Música

33 anos de banda, 20 de treta: como a separação ainda assombra o Sepultura

Divulgação/Montagem
Sepultura de um lado, irmãos Cavalera de outro: briga deixou marcas na história da banda Imagem: Divulgação/Montagem

Leonardo Rodrigues

Do UOL, em São Paulo

31/05/2017 04h00

Foi há mais de 20 anos, mas parece ter sido ontem. A briga entre Max Cavalera e o Sepultura, que rachou a banda brasileira mais bem-sucedida no exterior, já é uma das maiores e mais duradouras “tretas” do rock. O mais recente capítulo dessa história de amargura é o documentário "Sepultura Endurance", que será lançado no próximo dia 14 sem a participação (nem autorização) de Max e Igor.


Donos de 50% da obra o Sepultura, os irmãos não só se negaram a se envolver no projeto como proibiram judicialmente a execução de faixas na íntegra. Assim, músicas importantes na história do grupo, como "From the Past Comes the Storms”,"Inner Self" e "Territory", são mostradas em poucos segundos e só no show de 30 anos do Sepultura, que conduz tematicamente o documentário.

Imagens dos Cavalera? Praticamente nenhuma. Apenas rápidas aparições em gravações caseiras e no trecho do último show da formação clássica --mas sem fundo musical. O veto dos fundadores do Sepultura obrigou o diretor Otavio Juliano a optar por uma narrativa não linear, na qual destaca depoimentos e, principalmente, a fase atual da banda, com o vocalista Derrick Green e o baterista Eloy Casagrande.

“Nossa situação aqui é de respeito. Se eles não quiseram participar, beleza. Mas não fez falta nenhuma. O filme fica até mais interessante sem as músicas inteiras. Quem não conhece, pode ir atrás delas”, diz ao UOL o guitarrista Andreas Kisser, que fez a ponte para a produção do filme contatar os ex-integrantes. “A gente já esperava a negativa por parte deles. É normal."

“Eu mandava e-mail para o Max, e a gente sempre combinava de conversar quando ele estivesse no Brasil, mas nunca acontecia. Depois, o Igor simplesmente falou para a gente que, no momento que ele estava atravessando, não era interessante participar do documentário”, afirma o diretor Otavio Juliano. “Fico chateado, porque a rusga é uma coisa que vai além do filme.”

Procurados pelo UOL para comentar sobre o documentário, Max e Igor Cavalera não haviam respondido ao pedido de entrevista até a publicação deste texto.

Entenda abaixo como o Sepultura rompeu um racha que parece durar para sempre.

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Sepultura durante a turnê do álbum "Roots", em 1996 Imagem: Divulgação

A saída de Max

O ano era 1996. O Sepultura chegava ao topo do mundo após apresentar "Roots", um dos melhores, mais importantes e mais bem vendidos discos do metal moderno. Apesar (ou por causa) do sucesso, a turnê mundial de divulgação foi marcada pelas rusgas. O grupo acusava a empresária e mulher de Max, Gloria Cavalera, a afastar o vocalista dos demais integrantes. Era o fim do clima de camaradagem entre os músicos. No auge de sua popularidade, o vocalista tinha um ônibus só para ele na turnê e, segundo Andreas Kisser, já estaria pensando em outros projetos, com total apoio de Gloria e da gravadora. O clima pesou tanto que a banda decidiu demitir a manager. Max foi embora junto. Na época, ele falou em ciúmes dos colegas e insinuou que o verdadeiro “câncer” do Sepultura respondia por Patrícia Kisser e Monika Bass Cavalera, parceiras de Andreas e Igor.

