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Morrissey volta ao Brasil em boa forma e mais ativista do que nunca

Tiago Dias

Do UOL, em São Paulo

18/11/2015 00h05

A aguardada volta de Morrissey ao Brasil teve um sabor especial para os fãs. No teatro Renault, em São Paulo, casa de musicais com pouco mais de 1.500 lugares, os fiéis adoraram seu seguidor mais de perto do que o de costume e ouviram cada hit da carreira solo (e algumas poucas pinçadas do Smiths) com um som perfeito -- alto e bem equalizado. As cadeiras eram mera formalidade e a plateia preferiu ficar de pé. "Não daria para ficar tão próximo de Morrissey, assim, sentado", disse o fã Elton Nogueira, 34, que ainda secava as lágrimas após o fim do show.

O contato mais próximo fez com que o cantor conversasse mais com o público, distribuísse autógrafos em capas de disco e fosse agarrado com mais facilidade no gargarejo, logo no início do show, com "Suedehead". Ao microfone, chegou a dividir com os fãs que foi procurado para gravar com o "Fantástico", da TV Globo. Ao ouvir vaias e gritos, o cantor parecia ter se decidido em não aceitar o convite: "ok, se eu aparecer lá só algumas pessoas vão gostar".

A voz desgastada (mas ainda potente) e o suor que o banhava cada vez que ele espalhava o fio do microfone foram significativos. O cantor retorna ao país após ser diagnosticado com câncer no esôfago. Em 2013, ele cancelou a turnê na América Latina devido a uma severa intoxicação alimentar. Volta agora com hipertensão e o cabelo cada vez mais ralo por causa da medicação.

Não foi, no entanto, uma versão mais cansada do ícone dos anos 1980. Morrissey parece que voltou com energia redobrada e ainda mais político -- sua grande inspiração, disse em entrevista ao UOL.

Em "Ganglord", imagens da violência policial ao redor do mundo tomaram o telão. A canção foi seguida por "World Peace is None of Your Business", do recente disco de mesmo nome, em que ele cita o Brasil ao disparar contra o sistema capitalista. O público que vibrou com os clássicos do Smiths, "How Soon is Now" e "This Charming Man", também cantou a nova música com a mesma dedicação.

Antes de "Earth is Loneliest Place in the World", o cantor pediu para os brasileiros não deixarem o país. "Eu andei por São Paulo, muitas pessoas muito bonitas. Vocês são muito sortudos, se eu fosse vocês ficaria por aqui. Em outros lugares temos problemas, problemas diferentes".

No bis, a homenagem foi para Paris, alvo de extremistas nesta semana. Com a bandeira da França no telão, tal qual o filtro do Facebook, o cantor escolheu "I'm Throwing my Arms Around Paris" ['Eu estou jogando meus braços ao redor de Paris'], cantando que apenas a pedra e o aço da cidade podem aceitar seu amor. "Vamos falar de coisas boas contra as coisas ruins", disse, antes de emendar uma versão punk de "The Queen is Dead", agora com a imagem da Rainha Elizabeth com o dedo do meio erguido.

"Carne é assassinato"

Vegetariano ferrenho, o cantor foi além no seu ativismo. Dessa vez, ele proibiu a venda de alimentos com carne no teatro, o que gerou certo desconforto em alguns espectadores. "Achei bizarro, se ele não quer comer carne, tudo bem, mas obrigar seus fãs a não consumirem é um pouco demais", disse Letícia Palazzi, 39, que preferiu o show no teatro para ver Morrissey mais de perto. Quem preferiu beliscar no local, teve que se contentar com pão de queijo ou de batata.

Outra exigência foi uma mesa da Peta na entrada de cada apresentação. Laura Kim, do site veganismo.org.br, representou a importante organização de defesa aos animais. "Recebemos esse pedido da Peta nos Estados Unidos. Foi uma exigência do Morrissey. Está bem legal, o pessoal está bem mais receptivo do que geralmente é com o tema", comemorou. Todos estavam de olho nas plaquinhas na mesa com os dizeres "Meat is Murder" [Carne é Assassinato, em português], nome da canção mais ativista da causa.

No show, a música lançada pelo Smiths em 1985 foi, como de costume, acompanhada das cenas brutais de abatimento de animais. Morrissey estava especialmente animado -- apontava para o telão enquanto cantava. É a única hora que alguns fãs abaixam a cabeça e desviam o olhar do ídolo.

Passada a cena de tortura, o centro da atenção volta a ser o Morrissey. Para o público que lotou o teatro, em sua maioria com mais de 30 anos, o ícone vital dos anos 1980 ainda é atemporal e tem muita energia para queimar.

Setlist

Suedehead
Alma Matters
This Charming Man
The Bullfighter Dies
Speedway
Ganglord
World Peace Is None of Your Business
How Soon Is Now?
First of the Gang to Die
Reader Meet Author
Earth Is the Loneliest Planet
You'll Be Gone (Elvis Presley cover)
Mama Lay Softly on the Riverbed
Kiss Me a Lot
Meat Is Murder
Everyday Is Like Sunday
Oboe Concerto
You Have Killed Me
I Will See You in Far-Off Places
Let me Kiss You

BIS

I'm Throwing My Arms Around Paris
The Queen is Dead