Música

Emicida diz que saiu de escola após racismo: "Saía no soco todo dia"

Colaboração para o UOL

22/08/2017 08h16

Emicida relembrou o preconceito que encarou na infância em entrevista a João Gordo, na noite de segunda-feira (21). O rapper contou no "Eletrogordo", do Canal Brasil, como era tratado na segunda série, quando foi matriculado em uma escola particular, e a maneira que tinha de se defender dos xingamentos que ouvia dos colegas.

"Gostava de estudar, mas odiava a escola. Minha mãe trampava de doméstica, começou a trampar nuns bairros de dinheiro e arrumou uma escola para mim lá perto. Eu chegava, era o único pretinho da sala, os caras: 'macaco', 'cabelo de bombril'... Tinha que sair no soco todo dia. Na terceira série, mudei de escola porque estava dando uns problemas", disse.

Ele descarta a ideia de que teria virado bandido caso a música não tivesse aberto portas. "Se não fosse o rap eu estaria sonhando em virar office boy até os 90 anos. Acho que não tenderia para o crime, eu era um moleque nerd, gostava de ler. O primeiro livro que me vi dentro foi 'Capitães de Areia', tinha uma visão das favelas de Salvador", conta, citando a obra de Jorge Amado.

Emicida discorda que os negros devam pensar da mesma forma. "As pessoas pretas são plurais, podem ter a opinião que bem entender. Não fico buscando mais a homogeneidade, tipo 'nós somos pretos, temos que pensar igual'. Todo mundo pensa diferente. Agora quando você coloca que 'racismo é uma reclamação sem fundamento' vejo muito mais como burrice que como discordância ideológica. Tem que ser canalha, mal intencionado ou burro".

O rapper diz em qual momento viu que a vida não era fácil. "Nasci num barraco de 2x2 com 5 pessoas, esse era o padrão de 300 mil pessoas ao meu redor. Só fui entender isso no Ensino Médio, quando meu parceiro que morava no Tremembé (bairro nobre de São Paulo) foi pra faculdade e o que morava do meu lado foi pro caixão".

Ele se considera satisfeito com o caminho que trilhou. "Acredito numa forma de fazer música e consigo fazer sem ninguém impor para onde eu tenho que ir. Sei que isso não é o padrão da indústria".

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