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Rock in Rio chega nos EUA e produtora diz que lá eles curtem atrações pop

Roberta Medina comemora 110 mil ingressos vendidos na primeira edição do Rock in Rio nos Estados Unidos - Doug Van Sant/Divulgação
Roberta Medina comemora 110 mil ingressos vendidos na primeira edição do Rock in Rio nos Estados Unidos Imagem: Doug Van Sant/Divulgação

Tiago Dias

Do UOL, em São Paulo

08/05/2015 06h00

O Rock in Rio finalmente chegou aos Estados Unidos. Nesta sexta-feira (8), o festival abre a Cidade do Rock em Las Vegas com a mesma receita que o tornou, no Brasil, uma máquina de vender ingressos --mesmo antes de divulgar qualquer atração.

Contando com áreas temáticas, tirolesa, roda gigante e um cardápio variado de shows, que vão de Taylor Swift a Metallica, o festival já vendeu 110 mil ingressos por lá, nos quatro dias da programação, embora o espaço comporte 85 mil pessoas por dia. Vice-presidente executiva do Rock in Rio, a produtora Roberta Medina, comemora os números: “É espetacular quando se leva em conta quantos anos são necessários para um evento conseguir se estabelecer por aqui.”

Com a chegada do evento brasileiro ao país conhecido por sediar festivais famosos como o Coachella e o Lollapalooza, o jornal “Los Angeles Times” até questionou em um artigo: "Nós realmente precisamos de outro festival?". A aposta do Rock in Rio é que sim.

Lá, a receita será a mesma usada do Brasil, mirando no perfil do público: menos indie, mais família. “Esse negócio do indie é muito legal, mas para algo menor”, diz Roberta, durante entrevista ao UOL por telefone direto de Las Vegas. "Se você oferece uma boa estrutura, por que um pai não pode gostar de ir a um festival de música? Uma pessoa mais velha, mais família, não quer se sujeitar a ir para o camping, pegar grandes filas, falta de banheiro.”

Na edição brasileira, o sucesso segue uma matemática básica: 50% do público tende a se importar mais com a experiência no evento do que propriamente com a música. “Elas vão de qualquer jeito, porque sabem que vai ser uma coisa boa”, explica Roberta. Para assegurar o restante, é necessário um grande nome como headliner, mesmo que seja figurinha repetida --na edição brasileira, em setembro, tocam Metallica, Slipknot, Katy Perry, Rihanna e System of Down, que já haviam se apresentado no Rock in Rio de 2013. 

Ainda segundo Roberta, a organização tentou trazer o Rolling Stones, mas a banda já havia fechado os planos para sua atual turnê, que agora passa pelos EUA. “Nosso público espera bandas maiores”, afirma. Nos Estados Unidos, diz a produtora, o público é um pouco diferente: "Eles reagem muito bem a tudo que é novo." Ela ainda lembra de outra característica da plateia americana, que não reclama das atrações pop do festival. "Aí [no Brasil] o povo reclama, xinga a gente: ‘Que rock o quê!’."

Rock in Rio

  • Anderson Borde/AgNews

    Eu brinco aqui nos Estados Unidos: não é rock, não é Rio e não é um festival tradicional de música. É uma marca, como Pepsi

    Roberta Medina, vice-presidente do Rock in Rio
Cada vez maior e mais internacional, o Rock in Rio também entrou na polêmica da Lei Rouanet no mês passado, quando abriu mão da captação de R$ 12 milhões (7% do orçamento) após aumentar o preço do ingresso, de R$ 260 para R$ 350. Roberta resumiu a questão como algo “burocrático” e defende o uso das políticas de incentivo. "Ninguém pensa no risco desse evento. Esgotou, mas e se não esgotasse? É para isso que as leis de incentivo existem, para você motivar a criação de conteúdo. Sem segurança financeira, você não faz um evento”, defende.

UOL - Era um sonho chegar aos Estados Unidos, não? Como está a expectativa?
Roberta Medina - Está sendo uma experiência muito intensa, mas positiva. Ontem (dia 5) fizemos a visita da Cidade do Rock e foi superbacana. Um dos grandes desafios que estamos enfrentando é o de não ter nenhum evento parecido com o Rock in Rio aqui. Quando você fala de um festival, as pessoas pensam em um festival normal, o que não tem nada a ver com a entrega do Rock in Rio. Quando as pessoas entram na Cidade do Rock, ficam embasbacadas. Nós estamos com uma venda de ingressos muito boa, estamos com 110 mil vendidos [para os quatro dias de festival], e isso é espetacular, quando se leva em conta quantos anos são necessários para um evento conseguir se estabelecer aqui com dimensões mais significativas. Las Vegas é uma cidade onde as pessoas compram ingressos de última hora. Existe a expectativa de aumento significativo para este e para o outro fim de semana.

