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26/03/2010 - 14h53

Renato Russo: Um cara que me ensinou algumas coisas que eu sei

BIA ABRAMO
Especial para o UOL
  • Renato Russo durante show da banda Legião Urbana em São Paulo (16/06/1994)

    Renato Russo durante show da banda Legião Urbana em São Paulo (16/06/1994)

Conheci o Renato em um show no Napalm, em 1983. O Napalm era uma casa noturna, onde os punks trabalhavam e os roqueiros pós-punks se divertiam nos anos 80.

Quem entrava no Napalm topava logo de cara com uma foto enorme, de uma criança palestina segurando uma granada. Entendam: nos anos 80, ser um pouco sórdido era visto como a única atitude existencial digna. Se você não era um pouco agressivo, ou desencantado, ou angustiado significava que você era um babaca. Mas não era nem um pouco difícil estar com raiva, decepcionado ou afogado na angústia nos anos 80.

O mundo de relativo bem-estar econômico iniciado depois da Segunda Guerra Mundial estava prestes a desmoronar. O capitalismo era cada vez mais hediondo e o socialismo estava à beira do desastre. Ainda assim, armas nucleares podiam ser detonadas a qualquer momento. Os hippies tinham ou enriquecido ou enlouquecido. A ditadura militar ainda não tinha exatamente acabado aqui no Brasil. Tocava "Ursinho Blau Blau" no rádio. Enfim, motivo não faltava.

E uma noite, a gente estava lá, no centro de São Paulo, e vieram uns caras de Brasília, jovens e furiosos e que tinham ouvido as coisas certas. The Clash. Joy Division. Magazine. Sex Pistols. Um monte de ska. A banda, na real, parecia meio insegura com os instrumentos, mas tinha atitude. Desespero juvenil, como identificaria com precisão o Smack, outra banda desse mesmo período e cenário.

Fomos falar com os caras. Eles estavam impressionados com São Paulo. Com o fato de que aqui os punks eram, de fato, jovens vindos da classe trabalhadora, não os filhos de diplomatas e altos funcionários do governo que tinham visto o punk na Inglaterra e chegavam ao Brasil arrotando um no future meio postiço como era em Brasília. Nós também estávamos impressionados com eles. Eles eram menos pretensiosos, mais desencanados que a gente. Tinham feito uma banda e pronto. Iam lá e faziam. E o Renato, luzindo no meio daquilo. Renato tinha lido um monte de coisas que eu tinha lido. Renato tinha pensado um monte de coisas que eu tinha pensado. Renato tinha ouvido um monte de coisas a mais. Entendia o pop. Tinha estudado, durante anos a fio, seus ídolos. Tinha traçado uma estratégia para se tornar um.

Ele meio que se apaixonou pela gente, eu e meu namorado. Mais por ele do que por mim. Meu namorado escrevia e ia ter uma banda em poucos meses. Eu quase que só olhava e aprendia, ainda não tinha muito o que dizer. Mas Renato também tinha gostado da gente como casal, meio fofo, meio errado, meio andróginos, meio ambíguos. Bem ao jeito que ele gostava.

Foi breve e intenso. Ele deixou uma fita cassete com algumas músicas ("A Dança" e "Petróleo do Futuro"). Trocamos umas poucas cartas. Fomos a Brasília ver um show na UnB. Depois de alguns meses, eles voltaram, a caminho do Rio. Iam assinar com a gravadora. Tinham optado por entrar na máquina, pensávamos com uma certa inveja e muita condenação moralista.

Quando saiu o primeiro disco, fingimos que não tínhamos gostado muito. Que o rock deles era muito adolescente, pouco original, e a produção estava muito ruim. Mas, no fundo, eu gostava. As letras do Renato tinham uma simplicidade desconcertante e uma sinceridade meio brutal (e a gente estava muito interessado no que tínhamos a dizer sobre o mundo e para o mundo). Eram, de certa forma, politizadas e críticas, coisa que também parecia essencial à época.

Depois que aqueles meninos brasilienses tinham virado "A" Legião Urbana ("nós somos a Legião Urbana, somos de Brasília" era como um Renato surpreendentemente tímido anunciava todos os shows), fui vê-los tocar numa insólita caravela-boate plantada na avenida 23 de maio. Renato dedicou "Ainda É Cedo" para mim. Quase morri. Tinha sido abandonada por aquele meu namorado e estava de coração partido, também balbuciando "ainda é cedo" para o travesseiro em noites lacrimosas e insones.

Depois, virei jornalista e comecei a acompanhar a banda e Renato em sua trajetória ascendente. Entrevistei Renato algumas vezes. Era a entrevista mais fácil e mais difícil do mundo. Não precisava nem pensar nas perguntas. Era só fazer uma que ele desatava a falar. Falava feito uma matraca. Falava bem, pensava coisas interessantes e sabia muito bem como jogar com o poder das palavras. Mas depois começava uma espécie de pesadelo: dava uma enorme trabalheira transcrever os quilômetros de fita de uma fala toda circular, que pulava de um assunto a outro e voltava para um ponto que parecia ser o inicial, mas era um tantinho diferente.

Vi muitos shows, como jornalista, e sempre ficava impressionada com a capacidade de ele tocar as pessoas, com seu jeito no palco e com as palavras que ele cantava. Gente vidrada naquilo que ele dizia, como se aquelas palavras tivessem sido escritas para cada adolescente deprimido na plateia. Ou para cada jovem adulto cheio de dúvidas. Para cada um que tivesse algum dia ficado trancado no quarto chorando uma tarde inteira por que estava angustiado com tudo: o mundo que não o compreendia, o amor que não vinha, a existência que, simplesmente, machucava. Everybody hurts, all the time.

A última vez em que vi e entrevistei Renato foi à época do lançamento de "The Stonewall Celebration Concert". Fazia anos, desde a última vez. Falamos e tomamos diversas garrafas de água com gás. Ele falou do namorado morto por overdose, de AIDS, de drogas, de sua decepção por Michael Stipe insistir em continuar no armário. E, claro, de música e do sentido de fazer um disco-tributo a Stonewall.

Voltei a São Paulo no mesmo dia, preocupada com as três horas de fita, mas também pensando muito em como Renato estava lutando, ainda muito intensamente, para dar um sentido à vida.

A fúria já não era mais adolescente (ele passara já dos 30), mas o fogo era o mesmo. Por diversos caminhos, tinha tentado manter acesa a febre pura e honesta da juventude, ao mesmo tempo em que tinha de se haver com a inevitabilidade do crescimento. Havia uma espécie de nota trágica em tudo aquilo, como se ele sempre tivesse procurado ser fiel a uma verdade que lhe escapava pelos dedos, porque é da natureza da verdade estar longe e perto.

Sei lá se era isso mesmo. Foi o que eu pensei, por que isso combinava com o que eu, então chegando aos 30, vivia à época. E era isso mesmo que ele sabia fazer: dizer que estava tudo bem e que, mesmo metidos no mais profundo dos buracos, todos nós éramos humanos e esquisitos e trágicos e belos.

Bia Abramo é jornalista, professora de Jornalismo na Facamp e consultora da editoria de Treinamento na Folha de S.Paulo.

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