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Morrissey: "Fui advertido para evitar emoções, mas raramente eu as tenho"

Tiago Dias

Do UOL, em São Paulo

17/11/2015 06h00

A reação dos fãs é sempre de adoração, mas Morrissey está longe de ser qualquer divindade. Ele se reconhece mais como um mundano solitário. "Meu contato social é, em grande parte, inimaginável", observa, sem rodeios. Sua trajetória nos últimos anos, no entanto, é própria de um santo sofredor.

Aos 56 anos, um dos maiores ídolos dos anos 1980 volta ao Brasil para quatro shows --que começam nesta terça-feira (17), em uma apresentação intimista no Teatro Renault, em São Paulo, para pouco mais de 1.500 pessoas -- como um sobrevivente.

Desde a sua última passagem por terras brasileiras, em 2012, ele descobriu e se curou de um câncer no esôfago e cancelou uma turnê pela América Latina em 2012 por ter contraído uma grave intoxicação alimentar. "Minha pressão arterial estava 200/90, o que qualifica morte", conta, em entrevista por e-mail ao UOL. Pacientes com hipertensão grave costumam ter pressão arterial média de 180/90.

Morrissey desembarca agora com a própria comida na bagagem e sob medicação extrema para controlar a hipertensão. O remédio, ele conta, lhe faz perder os cabelos que lhe deram um famoso topete, mas não a fina ironia. "Eu fui advertido [pelos médicos] para evitar qualquer emoção, mas raramente eu as tenho", diz o homem que canta "Suedehead" com o coração na mão.

UOL - Você volta ao Brasil após ter cancelado a apresentação de 2013. O que exatamente aconteceu na sua última turnê na América do Sul? E como você está?

Morrissey - Eu desenvolvi uma intoxicação alimentar no Peru assim que pousamos para a nossa turnê sul-americana. Eu só tinha comido tomate e massa. Eu fiquei em um estado terrível por duas semanas, vômitos sem parar, incapaz de andar, com uma sopa de sangue escorrendo de mim. Foi um pesadelo para todos. Uma vez que os médicos começam a falar em transfusões de sangue, você começa a rastejar de volta para o aeroporto. Desta vez, eu estou trazendo a minha própria comida. Eu nunca tive hábitos alimentares particularmente sofisticados.

Na época, você chegou a ser hospitalizado e disse que esteve "oficialmente morto por nove minutos". Após este ocorrido, os médicos lhe pediram para que parasse de fazer turnês. Você já pensou em se aposentar?

Minha pressão arterial estava 200/90, o que qualifica morte. Minha hipertensão tem estado sob medicação extrema desde então, o que tem funcionado bem, mesmo que perdendo um monte de cabelo. Eu fui advertido [pelos médicos] para evitar qualquer emoção, mas raramente eu as tenho.

Sou motivado, de forma reacionária, por qualquer forma de injustiça social, porque eu desprezo intimidação, assédio moral e a ameaça da monarquia (...) Todos nós devemos aprender a pensar por nós mesmos... o que é, claro, muito desanimador

 

Semanas depois de lançar o álbum "World Peace is None of Your Business" (2014), você foi mandado embora da gravadora Capitol/Harvest. Como encarou este momento?

Harvest se livrou de mim durante a minha doença, o que foi uma selvageria da parte deles. Eu estava em uma cama de hospital em Boston e, por acaso, eu recebi uma mensagem do chefe da Harvest [Steve Barnett], que foi emitida para toda a empresa, e ele disse: 'Não se envolvam com Morrissey'. Pessoas muito atenciosas.

Você está publicando o seu primeiro romance, "List of the Lost". Sobre o que é este livro?

O livro é sobre demonologia. Um miserável aparece como um presságio das mortes iminentes dos quatro personagens principais do livro. Não se trata de culinária ou do Liverpool FC, portanto, não foi muito bem recebido pelos críticos do Reino Unido.

Em sua autobiografia você se recorda das turnês que fez pelo mundo. O que o Brasil te trouxe de tão memorável?

Eu sempre menciono a menina cega de São Paulo, que conseguiu subir ao palco e, em seguida, estendeu a mão para me encontrar. Eu não imagino que isso tenha acontecido com qualquer outro artista na história da música.

Em outro trecho, você fala sobre sua primeira paixão, quando descobriu ser "humanssexual". O que isso significa? Você ainda se sente assim?