Existe uma relação entre os públicos americano e brasileiro?
Vamos descobrir mais sobre o público americano. Tem uma parte comportamental que ainda não sabemos. O Rock in Rio provoca comportamentos diferentes pela atmosfera que ele cria, pelo público diversificado. Os eventos que servem de referência são mais voltados para os jovens. O Palco Sunset aí no Brasil leva talentos novos, mas leva mais grandes artistas, porque os brasileiros reagem muito bem a esses artistas de renome. Aqui, o palco traz grandes nomes como Joss Stone, Jessy J. e Foster the People, mas também traz uma leva de bandas muito novas que estão nas rádios aqui. Bandas como Metric, Charli XCX. Eles reagem muito bem a tudo que é novo. Nós já vendemos ingressos para 32 países e 47 dos 50 Estados [dos EUA]. Claro que há uma concentração maior em Los Angeles e Las Vegas. É um país que não se espalha muito, é um trabalho local. No Brasil, 45 % das pessoas vêm de fora do Rio. O Brasil conta com uma característica rara, que é a TV Globo, um canal de televisão que é visto nacionalmente. Aqui não há nada disso. Nacional é só a bandeira. A comunicação e o relacionamento são localizados.

Rock 2

  • Quando esgotamos 100 mil ingressos, sem anunciar nenhum artista, é por que o público vai de qualquer jeito. As pessoas entram em contato com seu ser. O Rock in Rio é um espaço para as pessoas serem felizes. Não existe julgamento dentro de um festival como esse.

    Roberta Medina, sobre a "experiência" do público
Uma das reclamações do público é que o Rock in Rio sempre traz bandas que já vieram em outras edições, como o Metallica, embora isso não seja um empecilho na hora das vendas. É uma estratégia ou há dificuldade para conseguir atrações inéditas?
É um pouco dos dois. Nós temos que avaliar os eventos pelas suas proporções. Você ir ao Circo Voador ver uma banda nova é sensacional, e esgota. Mas, quando você fala de um evento com 85 mil pessoas por dia, você tem poucas opções de headliner que seguram a onda para uma venda significativa. E isso porque ainda temos o privilégio de que mais de 50% do público vai porque quer estar na festa. Eles sabem que vão para uma coisa boa. O headliner tem um peso importante para a porcentagem restante que vai pelo artista. Em um ano de contratação, tem muito artista que não está em turnê, que está em férias. Não tem dinheiro que os tire de casa. Não é um problema do Brasil, é do mundo. Você tem mais países contratando, a Polônia há uns 15 anos não contratava, agora contrata. Tem outra coisa, um reflexo positivo. Pensa lá: quem dessas opções dessa dimensão já não foi ao Brasil? Isso é bom, todos vão. No Rock in Rio em 1985, ninguém ia. O grande desafio é como você monta um line-up bacana, que segura a onda desses 40 e pouco por cento que estão indo pela atração. Nosso público espera bandas maiores. Porque elas não podem voltar?

É uma tendência as pessoas irem a um festival mais pela “experiência” do que pelas atrações?
Sim, mas no caso do Rock in Rio já é uma realidade há muito tempo. Quando esgotamos 100 mil ingressos sem anunciar nenhum artista é porque as pessoas vão de qualquer jeito. O “live entertainment” tem essa função. As pessoas estão cada vez mais isoladas, enfiadas em computadores e telefones. Uma experiência que me fez entender isso foi a Disney. Você vê as pessoas fazendo coisas em parques de diversão que não fariam no meio da rua. As pessoas entram em contato com seu ser. O Rock in Rio é um espaço para as pessoas serem felizes. Não existe julgamento dentro de um festival como esse.

