Música

Floyd, Sabbath, Bowie: Como as lendas do rock foram apresentadas no Brasil

Leonardo Rodrigues

Do UOL, em São Paulo

18/04/2017 04h00

Era o início dos anos 1970 e, enquanto a música fervilhava pelo mundo, o Brasil vivia um dos períodos mais negros e repressivos da ditadura militar. Foi nesse tempo de chumbo que uma claque desbaratada se juntou no Rio e começou a viver um sonho que parecia impossível: pôr de pé a primeira grande publicação brasileira de cultura pop internacional, a revista "Rolling Stone".

Muito antes de voltar ao país em 2006, a icônica publicação americana, porta-voz do chamado jornalismo literário, foi editada por aqui durante pouco mais de um ano, entre 1971 e 1973. Foram 37 edições que deixaram um delicioso legado de artigos, entrevistas, resenhas e reportagens, agora disponíveis em versão digital, cortesia do colecionador Cristiano Grimaldi.

Fazer no Brasil a primeira sucursal oficial da "Rolling Stone" no mundo, ideia vista por muitos como esdrúxula, nasceu na cabeça de Mick Killingbeck, um jovem físico inglês que se mudara para o Rio e, junto de dois amigos americanos e um francês, passou a tocar o projeto. "Eles precisavam de um brasileiro que editasse a publicação. Nenhum deles era jornalista. Eles pesquisaram o mercado, e a escolha recaiu em mim, que já fazia a coluna 'Underground' do 'Pasquim'. Acumulei os dois trabalhos", recorda ao UOL o jornalista e filósofo Luiz Carlos Maciel, conhecido como guru da contracultura.

Sob a batuta de Maciel, a equipe ocupava o segundo andar de um sobrado cor-de-rosa de 1914 no bairro de Botafogo, zona sul carioca. Ali, com vista privilegiada para o Corcovado, dez cabeludos se debruçavam sobre a cena brasileira e sobre novidades como Pink Floyd, Black Sabbath, Led Zeppelin, Alice Cooper, Santana e David Bowie. Num tempo de informação escassa, quando discos podiam demorar anos para ganhar versão nacional, a "Rolling Stone" serviu de porta de entrada para muita gente no Brasil.

A equipe da revista, responsável por textos analíticos e mordazes, muitos em primeira pessoa, contava com formadores do jornalismo cultural brasileiro. Entre eles, Ezequiel Neves (o "Zeca Jagger"), Okky de Souza e o compositor --e na época também jornalista-- Jorge Mautner. A seção de cartas era responsabilidade de Ana Maria Bahiana, em seu primeiro emprego de carteira assinada.

"Numa era sem internet, onde orelhão era o grande avanço tecnológico e o Brasil era um lugar que parecia distante de tudo, vivendo num clima muito cinza, muito triste, a 'Rolling Stone' era a flor no concreto, como nosso artista residente e diagramador, o gênio Lapi, gostava de desenhar", lembra Ana Maria.

"Sou suspeito, mas acho que a 'RS' modernizou e atualizou o jornalismo brasileiro. Não tanto na forma, essa façanha foi do 'Pasquim', mas no conteúdo. Nossa imprensa, em geral, e isso até hoje, é surda e cega aos avanços feitos pelo jornalismo internacional. Temos um certo orgulho de nossa própria ignorância", acredita Maciel.

No fim de 1972, após 34 edições, a primeira "Rolling Stone" brasileira começou a ruir ao entrar em grave crise financeira. A tiragem de cerca de 10.000 exemplares passou a ser insuficiente para cobrir o custo dos royalties pagos ao criador da marca, Jann Wenner. Ela teve apenas mais três edições, todas trazendo a inscrição "Pirata" no alto da capa.

Veja abaixo como cinco nomes clássicos do rock foram apresentados ao Brasil pela "Rolling Stone", mãe das nossas revistas musicais.

