Música

Criador do hip-hop é impedido de tocar na mostra Feira Preta, em São Paulo

Jotabê Medeiros/UOL
Afrika Bambaataa na frente ao palco do Feira Preta, justamente no horário em que deveria tocar, acompanhado da Zulu Nation Imagem: Jotabê Medeiros/UOL

Jotabê Medeiros

Colaboração para o UOL

21/11/2017 08h12

Na noite dessa segunda-feira, um homem de óculos espelhados, boné e medalhão gigante no pescoço caminhava sem pressa pelo meio de uma multidão no Anhangabaú, parando para tirar fotos com moças sorridentes, artesãos de durepoxi, rapazes estilosos, pais com crianças, seguranças de portarias, sem-teto e quem mais o abordasse. A peculiaridade é que o homem era uma lenda do hip-hop, reconhecido mundialmente como um dos inventores do gênero: o rapper norte-americano Afrika Bambaataa, de 60 anos.

Em sua peregrinação pelo Anhangabaú, acompanhado dos rappers de seu coletivo, o Zulu Nation, Bambaataa fez a festa das selfies. Mas, apesar de ter seu nome no cartaz da festa a que comparecia, ele só chegou até a borda do palco principal. “Por que ele está fazendo isso com a gente?”, perguntou uma menina, desconsolada com o anúncio do cancelamento do show que Bambaataa faria às 20h na Praça das Artes, no Anhangabaú, centro de São Paulo, como atração principal da 16ª edição da mostra Feira Preta. O empresário do rapper, Naf, respondeu: “Bambaataa quer tocar. E fazer as pessoas dançarem. Mas não deixaram”.

O cancelamento do show, por iniciativa da organização, foi um choque para o artista. “Nunca vivi nada parecido. Vou tocar ainda em Brasília e no Rio, acabo de tocar em Belém”, disse. Bambaataa veio a São Paulo e se hospedou em um hotel na região da Consolação somente para a apresentação (ele tocaria logo após Liniker e os Caramelows e DJ Zezão).

O festival paulistano divulgou comunicado acusando “divergências contratuais” como o motivo oficial do cancelamento. Mas o UOL apurou que o motivo pode ter sido uma preocupação com a imagem. O rapper foi alvo de acusações de abuso sexual no ano passado. A mostra se define como uma atividade que prima pela preocupação e valoriza e estimula a cultura negra e iniciativas colaborativas que reforcem a identidade afro-brasileira.

Bambaataa disse que as acusações que sofreu jamais chegaram aos tribunais porque eram “falsas” e “difamatórias” e os acusadores desistiram de levar adiante. Ele trouxe dos Estados Unidos um documento da Corte Federal do Distrito de Columbia, em Washington, registrando um aviso C&D (Cease and Desist, Cessar e Desistir), notificando todas as pessoas que reproduzirem certos fatos veiculados pela mídia ou redes sociais da possibilidade de ação penal.

Jotabê Medeiros/UOL
Afrika Bambaataa na Praça das Artes, em São Paulo, em fotos com fãs Imagem: Jotabê Medeiros/UOL


“É uma tolice. É a única palavra que posso usar para definir isso”, disse o rapper na portaria da Praça das Artes, num esforço para falar com a organizadora do festival, Adriana Barbosa. “Estou aqui para saber o que está acontecendo”, afirmou. Acabou não sendo recebido por ninguém do festival.

A assessora de imprensa do Feira Preta, Bia Vianna, sentenciou: “Ele não é uma atração da feira mais”. Embora informada que Bambaataa estava ali e queria falar com a organização, Bia perguntou se o repórter era “porta-voz” do rapper e informou que o produtor de Bambaataa deveria pedir formalmente por um encontro. Ela não especificou quais as “divergências contratuais” que impediram o show, mas disse que eram coisas que não foram resolvidas a tempo e o evento nem chegou a fechar contrato com o artista.

“No momento em que a gente começou a apalavrar, começou a anunciar. Mas no decorrer da negociação a gente entendeu que não tinha como fechar o contrato por divergência mesmo”, ela contou. “Tem parceiros que a gente precisa prestar contas, no caso a Prefeitura”.

Bambaataa tinha se apresentado na madrugada de sábado para domingo no festival Se Rasgum, no Parque dos Igarapés, em Belém do Pará. De lá, embarcou para São Paulo. Em 1982, quando lançou Planet Rock, baseado em duas canções do Kraftwerk, ele estabeleceu as fundações do hip-hop e do electro.

Acusações

A principal suspeição contra o rapper surgiu em 30 de março do ano passado na revista "Billboard", que noticiou acusações de Ronald Savage, 50, que responsabilizou o artista por tê-lo molestado cinco vezes nos anos 1980, quando Savage era adolescente e integrava o coletivo Zulu Nation, de Bambaataa, sob o codinome de Bee Stinger.

Savage incluiu a acusação em um livro, "Impulse Urges and Fantasies", de 2014. Nas semanas após a revelação de Savage, outros três homens surgiram com denúncias de abuso contra Bambaataa. Em um comunicado, seus advogados disseram que as acusações continham “falsidades” e que partiam de “pessoas menos conhecidas procurando publicidade”.

Em abril, um homem chamado Hassan Campbell, um outro identificado apenas como Troy e outro que pediu anonimato repetiram a história de Savage. Um ex-guarda costas do rapper, Shamsideen Shariyf Ali Bey, também foi ouvido pela publicação referendando os relatos.

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