Eu acho que todos nós somos "humansexual" porque estamos todos atraídos por seres humanos, e para exatamente os mesmos fins. Não há nada remotamente diferente sobre o que todos nós procuramos: alguma realização pessoal no amor.

Enquanto os fãs te veem como uma divindade, você se define como um homem autossuficiente. Não sente falta de qualquer contato social?

Obviamente eu não sou um deus, mas o que é evidente é que eu não sou uma cópia de qualquer outra pessoa na música, e eu não tenho ligações com a indústria da música. Meu sucesso nem sempre dependeu da maquinaria, portanto, o que eu sou? Minha posição não é comprada e eu não caio em qualquer generalização, mas mesmo assim eu tenho uma vida na música. Quanto ao contato social, isso é em grande parte inimaginável.

Um dos desejos mais ardentes dos fãs é, certamente, uma reunião do Smiths, algo que você sempre negou de forma categórica. E agora o Smiths está entre os indicados para o Rock and Roll Hall of Fame. Você subiria ao palco caso vencesse?

Eu não sou um integrante do Smiths, então por que eu estaria lá em cima recebendo um prêmio? Nenhuma parte da minha vida depende de uma reunião do Smiths. A questão já não precisa de uma resposta.

Você é muito crítico quanto ao consumo de carne e muitas ações políticas ao redor do mundo. Por qual causa você boicotaria um país?

Eu não fui para o Canadá durante muitos anos por causa da caçada anual de bebês focas. Sei que os assassinos japoneses amam golfinhos, e, claro, no Reino Unido assassinam milhões de animais a cada hora do dia. Mas há algo sobre a matança dessas focas que ultrapassa todos os limites da sanidade. O mundo será sempre um lugar doente enquanto não houver justiça social para os animais.

Diante disso, como você se inspira e se sente motivado?

Sou motivado, de forma reacionária, por qualquer forma de injustiça social, porque eu desprezo intimidação, assédio moral e a ameaça da monarquia. Eu posso sentir uma mudança de atitudes em todo o mundo, em prol do bem-estar animal. Enquanto a indústria da carne continuar, isso significa que os seres humanos simplesmente não têm a menor ideia [de tudo que acontecendo]. Enquanto o Reino Unido, por exemplo, sofrer e resistir a uma monarquia auto eleita, a sociedade britânica não pode evoluir. Todos nós devemos aprender a pensar por nós mesmos. O que é, claro, muito desanimador.


Morrissey no Brasil

SÃO PAULO - TEATRO

Quando: Terça-feira, 17 de novembro de 2015, às 22h
Onde: Teatro Renault - Av. Brigadeiro Luís Antônio, 411 – Bela Vista
Quanto: de R$ 70 (meia, Balcão Vista Parcial) a R$ 620 (inteira, Pista Premium)
Capacidade: 1.565 lugares

SÃO PAULO – CITIBANK HALL
Quando: Sábado, 21 de novembro de 2015, às 22h
Onde: Citibank Hall SP - Av. das Nações Unidas, 17955 – Santo Amaro, São Paulo
Quanto: De R$ 50 (meia, Visão Parcial Plateia Superior) a R$ 600 (inteira, Camarote 1)
Capacidade: 7.064 pessoas

RIO DE JANEIRO
Quando: Quarta-feira, 24 de novembro de 2015, às 21h30
Onde: Citibank Hall RJ - Av. Ayrton Senna, 3000, Cj 1005 - Rio de Janeiro/RJ
Quanto: De R$ 130 (meia, Pista) a R$ 600 (inteira, Camarote)
Vendas:
- Bilheteria do Citibank Hall RJ (sem taxa): Diariamente, das 12h às 20h.
- Internet: www.ticketsforfun.com.br
Capacidade: 8.432 pessoas

BRASÍLIA
Quando: Domingo, 29 de novembro de 2015, às 20h
Onde: Net Live Brasília - SHTN, Trecho 2, Conjunto 5, Lote A - Asa Norte
Quanto: de R$ 150 (meia, Pista lote 1) a R$ 580 (inteira, Pista Premium, lote 3)
Capacidade: 6.000 pessoas

Vendas: www.ticketsforfun.com.br
Classificação etária: de 8 a 13 anos, permitida a entrada acompanhado de responsável; a partir de 14 anos é permitida a entrada desacompanhado