Música

Tetê Espíndola: Meu ouvido só escuta passarinho, não posso ouvir coisa ruim

Felipe Branco Cruz

Do UOL, em São Paulo

08/09/2017 04h00

Tetê Espíndola está em um estúdio fotográfico na cobertura de um prédio no Centro de São Paulo e dali é possível observar uma preocupante névoa de poluição pairando no horizonte. No momento, a umidade relativa do ar é de 20%, mais seca que o deserto do Saara.

Enquanto conversava com o UOL, sua voz sofreu uma imperceptível variação de tom. A dona de um dos agudos mais famosos da música brasileira sentiu na garganta o alerta do tempo seco e não o ignorou. Imediatamente, ela se levantou, tomou dois copos de água e enrolou um lenço no pescoço.

Divulgação
Capa do álbum "Outro Lugar" Imagem: Divulgação
“Várias pessoas já me falaram para fazer um seguro da minha voz. Não posso descuidar. Será que eu tenho que pensar nisso?”, diz. “Minha voz é muito ligada com a minha vida e com meu emocional. Se estou preocupada com algo, ela fica abafada”.

Aos 63 anos, Tetê Espíndola lançou “Outro Lugar”, seu 18º álbum de inéditas, e neste sábado (9) e domingo fará os shows de lançamento no teatro do Sesc Pompeia, em São Paulo. No repertório estarão as novas faixas e, claro, seu maior sucesso, “Escrito nas Estrelas”, de 1985.

Com mais de 30 anos de carreira, a preocupação de Tetê com a voz não é diferente do que qualquer outro cantor teria, porém ela vai além. Sua potência vocal continua a mesma de quando tinha 20 e poucos anos e ela quer manter assim por muito mais tempo.

“Muitos artistas cantam suas músicas de maneira diferente com o passar dos anos. Eu não. Gosto de cantar ‘Escrito nas Estrelas’ exatamente como ela foi gravada”, afirmou. “Na plateia, eu me divirto vendo os fãs se esforçando para reproduzir os agudos. A mesma coisa acontece nos karaokês”.

Natureza e passarinhos

Lucas Lima/UOL
A cantora Tetê Espíndola Imagem: Lucas Lima/UOL
A preocupação de Tetê com a poluição e o tempo de seco de São Paulo denunciam também outro interesse da cantora: o meio ambiente. Suas inspirações para compor sempre estiveram ligadas à natureza, principalmente com o canto dos pássaros. “Há mais de 50 anos, lá em Campo Grande (MS), aprendi a cantar meus agudos com os passarinhos”, afirma. “Foi uma coisa mágica”.

O afiado ouvido de Tetê a ajudou a decorar vários cantos. “Ouço muito os passarinhos e isso fica na minha cabeça. Quando vou compor, os embriões melódicos baixam desses cantos naturalmente. O mais difícil de fazer é o do Uirapuru, que parece uma flauta”.

A paixão a seguiu por toda a carreira, tanto que em 1991 viajou com o marido, Arnaldo Black, para a Amazônia, só para gravar o canto de pássaros raros. “Quero voltar a fazer novas expedições na Amazônia, só que desta vez para explorar a acústica da natureza, das árvores, de tudo”.

A cantora lamenta que muitos desses pássaros corram risco de extinção. “A ararinha azul tá quase, né? Ela tem um canto maravilhoso. É muito delicada. Gosto das araras”.

Mágica

Embora inéditas, as faixas do novo álbum não foram escritas recentemente. No encarte, a cantora relembra as datas em que elas foram escritas (entre 1974 e 2015) e conta um pouco da história delas.

Outra particularidade deste álbum foi o uso de instrumentos não convencionais, como harpa paraguaia, cítara, ukulele a craviola. “A craviola foi inventada por um brasileiro, o Paulinho Nogueira. Fiz dela o meu instrumento”, afirma.

Mas tanto as letras, quanto os instrumentos, não se comparam com a parceria de longa data que Tetê Espíndola mantém com Marta Catunda. “É quase mágico. É etéreo. Quando me junto com a Marta, nossos anjos se encontram e ficam conversando. A gente enlouquece e fica em uns papos absurdos. Nossas letras foram feitas assim”.

No novo álbum, essa parceria ficou evidente nas faixas “Aconchego”, “Onda do Tempo”, “Pé de Vento” e “Bodoque”, feitas após encontros assistindo a vídeos antigos dos anos 80, pelo Skype ou em viagens pelo interior do Mato Grosso ao som das cigarras.

Das novas cantoras pop, surgidas há dez anos, Tetê diz não conhecer quase ninguém. Não conhece Anitta, Marília Mendonça, Maiara & Maraísa, Simone & Simaria e Naiara Azevedo.

"Conheço a Maria Gadu. Ela tem um timbre muito especial. Eu também gosto muito da Mariana Aydar. As duas ainda estão no paralelo do negócio musical. Elas não estão no top da mídia popular, daquelas cantoras que fazem aquelas musiquinhas. Sabe, meu ouvido não aguenta... Meu ouvido só escuta passarinho, não posso ouvir coisa ruim". 

Lucas Lima/UOL
Com a craviola, Tetê Espíndola posa para fotos no alto de um prédio em São Paulo Imagem: Lucas Lima/UOL

SERVIÇO

Tetê Espíndola: Show de lançamento do disco “Outro Lugar”
9 e 10 de setembro de 2017
Sábado às 21h e domingo às 18h
Teatro do Sesc Pompeia (Rua Clélia, 93. Pompeia. São Paulo).
Tel.: (11) 3871-7700
R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia). R$ 9 (para sócios).

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