Música

U2 de 30 anos atrás faz melhor show para hoje e pede: "Censura nunca mais"

Tiago Dias

Do UOL, em São Paulo

19/10/2017 23h54

Pode parecer manjado, mas quando as primeiras notas de "Sunday, Bloody, Sunday" ressoaram no Estádio do Morumbi, em São Paulo, nesta quinta-feira (19), foi inevitável não cantar a famosa canção política do U2 como uma espécie de profecia cumprida.

A canção de 1983 se tornou um hino político na década em que o horror da guerra e a ameaça nuclear e aos direitos civis indignavam até mesmo os rockstars. Seu primeiro verso "I Can't Believe the News Today" [eu não posso acreditar nas notícias hoje], falava sobre a truculenta ação das tropas britânicas na Irlanda do Norte, mas poderia se referir às manchetes atuais do governo de Donald Trump, a crise migratória na Europa ou, como o baterista Larry Mullen Jr. fez questão de lembrar, o avanço do conservadorismo nas artes no Brasil.

O músico mandou uma mensagem bem direta em português nas costas de sua camiseta: "Censura Nunca Mais", em clara referência ao movimento que tem reunido artistas em prol da liberdade nas artes. O cardápio de notícias pessimistas é tão amplo quanto há 30 anos e Bono sabe disso: "Nada mudou", disse ainda no início do show.

Tiago Dias/UOL
Larry Mullen Jr. fez questão de mandar uma mensagem bem direta em português nas costas de sua camiseta: "Censura Nunca Mais" Imagem: Tiago Dias/UOL

Junto com "New Year's Day", "Bad" e "Pride", a canção abriu o primeiro dos quatro shows que a banda faz na capital paulista -- todos com ingressos esgotados -- como uma semente para "The Josuha Tree", o fruto mais importante da discografia dos irlandeses, revisitado na íntegra nesta turnê comemorativa.

Lançado há exatamente 30 anos, o álbum é resultado de um mergulho na alma americana e nas fissuras sociais do país, com reverência, amor, mas também raiva. Foi neste momento que o U2 abraçou o ativismo como peça de seu espetáculo musical e se transformou em uma das maiores bandas do mundo. E é exatamente esse o grupo que volta ao Brasil neste 2017, com um show atual, o melhor que o U2 poderia apresentar neste momento.

Na sonoridade também é um ganho. A banda está mais potente do que nunca, seja na abertura, quando resgata o furor juvenil da época sem o aparato tecnológico, no palco secundário próximo ao público, ou até nos hits mais batidos que aparecem frescos e pesados enquanto a América redescoberta aparece cinematográfica no gigantesco telão, largo como uma tela de Imax.

O impacto sonoro dos riffs marcantes de "Where the Streets Have No Name", "I Still Haven't Found What I'm Looking For", With or Without You" e "Bullet the Blue Sky", as quatro primeiras canções do disco, justamente as mais famosas, garantiram momentos de pura ovação, mas o show também jogou luz em preciosidades do lado b do álbum, como "Running to Stand Still", "In God's Country" e "Exit". É nesta canção que um certo Trump, pescado de uma antiga série americana, aparece no telão pedindo para que se construa um muro para se proteger. A música, uma das mais obscuras do disco e rara nas turnês, protagoniza o momento mais pesado da apresentação.

Relevantes novamente

O U2 volta ao Brasil pela quarta vez causando furor como nos velhos tempos. Em 1998, a banda aterrissou em terras brasileiras pela primeira vez, quando agitaram a indústria musical com um polêmico disco voltado para as pistas, "Pop". Para o bem ou para o mal, o U2 era uma das bandas mais discutidas na época. Assim foi em 2006 e 2011, em menor escala, mas com os mesmos shows grandiosos e concorridos.

Desta vez, a banda surpreendeu ao esgotar quatro datas, dando adeus a uma fase que o deixou desconectado com o mercado, as rádios e o público mais jovem. Os teens, presença certa em quase todos os shows que invadiram o Brasil no segundo semestre, quase não foram vistos na plateia.

A última grande cartada da banda, o disco "Songs of Innocence" (2014), não chegou a ser ouvido com atenção, tamanha rejeição que causou a ação forçada de distribuição gratuita em cada dispositivo da Apple. A partir daí, nem a notícia de que Bono tinha ficado loiro conseguiu chamar atenção. O resultado foi uma turnê grandiosa de divulgação, com um apurado sistema de som, mas sem a repercussão que se esperava de uma banda politicamente inflamada e relevante no rock. O jeito foi voltar às raízes.

Para dar um alívio e garantir a mensagem motivacional que se tornou uma marca de Bono e cia., o bis deu espaço para os sucessos dos anos 2000, como "Beautiful Day", "Elevation" e "Vertigo", sem deixar de encerrar a apresentação com uma mensagem forte.

"Ultraviolet" foi tocada com imagens de grandes mulheres da história -- incluindo as brasileiras Irmã Dulce, Maria da Penha, a atriz Taís Araújo e a pintora Tarsila do Amaral. "Mulheres de todo o mundo, uni-vos", pediu Bono.

Lucas Lima/UOL
Bono Vox ganha balão em formato de coração de fã no show de abertura do U2 em São Paulo Imagem: Lucas Lima/UOL

Setlist

Sunday Bloody Sunday
New Year's Day
Bad
Pride (In the Name of Love)

The Joshua Tree
Where the Streets Have No Name
I Still Haven't Found What I'm Looking For
With or Without You
Bullet the Blue Sky
Running to Stand Still
Red Hill Mining Town
In God's Country
Trip Through Your Wires
One Tree Hill
Exit
Mothers of the Disappeared

Bis:
Beautiful Day
Elevation
Vertigo

Bis 2:
You're the Best Thing About Me
Ultraviolet (Light My Way)
One

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