Rock in Rio

"'Que País é Este' é o nosso 'Caminhando e Cantando'", diz Dinho Ouro Preto

Felipe Branco Cruz

Do UOL, em São Paulo

02/10/2017 10h47

O coro de "fora, Temer" foi onipresente no Rock in Rio 2017. Quase todos os artistas brasileiros que se apresentaram no festival dedicaram parte do show para criticar a crise política que o país está enfrentando. Mas o discurso mais duro e incisivo veio do Capital Inicial, que dedicou a música “Que País é Este” nominalmente ao presidente Michel Temer.

O posicionamento político da banda nos palcos do Rock in Rio é antigo. Em 2011, Dinho Ouro Preto criticou José Sarney. Em 2013, ele cantou “Saquear Brasília” usando um nariz de palhaço.

"É quase um dever cívico tocar [a música], tem que dedicar essa canção para uma longa lista de pessoas. Políticos de esquerda, de centro, de direita. Do Aécio à Dilma, Eduardo Cunha, Sérgio Cabral, Collor, uma longa lista de políticos que sequestraram a democracia brasileira, falou? E que conspiraram contra a esperança de todos nós, cidadãos brasileiros", disse Dinho Ouro Preto antes de entoar os versos de protesto de Renato Russo, escritos em 1978. "Essa aqui é para o Michel Temer", dedicou o cantor.

Afinal, é papel dos artistas se posicionar politicamente? Por que neste ano o Rock in Rio teve tantas manifestações como esta? Conversamos com Dinho Ouro Preto sobre o tema.

UOL: O que aconteceu com o Brasil?

Dinho Ouro Preto: Estamos vivendo um descrédito do sistema político. Estão conspirando contra a democracia brasileira. Eu queria verbalizar a minha frustração com a nossa representação. Acredito que todos estão se sentindo frustrados também. Os políticos podem estar minando a nossa jovem democracia brasileira. Quando não acreditamos mais em partidos políticos, abrimos caminho para o populismo. Isso é muito tóxico. Já estamos ouvindo um certo barulho nos quartéis que não acontecia há 40 anos. A candidatura de Bolsonaros da vida é uma dessas manifestações, consequências desse descrédito. Os desvios bilionários são um insulto ao Brasil. O pior disso tudo é semear a dúvida na nossa democracia.

Não salva ninguém?

Se eu fosse procurar um termo, eu chamaria essas pessoas de conspiradoras. Eu queria ter feito um discurso mais longo no Rock in Rio, mas tentei fazer algo mais incisivo. Sou filho de cientista político e cresci em um ambiente politizado. Sempre procurei me engajar mais politicamente. Fiz campanha para a Marina Silva, conheci o Eduardo Campos, mas anulei meu voto nas duas últimas eleições. Esse ceticismo que eu senti, as pessoas também sentem e é extremamente perigoso. O sistema político partidário ainda é fundamental. O passo seguinte seria dizer: OK. Esses mesmos partidos precisam apresentar novas alternativas e ideais porque essa geração inteira se meteu numa lambança e precisa de renovação.

Você acredita na política?

Eu quero acreditar. Eu acredito na democracia representativa. Eu acredito na política partidária. Mas não acredito nesses atores. Eu ainda não assisti ao show que fizemos. Foi quase um palanque, mas não foi um discurso profundo.

O Brasil mudou muito desde 2001, quando vocês fizeram um show histórico no Rock in Rio para quase 200 mil pessoas?

Naquela época, o Brasil estava passando por um momento de esperança, embora houvesse muita frustração no governo FHC. Mas o Brasil estava estabilizado. Havia uma perspectiva de renovação, de alternância do poder vista com bons olhos. Talvez o Rock in Rio seja, nesses diferentes períodos, um espelho do Brasil. Os artistas nacionais espelham isso e sintetizam o zeitgeist do momento. Vivíamos um momento de otimismo e estabilidade. Agora vivemos um momento de frustração e instabilidade. É o oposto. É incrível como em um espaço de 16 anos o Brasil entrou na sua maior recessão combinada com sua maior crise política de todas as tendências, de esquerda e de direita.

Quase todos os brasileiros que tocaram no Rock in Rio neste ano se manifestaram politicamente. Por quê?

Pisar naquele palco indiferente [a esse comportamento] é que seria surpreendente. É impossível não dizer nada. Você tem o microfone, sabe que os jornais, rádios, TVs de todo o Brasil estão olhando para você. Não acho que seja uma obrigação do artista se posicionar politicamente. Tem sujeito altamente politizado que a obra dele é irrelevante politicamente. Acho, no entanto, que o fato de tantos artistas terem verbalizados suas frustrações explica o momento em que o Brasil está passando.

Por que dedicar “Que País é Este?” para o presidente Michel Temer?

“Que País é Este” é o nosso “Caminhando e Cantando”. Vale para todas as épocas. É um manifesto de indignação. No Rock in Rio de 2013 nós tocamos “Saquear Brasília”. Pensamos em tocar “Cristo Redentor” também e dedicar ao Eduardo Cunha e ao Sérgio Cabral. Mas achei que devíamos ir direto na veia com “Que País é Este”.

Você acha que os gritos de “fora, Temer” vão levar a algum lugar?

Não sei. No Congresso, eu acho que vão abafar mais uma vez essa segunda denúncia contra o Temer. Acho que, infelizmente, ele vai ficar se equilibrando nessa corda até a próxima eleição. A situação ideal era ele ter dignidade para renunciar e que ele fosse substituído seguindo o rito constitucional. Eu sinto que as pessoas querem que 2018 passe rápido para que possamos escolher logo um sucessor, mas não acho que os brasileiros querem ser cúmplices desse modo. O próximo presidente deve ter uma legitimidade grande para apaziguar os ânimos. O potencial brasileiro é evidente. O mundo está crescendo e nós estamos patinando porque a política está nos atrapalhando. Os políticos estão nos atrapalhando.

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