Música

Da periferia de SP, rapper não-binário rima sobre descoberta e preconceito

Divulgação
Imagem: Divulgação

Tiago Dias

Do UOL, em São Paulo

03/08/2017 04h00

Historicamente porta-voz da parcela invisível da sociedade, a batida do rap fez com que Triz encontrasse o melhor caminho para falar sobre sua vida.

Há dois anos, Triz passou a se identificar como uma pessoa de gênero neutro, não binário (ou seja, não se reconhece nem como homem, nem como mulher). A descoberta abriu as portas do mundo para um adolescente que tratava a depressão dentro do quarto de sua casa na Pedreira, região periférica da zona sul de São Paulo.

Começou a compor e a levar a sério os seis anos de aulas de violão e canto, mas também viu de perto a intolerância nas ruas e as notícias diárias de violência contra a população LGBTs.

“Eu sempre fui uma pessoa muito ingênua. Sempre tive ali meu mundinho. Ler e ver aquilo me gerou uma revolta muito grande”, Triz conta hoje, em seus 18 anos. “Cada dia que passava eu via histórias de gente fugindo nas ruas simplesmente por ser quem são.”

A paixão por Bob Marley, Elis Regina e Cartola não era o bastante. Triz precisava de outro meio para passar uma mensagem mais direta. “Achei o rap.”

De carona no ônibus

Entre rimas secas e refrão melodioso, Triz canta: “O preconceito não te leva a nada / Não seja mais um babaca de mente fechada / Por que o ódio mata, só o amor sara / De qual lado cê vai ficar?”.

O resultado, “Elevação Mental”, chegou na semana passada com clipe bem produzido, dirigido por Cesar Gananian, que viralizou pelas redes sociais.

Em menos de uma semana, a imagem de Triz, com roupas largas, longos dreadlocks e a voz grave circulou cerca de 1 milhão de vezes no YouTube e no Facebook. Mesmo sem se reconhecer como rapper, teve apoio de blogueiros e youtubers do rap, e passou a ter reconhecimento nas ruas.

“Eu vim da periferia de São Paulo, nunca tive nada. Até três meses atrás, eu e os moleques pediam carona no ônibus pela madrugada”, relembra. “Eu não conseguia me imaginar num cartório, numa sala fechada. Ou então vendendo roupas de surf, que é o que restaria para mim vestindo dessa maneira e com o cabelo que eu tenho. Faz três meses que eu estou trabalhando com a minha arte. Eu estou realmente feliz.”

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De um quarto na periferia de São Paulo às redes sociais Imagem: Divulgação

Nem 'a', nem 'o'

Com certo olhar de soslaio, Triz guarda resquícios de uma infância introspectiva, quando sentia desconforto com a identidade feminina.

Com apenas 18 anos, é parte de uma geração que encontrou referências em histórias verdadeiras de pessoas trans que viram nas redes sociais uma forma de compartilhar vivências e driblar a solidão do processo.

Esse “boom” tem um motivo: “É que a gente já não aguenta mais. Precisamos falar”, diz, sem deixar de esconder a admiração por Liniker, cantora trans que surgiu na época em que Triz se encontrava. Naquele momento, começou também a gravar vídeos sobre experiências e músicas.

“Elevação Mental” surgiu em uma dessas gravações e foi parar no computador da cantora Tiê, que logo chamou Triz para seu selo, o Rosa Flamingo.

“Eu estudei durante dois anos sobre gênero para conseguir entender. Não me encaixo na feminilidade, nem na masculinidade desses padrões impostos, meu cérebro não se adequa a esses comportamentos. Me reinvidico enquanto uma pessoa de gênero neutro, mas confesso que o feminino me gera bastante incomodo. O ‘o’ pra mim é menos pior que o ‘a’. Mas o ‘e’ é uma possibilidade bem legal”, explica.

Durante a conversa, Triz exemplifica ao falar sobre a possibilidade (agora real) de viver de música: “Fiquei muito emocionade.”

Um disco está nos planos, mas sem correria. O que não muda, na chegada à vida adulta, Triz deixa claro logo no início da música: “Caneta e papel na mão para mim é melhor que remédio”.

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