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Imagem: Divulgação

O novo metal do Soufly

Mesmo deixando a "marca" Sepultura com os ex-colegas, Max Cavalera não saiu perdendo com a separação. Muito pelo contrário. Ele ficou com boa parte da estrutura da banda, incluindo a empresária e a gravadora Roadrunner. O ás na manga era o Soufly, novo grupo que havia formado nos Estados Unidos com o prestígio e o DNA sonoro do Sepultura. O álbum de estreia foi lançado em 1998, com participações de gente como Fred Durst e Chino Moreno, expoentes do novo metal que o Sepultura ajudou a criar. Pesado, tribal e moderno, “Soufly” foi eleito um dos discos do ano pela imprensa especializada, que ouviu nele a continuidade sonora de “Roots”. Com mais ou menos repercussão, o Soufly segue até hoje lançando bons trabalhos, mas sem igualar o êxito do disco de 1996.

Divulgação
Imagem: Divulgação

Sepultura contra todos

Em meio às incertezas, o Sepultura precisou juntar os cacos após a separação. As dúvidas variavam entre dar um novo nome à banda ou simplesmente parar de tocar. Em 1997, os integrantes voltaram a ensaiar aos poucos e a compor como trio, mas logo perceberam que era preciso contratar um novo vocalista. O escolhido para tentar reascender a chama do grupo foi o americano Derrick Green, dono de voz potente, presença de palco marcante e, claro, inglês impecável. Mas a gravadora Roadrunner chiou. “Sempre senti certo preconceito no início. Com certeza, eles queriam uma pessoa igual, que fosse branco, que tocasse guitarra e usasse dread”, diz ao UOL Derrick Green. Sob desconfiança, o Sepultura seguiu com Monika Cavalera como empresária e, em outubro de 1998, lançou o aguardado “Against” (Contra, em português). Foram necessários alguns anos e discos para a banda “dobrar” crítica e fãs, que, no entanto, jamais abandonaram o quarteto.

Nigel Crane/Getty Images
Imagem: Nigel Crane/Getty Images

Igor “vira a casaca”

Igor Cavalera jogou a bomba em junho de 2006: com 22 anos de serviços prestados, estava deixando o Sepultura. A justificativa: passar mais tempo com a família. Segundo Andreas Kisser, era nítido, inclusive pela performance dele na turnê, que o baterista não tinha mais o Sepultura na cabeça. Igor, por sua vez, reclamou da falta de respeito dos colegas, que teriam escolhido o substituto Jean Dolabella e agendado shows ainda antes de sua saída oficial. "A saída do Igor foi mais tranquila, até por ele ser o baterista, não o vocalista. Não teve briga nem nada”, afirma Kisser. A saída foi a senha que Igor precisava para se reaproximar de Max, após passar uma década praticamente sem conversar com o irmão. O laço familiar falou tão alto que a dupla resolveu montar uma nova banda, o elogiado Cavalera Conspiracy, espécie de volta às origens do Sepultura que já conta com três álbuns de estúdio.

Marcos Hermes/Divulgação/Montagem
Imagem: Marcos Hermes/Divulgação/Montagem

Fazer as pazes? Que pazes?

Com o Conspiracyy em alta, em 2008, muitos especulavam (e ainda especulam) sobre uma eventual reunião. Se Black Sabbath, Iron Maiden e Van Halen conseguiram relevar o passado, por que não o Sepultura? As entrevistas concedidas por Max e Andreas na época já sinalizavam, ao menos, um “acordo de cavalheiros” e o clima de paz. O ressentimento parecia ter ficado para trás. Parecia. A verdade é que Kisser, hoje líder do Sepultura, jamais perdoou a atitude de Max a ir contra a banda e "abandonar o barco” O lançamento da biografia “My Bloody Roots” (2013), em que Max faz comentários nada elogiosos a Patrícia e Monika, também não ajudou. Hoje em dia, é mais fácil um rico entrar no reino dos céus do que o Sepultura voltar com sua formação clássica. Mas ainda há quem sonhe. “A gente cede músicas para trilhas sonoras juntos, lança caixa de vinil juntos. Enfim, a gente vai ter que lidar com eles [Igor e Max] para sempre. Poderia ser mais fácil? Poderia. Mas tentamos respeitar e lidar com a situação da melhor maneira possível”, encerra Andreas.

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