Parece que os outros festivais brasileiros têm percebido isso. O Lollapalooza tem aberto mais espaço para artistas mais pop e da música eletrônica, com atrações à parte, como roda gigante, enquanto o Tomorrowland, que estreou no Brasil no último fim de semana, é completamente construído em cima dessa “experiência”. Como você vê essa concorrência?
Eu acho que todo o mundo aprende com todo mundo, esse é o mercado inteligente. Quando o Lolla começa a se abrir para um tipo diferente de atrações, ele está fazendo o que as pessoas querem. Aí voltamos àquela discussão: ‘Pô, o Metallica de novo?’ As pessoas querem isso. É muito difícil você fazer um evento de grande dimensão com um estilo musical só. Esse negócio do indie é muito legal, mas para algo menor. No caso do Rock in Rio, ele teve um processo natural que nós apenas ficamos atentos e reagimos a isso. Percebemos que quem estava lá eram os pais que foram na primeira edição e levavam seus filhos para ver o que era aquele tal Rock in Rio. Você passa a ter um novo público lá dentro e precisa se organizar para isso. Se você oferece uma boa estrutura, por que um pai não pode gostar de ir a um festival de música? Uma pessoa mais velha, mais família, não quer se sujeitar a ir para um camping, pegar grandes filas, falta de banheiro, poeira.

A tradicional queima de fogos do festival durante visita da imprensa em Las Vegas na terça-feira (5) - Doug Van Sant/Divulgação
A tradicional queima de fogos do festival durante visita da imprensa em Las Vegas na terça-feira (5)
Imagem: Doug Van Sant/Divulgação
Como estão os preparativos para o Brasil? Já soube que a tirolesa será maior.
A montanha-russa vai ser maior, vai ter até um loop. A tirolesa, de fato, vai estar com outra estrutura. Vamos inaugurá-la aqui em Vegas. Estamos dedicando a Rock Street de Las Vegas ao Brasil, e é essa que vamos levar para aí. Fora o palco que é dedicado aos arcos da Lapa. Vai ser um sucesso, vai ter um line-up bacana, com Carlinhos de Jesus dançando, capoeira, bumba meu boi. Vai ser 100% brasileira.

Quem vocês tentaram trazer para o Brasil este ano e não conseguiram?
Tentamos o Rolling Stones, que tinham tocado no Rock in Rio Lisboa.  Tentamos, mas eles já estavam programando a turnê deles.

Em abril, o festival abriu mão de R$ 12 milhões que estavam para ser captados via Lei Rouanet, 7% do orçamento do festival, por conta da falta de tempo hábil para reajuste de preços. Os ingressos custariam R$ 260, mas acabaram sendo vendidos por R$ 350. O que aconteceu?
Nós devolvemos R$ 4 milhões que já haviam sido captados. Tínhamos compromissos para captar R$ 12 milhões. O que aconteceu, sinceramente, foi um problema que a própria imprensa criou. Concordando ou discordando da Lei Rouanet, desde que existe uma lei em que o evento se enquadra, ele vai se colocar ali. Não está fazendo nada de equivocado. O processo de reajuste de ingresso é absolutamente natural, isso está previsto, você pode alterar. É só pegar como exemplo qualquer evento semelhante, existem tantos que fazem. Com tudo que a notícia criou, óbvio que o Ministério [da Cultura] ficou em uma situação de constrangimento em não aprovar algo que já estávamos prontos para vender. O circo estava na rua já. Uma questão que era burocrática virou palco de discussão da Lei Rouanet. A nossa decisão de abrir mão é que o assunto estava começando a deixar nosso consumidor em dúvida se estávamos fazendo um processo errado. Não íamos sujeitar o público a isso.

Um festival desse porte, cada vez internacional e repleto de patrocinadores, ainda não consegue ser produzido sozinho, sem esse incentivo?
Claro que precisa [do incentivo]. Esse olhar é para quando dá certo, mas ninguém pensa no risco desse evento. Esgotou, mas e se não esgotasse? É para isso que as leis de incentivo existem, para você motivar a criação de conteúdo. Sem segurança financeira, você não faz um evento. Enquanto existirem incentivos, nós vamos buscá-los para que o evento possa acontecer com tranquilidade.

O público americano não reclamou do ‘Rock’ no nome Rock in Rio como acontece aqui no Brasil?
Sabe o que é engraçado? Aqui isso não é uma questão. Aí no Brasil, assim que a gente anuncia a Katy Perry, as redes sociais vão abaixo. O povo reclama, xinga a gente: ‘Que rock o quê!’. Mas quem é que esgota primeiro? É o clichê de uma minoria. O roqueiro é mais ativista mesmo. Nós aprendemos com o tempo e não nos aborrecemos. Eu brinco aqui nos Estados Unidos: não é rock, não é Rio e não é um festival tradicional de música. É uma marca, como Pepsi.