não contam piadas fortes na minha frente. “Opa, Wandeca está aí’. São roqueiros e tal, mas vieram de uma geração com vários conceitos de machismo. Vem de criação. Hoje tem uma diferença.

Você também está prestes a lançar sua biografia. Como tem sido esse processo?

É a vida em todos os aspectos. Tive a ascensão popular muito jovem, mas tive uma dificuldade muito grande na vida pessoal. Vivi coisas difíceis e tive que estar, mesmo assim, em cima do palco. O que me estimulou a escrever foi contar os bastidores das minhas emoções [Nos anos 1970, seu marido, Nanato Barbosa, filho do apresentador Chacrinha, ficou paraplégico. Em 1994, perdeu o irmão Bill, estilista e confidente, vítima da AIDS]. Para mim era como se estivesse exorcizando aquilo. Quando eu entreguei o livro, a [editora] Record sentiu falta das glórias. Estava meio pesado. Trouxeram o [jornalista] Renato Vieira. Fiquei surpresa de ele saber tanta coisa sobre mim. Ele foi enxertando informações, para me lembrar das coisas boas. Não fugi das barras, mas também não deixei os palcos por elas, não. Só algumas vezes que eu fiz uns hiatos, quando na morte do meu filho Leonardo [aos 2 anos, em 1984]. Eu acho que trabalhei isso de uma forma saudável.

Encarando as barras e as glórias, do que você sente mais saudade?

Sinto saudade dos meus 20 anos (risos). A gente era mais inconsequente, mais leve. Se bem que eu sempre quis envelhecer assim, de maneira leve.

Serviço:

60! DÉCADA DE ARROMBA - DOC MUSICAL

Rio de Janeiro:
Theatro Net Rio: Rua Siqueira Campos, 143 – Copacabana
Até 26 de março
Quintas e Sextas, 21h - Plateia e Frisas: R$160,00 | Balcão I: R$120,00 | Balcão II: R$50,00
Sábados, 17h30 e 21h30 e Domingos, 18h - Plateia e Frisas: R$180,00 | Balcão I: R$140,00 | Balcão II: R$50,00 (inteira)
Classificação: 12 Anos
Ingresso: ingressorapido.com.br

São Paulo:
Theatro Net São Paulo: Rua Olimpíadas, 360 - Vila Olímpia
A partir de 13 de abril
Ingresso: ingressorapido.com.br

 

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