Música

Como uma banda do Pará deu há 35 anos início ao heavy metal no Brasil

Arquivo Pessoal
Banda Stress faz show de lançamento do álbum de estreia para 20 mil pessoas no estádio da "Curuzú" em Belém Imagem: Arquivo Pessoal

Rodolfo Vicentini

Do UOL, em São Paulo

30/08/2017 04h00

O primeiro disco de metal de uma banda nacional foi lançado há 35 anos por quatro jovens que moravam em Belém, no Pará. O Stress foi formado em 1977 por adolescentes que estudavam juntos e gostavam do "triunvirato do rock": Deep Purple, Led Zeppelin e Black Sabbath. "Na época, nem existia o termo heavy metal. Chamávamos de rock pesado e rock pauleira. A gente falava que nossa banda era o 'som mais pesado do mundo', essas coisas de adolescente mesmo", lembra, aos risos, o baterista André Chamon ao UOL.

O álbum homônimo do grupo foi gravado em apenas 16 horas, em uma viagem para lá de desastrada que aconteceu no começo de agosto de 1982. "Em Belém não tinha estúdio. Por isso a gente veio para o Rio de Janeiro e foi uma decepção", lembra o músico. O tal estúdio em que gravaram o disco era gerenciado por um padre e ninguém que trabalhava lá tinha experiência com gravação mais pesada. "Na hora de gravar a guitarra, o cara disse que não precisava colocar distorção, que depois ele colocaria. A gente sabe que hoje em dia isso é possível, mas imagina naquela época?".

O guitarrista Pedro Valente conseguiu um pedal pequeno emprestado, mas isso foi apenas um parte da viagem que começou com três dias de ônibus. "A bateria estava desmontada e com as peças no chão, aí a gente teve que amarrar tudo com fita para ela ficar em pé. Era um negócio muito tosco". O Stress ficou instalado em uma pensão pequena no bairro do Catete e ainda estranharam o clima do Rio de Janeiro. "A gente chegou em agosto no RJ, era época de inverno. No Pará não faz frio. Porra, tivemos uns momentos terríveis, de ficar puxando o cobertor um do outro à noite. Foi uma verdade aventura", ri André.

Do rock ao metal

A faixa de abertura do álbum, "Sodoma e Gomorra", é uma junção de guitarras estridentes e o vocal rasgado de Roosevelt "Bala" Cavalcante (que ganhou seu espaço na banda após invocar o Robert Plant durante a sala de aula). A bateria acelerada à lá Phil Taylor, do Motorhead, e cheia de reviravoltas como Bill Ward marcou seu nome no Black Sabbath incrementou o som agressivo, que ainda tinha o teclado de Leonardo Renda, um Jon Lord mais furioso. 

"As coisas foram evoluindo. Quando o Pedro [guitarrista] entrou na banda, ele mostrou muita coisa nova e a gente conheceu o Judas Priest, que acabou influenciando muito, desde o vocal do Bala até a bateria. Porque o Judas era a maior banda na época. E a gente queria fazer algo mais pesado ainda. O primeiro disco do Stress, se você for comparar até no âmbito internacional, é uma banda bem pesada".

Arquivo Pessoal
Banda Stress faz show para 20 mil pessoas no Pará durante lançamento do álbum de estreia Imagem: Arquivo Pessoal

André está certo. O som do Stress era diferente do que o público estava acostumando no início da década de 1980 e, depois do lançamento do disco, a banda virou uma referência para a cena que começava a surgir no Brasil. Anteriormente, algumas bandas já tinham engatinhado na trilha do que seria chamado de metal nos anos seguintes, como o hard rock com toque do blues pesado do Made in Brazil. Mas a banda surgiu na década de 70, quando o termo "heavy metal" ainda era emprego para caracterizar um som mais agressivo do que a média, não a essência que ficou popularizada e como o termo é lembrado atualmente. Um show marcado em Belém para 20 mil pessoas foi o pontapé da caminhada do sucesso do sexteto, que ano no seguinte teria uma enorme surpresa ao voltar para o Rio de Janeiro.

"Eu tinha um amigo nosso que conhecia a [Maria] Juçá, do Circo Voador. Vim para o Rio de Janeiro e mostrei o disco e eles gostaram muito. E colocaram a gente para tocar lá. O engraçado é que usei as 500 cópias do disco para fazer divulgação. E um dos lugares que mandei foi para a Rádio Fluminense. A gente não sabia que 'Oráculo do Judas' tinha entrado na programação normal, por isso estava lotado o Circo Voador", conta André.

André ainda se recorda que na mesma época as bandas do "Rock Brasil" estavam começando a ganhar espaço e que até tentaram colocar o Stress na cena, mas "era mais pesado e, enquanto as bandas todas juntas ficavam num clima legal, na hora de comercializar a coisa era mais difícil".

Metal e ditadura

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Letra do Stress vetado pela censura do regime militar Imagem: Arquivo Pessoal

Não era só uma parte do público que estranhava o som pesado do Stress. A censura durante a ditadura militar (1964-1985) também não era amiga da banda, e constantemente barrava algumas músicas. "Na época, a gente tinha que pedir autorização da censura para lançar qualquer coisa. Depois que era vetada, eu encontrava uma forma de mudar a letra para a música passar", afirma André, o principal compositor do grupo.

"O exemplo mais pitoresco foi da música 'O Lixo' [a única faixa em que André gravou a voz]. O original era 'Lixo Humano'. A censura vetou e o argumento era que denegria a imagem do ser humano".

Então pensei em tirar uma sílaba. Ficou "Lixo, Mano". Enviei de novo para a censura e passou", lembra, aos risos. "O título ficou 'O Lixo'. Porra, o pessoal não se tocou que cantando ia ficar a mesma coisa".

Preconceito com o metal e novo álbum

O heavy metal tem uma legião de ouvintes no Brasil, mas está muito distante de virar um gênero popular. André acredita que ainda exista preconceito com o metal, mas vê o gênero como um caso muito diferente dos demais estilos. "Diferente de outros estilos, que o pessoal nem vai para assistir ao show, vai mais para tentar arranjar uma garota ou vai com a namorada, com a galera. E o heavy metal não, ele é unido realmente pelo som, a paixão do headbanger, do fã do heavy metal".

Após 40 anos de banda, o Stress continua na estrada, agora em formação trio: André, Bala e o guitarrista Paulo Gui. Em dezembro deste ano, o Stress lança o quarto álbum da carreira e, graças à tecnologia, não precisa passar por mais perrengues. "Eu gravo no RJ meu material e envio para os dois. Eles alugam um estúdio no Pará e fazem a parte deles. Às vezes ficamos quase um ano sem tocar e chegando lá sai tudo certinho", diz o baterista.

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