Música

Rapper mais popular, Projota assume virada à la Rocky Balboa no seu rap

Divulgação
Projota ensina a meter louco no clipe da faixa-título de seu novo álbum Imagem: Divulgação

Tiago Dias

Do UOL, em São Paulo

04/08/2017 13h18

Ele é o rapper com maior alcance no Brasil. Suas músicas foram tema das Olimpíadas e de novelas, e costumam ter espaço cativo no dial da rádio, bem no meio dos sertanejos. Seu lema "Foco, Força e Fé", nome do primeiro disco em uma grande gravadora, foi difundido aos quatro ventos e ele chegou a reunir 100 mil pessoas em um show de graça no Rio.

Para quem em 2014 almejava ser tão grande quanto Ivete Sangalo, pode-se dizer que Projota realmente chegou lá – mas o que veio em seguida foi uma ressaca das brabas.

No topo, perdeu a vontade de cantar e se afastou da família e amigos. “O momento que eu tinha que fazer show eu ia a reboque”, conta o rapper, em entrevista ao UOL.

É sobre essa época que fala “Segura seu BO”, música que integra o novíssimo disco, “A Milenar Arte de Meter o Louco”: "Foi quando eu me vi obeso, trancado no quarto/ Sozinho, depressivo/ Transando com quinze minas por semana pra ver se assim me sentia mais vivo".

Sentia também que a fama poderia ter tirado o que ele tinha de mais valioso: o toque virulento nas rimas, que o fez, ao lado de Emicida e Rashid, dar um novo gás no rap em 2011.

“Você trazer aquele perspectiva do passado para olhar daqui de cima agora é difícil”, conta, em um bar na badalada rua Oscar Freire, em São Paulo, onde recebeu a imprensa para o lançamento do disco. Ao seu estilo geek, de quem acompanha semanalmente "Game of Thrones" e se desestressa emendando séries no Netflix, ele compara: "Eu recuperei o ‘Eye of the Tiger’, essa coisa Rocky Balboa".

Sem deixar as românticas de lado – como “Linda” e “Oh Meu Deus”, seus mais recentes singles, que juntos chegaram a 40 milhões de visualizações – a meta agora é mais simples. “Meu trabalho sempre foi visceral, eu escrevo chorando no celular. Eu queria isso de novo nesse disco”.

UOL - Em “Segura seu BO” você fala sobre o tempo em que se sentiu depressivo após a fama. Como foi isso?

Projota - Foi uma questão que eu passei em 2015, tive várias neuroses. Tem muito a ver com o fato de passar quase 30 anos buscando uma coisa e você alcança, mas e agora? Eu vou pra onde? O que eu vou buscar? Do que eu sou capaz ainda? Lidar com as críticas, com a família inteira pra você ajudar e fortalecer de alguma maneira, pessoas te procurando, gente nova vindo e te decepcionando. Chega num ponto que você diz: “Caraca mano, essa porra desse mundo está na merda mesmo”. Você se vê sem vontade de muitas coisas, inclusive de cantar. Ficava a semana inteira dentro de casa. O momento que eu tinha que fazer show eu ia a reboque.

Foi exatamente ali, quando começamos a traçar o processo do DVD [“3Fs Ao Vivo”, de 2016] que  surgiram “Menino da Vila”, “Portão do céu”. Comecei a me movimentar mais. Mas até então eu já estava até pensando se rap era mesmo o que eu tenho que fazer. Bagunçou tudo.

Antes disso, em 2014, você disse que queria ser tão grande quanto a Ivete. Acha que chegou lá?
Eu acho que eu cheguei no objetivo que eu tracei ali. O que essa frase realmente significa é estar em todos os cantos. É todo mundo conhecer, se familiarizar com esse som. Hoje a gente está no 9° single. É muito difícil fazer três músicas por ano nas rádios e veiculando bem. Era essa a ideia. É tipo, se eu me encontrar com a Ivete aqui ela me reconhece.

Qual foi o segredo?