Black Sabbath "vulgar"

Reprodução
Imagem: Reprodução

"Eles são vulgares --afirma a patota quente da intelectualidade nova-iorquina. Quando os vi em Fillmore, achei-os horríveis. Eles nunca irão longe, pensei. O cantor do conjunto tem até um traseiro gordo, pelo amor de Deus. Bem, eu estava enganado: A garotada aplaudiu-os de pé (...) Black Sabbath não é, de forma alguma, o que você gostaria de ouvir como música de fundo enquanto faz outra coisa qualquer. O som deles é quase que fisicamente ameaçador. Sua audiência se compõe, na opinião da turma bem-informada, 'da garotada que está deixando o cabelo crescer este ano'." (Edição 0)

Santana chove no molhado?

Reprodução
Imagem: Reprodução

"Santana fez sucesso nos EUA, utilizando uma variedade de ritmos latino-americanos típicos --e nós, brasileiros, somos indiscutivelmente ligados nessa. Para alguns, a percussão de Santana poderia, inclusive, parecer um pouco de chuva no molhado, numa cidade cheia de escolas de samba e batuques. O que prevaleceu [no show de Santana no VI Festival Internacional da Canção] foi o encontro. O amor comum à percussão, dos músicos de Santana e dos ritmistas brasileiros, foi inclusive uma das transas mais bem-sucedidas de toda sua estadia no Brasil." (Luiz Carlos Maciel, edição 0)

Alice Cooper desconcerta

Jim Marshall
Imagem: Jim Marshall

Apesar de haver surgido no Arizona, um grupo louco como o Alice Cooper só podia se fixar em Detroit --cidade barra pesada que produz grupos teatralmente devastadores como o MC5 e The Stooges. Alice também só poderia ter sido apadrinhado por um músico anárquico como Frank Zappa, líder do Mothers of Invention. Não perguntem também sobre a qualidade da música de Alice Cooper e seu grupo. Ela também só pode ser classificada como 'desconcertante'" (Ezequiel Neves, edição 1)

Pink Floyd: intelectuais

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Imagem: Reprodução

"A música do Pink Floyd --que integra o blues, o rock e a música erudita-- explora os mais avançados recursos eletrônicos para atingir o clima de ficção científica, sendo considerada a mais intelectual do universo pop. O grupo foi o primeiro a se preocupar com recursos de 'light-show' em seus concertos e tanto em discos como na exibição ao vivo usa uma grande orquestra e um coral de vinte vozes. Recentemente, o quarteto compôs uma longa peça baseada no "Em Busca do Tempo Perdido", de Proust, para um balé dirigido por Roland Petit e dançado por Nureyev." (Ezquiel Neves, edição 1)

Iggy Pop, um doidão competente

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"Jim Osterberg, mais conhecido como Iggy Stooge, ou Pop. Iggy, vocalista dos Stooges, o mais louco de todos os cantores loucos, atualmente de mudança para a Inglaterra, onde pretende morar. Iggy começou como baterista, e seu nome é diminutivo de Iguana, como era chamado pelo pessoal de rock de Michigan. O sobrenome Pop é uma adaptação de Popp, nome de um amigo de quem gosta muito. Nenhum dos três outros Stooges era bom músico, até que Iggy resolveu dirigi-los." (John Kepler, edição 10)

David Bowie "aparecido"

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"David é muito pessimista sobre sua carreira, e apesar de querer fazer muito mais sucessos, não espera mais do que já conseguiu. Como já devem ter percebido, ele faz qualquer coisa para que as pessoas o notem. David não é apenas um artista de rock. Ele se veste excentricamente para causar sensação e porque também é divertido. Faz isso há anos. Alice Cooper assustou muita gente porque seu espetáculo é estranho e ameaçador. É violento. David é diferente, tem mais encanto, tem muito para oferecer em termos de música." (Mick Ted, edição 17)

Led Zeppelin ou "santo de casa não faz milagre"

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"É estranha a pouca atenção que os ingleses dão ao Led Zeppelin --por alguma razão, a imprensa inglesa esvazia qualquer manifestação de interesse que eles possam provocar. Ninguém diz que talvez eles sejam um dos melhores conjuntos do mundo. Por quê? Esse é um triste engano. Mas nos Estados Unidos isso não acontece, talvez porque sejam um grupo aberto e desinibido, que adora tocar. E lá não há inibições, eles encontram a audiência perfeita." (Ben Cal, edição 17)

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