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06/11/2009 - 15h47

Um dos momentos mais marcantes do "Brega S/A" morreu na sala de edição, diz diretor do filme

VLADIMIR CUNHA*
Especial para o UOL Música

Estávamos há dois dias sem dormir em um quarto minúsculo de um prédio de quitinetes no bairro do Jurunas, acompanhando a jornada de trabalho do DJ Maluquinho.
 
Em cerca de 48 horas, ele havia armado a gravação de um DVD que sairia a tempo de ser lançado no início de sua turnê pelo interior do Pará e Maranhão.
 
O custo da empreitada? Cinco mil reais. Entupido de energético e uísque, assim como nós, Maluquinho varou a noite acompanhando a edição do vídeo. Dentro de no máximo três horas, ele tinha de estar pronto para ser copiado nas inúmeras centrais de reprodução piratas do centro comercial de Belém.

Tecnobrega é trilha sonora da periferia de Belém do Pará; veja o filme "Brega S/A" e ouça os hits do estilo
 
Em um determinado momento, sem que pedíssemos, começou a detalhar seus planos de dominação mundial.  Em silêncio, ouvimos uma diatribe de quase 30 minutos, Maluquinho de olhos fixos na câmera, com gestos grandiosos, a cabeça a mil, pilhado de tanta cafeína correndo pelas veias. E nós com a certeza de que estávamos vendo ali um momento de iluminação pessoal do astro tecnobrega.
 
“A gente junta três, quatro, cinco bandas”, disparou ele, “Quanto tu tem? 500 reais? Então me da pra cá que a gente vai gravar duas músicas tuas. Tu tem o que? Três mil? Me dá que vamos comprar um teclado que preste. E tu? A tua música é uma merda. Me dá R$ 1 mil que a gente compra umas duas músicas boas pra ti. Vamo agora comprar um programa de rádio. Quanto tu tem? Mil? Passa pra cá. Tu tem quanto? Nada? Então sai fora que tu é liso. Agora vamo fazer um show pra juntar cem mil e prensar 200 mil DVDs pra distribuir no pirateiro e ficar conhecido”.
 
“Aí aluga um ônibus e se manda pro nordeste. Vai tocar em Imperatriz dia 15 de maio? Então dia 15 de abril tem que ter 20 mil DVDs espalhados nos pirateiros de lá. Vinte mil DVDs sai por R$ 10 mil. Só que a gente vai massificar e o DVD vai tocar tanto que, quando a gente for tocar lá, vai ter pelo menos umas 30 mil pessoas. Coloca ônibus plotado, criança correndo, caravana de moto-taxi e uma porrada de foguete. É pra galera saber mesmo que a gente chegou. Trinta mil pessoas a R$ 15 o ingresso, com a gente fazendo porta e o festeiro o bar, da R$ 450 mil. Isso limpo, só pra gente, em troca de um investimento de quanto? Trinta, R$ 40 mil?”
 
E assim foi. Em pouco mais de meia hora ele explicou toda uma cadeia produtiva que levamos dois anos para compreender a fundo, explicando não só o papel dos pirateiros e camelôs, mas ainda a posição que os DVDs e as coletâneas de tecnobrega ocupam dentro da escala de consumo da periferia do norte do Brasil.
 
É a última etapa no longo caminho percorrido pelos discos produzidos por Marcos e Gaiato, donos da aparelhagem Vetron e autores das coletâneas de tecnobrega mais vendidas do Pará, e pelas músicas criadas por Maderito e Marlon Branco nos fundos de quintal da periferia de Belém. O sonho de todo artista tecnobrega: gravar um hit que um dia será um sucesso na informalidade, amplificando seu nome para as regiões mais longínquas do Brasil profundo, o que garantirá sua sobrevivência com shows de 30 mil pessoas a R$ 15 o ingresso, como profetizou Maluquinho sobre o seu ainda incerto futuro.
 
Fazer sucesso no sudeste é só um detalhe. E Maluquinho sabia disso quando anunciou que estava indo embora de Belém para ir morar no interior do Maranhão. De lá, queria montar uma base de produção que lhe permitisse fazer shows por todo centro-oeste, nordeste e norte do Brasil. Mas aos 30 e poucos anos de idade, começou a perceber que talvez já estivesse velho demais para ser um ídolo pop. “Olha, Vladimir”, me disse ele certa vez, “isso é rídiculo demais.  Imagina eu com 40 anos, vestido de mulher, de sunga no palco, com essa panela toda amassada na cabeça, dançando. Eu sei que meu tempo tá passando. Só que eu sei que no futuro, Vladimir, em dois, três anos, eu não vou ser o artista que está em cima do palco cantando tecnobrega. Mas sei que vou ser, pelo menos, o cara que está nos bastidores empresariando ele”.
 
Eu ainda me encontraria mais uma vez com Maluquinho, na gravação do seu quinto DVD na casa de shows Kuarup, um boteco com música ao vivo localizado na saída de Belém. Na platéia, pouco mais de 200 pessoas assistiam ao seu show, a velha rotina de mulheres seminuas, músicos fora de forma vestidos de super-heróis e gozações com times de futebol locais. Vestido de mulher, com uma panela enfiada na cabeça, ele repetiria mais uma vez todas as piadas e números que eu estava acostumado a assistir desde que começamos a registrar seus shows para o filme.
 
Foi a última vez que nos falamos. No camarim, depois de um show melancólico e de pouco sucesso, Maluquinho trocou de roupa e anunciou que dentro de alguns dias estava indo embora de Belém. Os planos continuavam os mesmos: armar acampamento em alguma cidade do centro-oeste, compor um hit, gravar mais um DVD e torcer para que a pirataria lhe desse um segundo momento de fama.
 
Antes de ir embora, apertamos as mãos e nos despedimos. Quanto a mim, só me restou lhe desejar boa sorte.

* Vladimir Cunha é diretor do documentário "Brega S/A" com Gustavo Godinho
 

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