É muito instintivo, tá ligado? Não tem uma fórmula. Deu certo na minha forma. Na minha casa, no meu forno, eu sei fazer. São os planetas se alinhando e aí deu o maior eclipse. Minha vida é um milagre. Você fica esperando o mar abrir, mano, cê é louco? Na minha vida, o mar abre todo dia.

Qual é sua meta agora?

Eu fiz esse disco sem pretensão, sem esse lance de ‘ah, com esse disco eu quero abrir essa porta’. Fiz um disco que eu me apaixonasse, muito mais do que eu me apaixonei no primeiro. Eu enxergo vários defeitos naquele disco e quis consertar agora. Está mais homogêneo, consegue realmente representar o Projota como um todo. Meu trabalho sempre foi visceral, coisa que no “Foco, Força e Fé” não aparece tanto. Essa coisa de chorar. Eu escrevo chorando no celular. Eu queria isso nesse disco, mas junto com as românticas. Se você pegar ao longo das minhas mixtapes, você vai encontrar tudo isso. O amor, a raiva e a curtição.

E é a mesma essência? O público do rap sempre foi muito crítico quando um rapper vai para o mainstream...

Mas isso diminuiu muito. Para quem viveu o furacão, agora estou na praia. Agora está uma delícia. Isso é normal para quem gravou “Cobertor” com a Anitta, para quem passou daquela fase e sobreviveu. Aí, o que não mata, engorda.

Manuela Scarpa/Photo Rio News
Parceria com Anitta em 2014 gerou críticas no meio do rap Imagem: Manuela Scarpa/Photo Rio News
Mas tem uma diferença entre fazer “freestyle no busão” e agora, como você canta em “Moleque da Vila”, “fazer no fundo do avião”?

Isso talvez seja uma coisa que me frustrou ali em 2015. Quando essa mudança aconteceu, eu ainda não conseguia me adaptar. As letras não estavam saindo da forma como eu achava maneiro. Aí veio “Portão do Céu”, uma música muito pesada, política, mesmo estando em outra situação. Eu consegui provar que eu ainda conseguia ter raiva. Eu estava manso, deu uma domesticada no meu leão, mas consegui soltar ele de novo. Eu recuperei o ‘Eye of the Tiger’, essa coisa Rocky Balboa. É a vontade de sair dando porrada e isso fez meu rap chegar onde chegou. As músicas românticas têm minha tranquilidade, minha paz, mas aquela raiva em algum momento ali eu tinha perdido. Acho que esse governo filha da puta também ajuda.

Em “Antes do Meu Fim”, você cita a violência da polícia e a chacina em um bar em Osasco em 2015, algo que não estava no primeiro disco.

Eu tinha uma perspectiva e a minha vida mudou totalmente. Você trazer aquele olhar do passado para olhar daqui de cima agora é difícil. Eu tenho conseguido de outra maneira, mas sempre vai ser diferente. Eu era mais infantil também, falava de política de forma superficial. Em “Portão do Céu” eu consegui atingir uma forma mais madura. Minha vontade é falar com o indivíduo, falar pro moleque, são mensagens que dão uma injeção de ânimo.

Você citou o governo. Muita gente cobra que é a hora dos artistas fazerem músicas sobre o momento de instabilidade política. O que você acha disso?

Eu acho que essa galera não ouve as músicas. Vocês estão falando disso cantando “barabara berebere”. É fácil você reclamar da política bebendo no Villa Mix. É jogar a sujeira para debaixo do tapete, é jogar a responsabilidade em outra pessoa e não fazer por si.

Eu acho que estamos vivendo um momento de total desamparo. Eu não sei para onde vou correr. É difícil você não ter alguém para colocar no lugar. A maioria esmagadora se sente assim. Tem o vermelho, tem o azul, e tem eu. Nós estamos verdes de raiva, estamos preto de luto, vermelho do sangue derramado por aí.

Não sabe em quem votar em 2018?

Não sei. “Pô você está em cima do muro?” Pô, estou. Se eu cair de um lado ou de outro eu morro, um tem leão, outro é a cobra.

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